quinta-feira, 10 de março de 2016

Dead Combo e Tremor:Há Muita Música na Cidade Insular

Dead Combo no Teatro Micaelense
A música irá invadir as ruas e os palcos da cidade de Ponta Delgada na próxima semana. Os portugueses Dead Combo tocam já no sábado, dia 12 de Março, pelas 21h30, no Teatro Micaelense. À semelhança do primeiro disco dos Madredeus e todos os registos sonoros de Carlos Paredes, as cordas dos Dead Combo tornaram-se facilmente identificáveis aos primeiros acordes, denunciadoras de arrebatamento, entrega e paixão. A dupla Tó Trips e Pedro Gonçalves, mais o conjunto de cordas, tudo farão para tornar mais este momento inesquecível.

Cartaz do Tremor 2016
Alguns dias depois, chegará o “Tremor”, uma mostra que dará a ver cinquenta concertos espalhados por escolas, lojas comerciais, salas de espectáculos, espaços institucionais, igrejas, e até numa casa particular, pululando sons pelos lugares públicos e centro histórico de Ponta Delgada. Ao contrário dos anos anteriores, os concertos espalhar-se-ão por cinco dias, há inclusive residências artísticas e conta ainda com concertos surpresa em diferentes estufas. Celebre-se, portanto, a música feita em Portugal e nos Açores, dado que o evento conta com açorianos de boa cepa, casos de Zeca Medeiros, Rafael Carvalho, Medeiros/Lucas, King John, Sara Cruz, Luís Senra, entre outros. Inclusive, nesta terceira edição há música para os mais novos no dia 19, na biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, dia em que se produzirá o maior abalo musical, já que há música non stop que vai até altas horas da madrugada no Coliseu Micaelense. Há quem vaticine que a cidade musical não será a mesma depois deste Tremor, não só pela quantidade de espectáculos bem como pelo impacto e respectivo lastro que esta edição deixará em território insular. Os bilhetes custam 20 euros.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Fellini e Nino Rota

"A minha preferência por Nino Rota como compositor deriva do facto de ele me parecer muito próximo dos meus temas e das minhas histórias e por trabalharmos muito bem em conjunto. Não me refiro ao resultado, mas à forma como trabalhamos. Não me compete sugerir-lhe ideias musicais, porque não sou compositor. No entanto, como tenho ideias muito claras sobre o filme que estou a fazer, incluindo os pormenores, o meu trabalho com Rota faz-se exactamente da mesma maneira que a elaboração do argumento. Fico ao pé do piano a que Nino está sentado e digo-lhe exactamente o que quero. Claro que não lhe dito os temas, só posso guiá-lo e dizer-lhe aquilo que estava à procura. Na minha opinião, Rota é o mais humilde dos compositores que trabalham no cinema, porque compõe uma música extremamente funcional. Não tem a presunção de muitos outros compositores, que querem que as suas músicas sejam ouvidas nos filmes. Sabe que a música de filmes é uma coisa marginal e secundária, que não pode ocupar o primeiro plano, excepto em raríssimos momentos, e que, em geral, se deve contentar em apoiar o resto do que vai acontecendo." 


in “Fellini conta Fellini”, Livraria Bertrand, Tradução de Maria Dulce e Salvato Teles Meneses, 1974.

O Declínio do Cinema

         
"Amarcord" de Federico Fellini
"
Sou muito pessimista porque creio que o público já não tem simpatia pelo grande ecran. Mas não quero continuar a repetir as razões que seriam a causa da desafeição do público: a televisão, o medo de sair à noite, as repugnantes condições do cinema em Itália. O público perdeu o hábito de ir ver um filme porque o cinema perdeu o seu fascínio, o seu carisma hipnótico, a autoridade que outrora teve. A autoridade que outrora teve para todos nós – a de um sonho que sonhávamos de olhos abertos – desapareceu. Será possível que 1000 pessoas possam reunir-se às escuras e fazer a experiência do sonho dirigido por um único indivíduo?"

Federico Fellini - "Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian   Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

Roubo de Arte

       "E o roubo de arte é coisa séria: o quarto maior mercado negro mundial, segundo a revista Foreign Policy, depois da droga, da lavagem de dinheiro. E das armas."

João Pereira Coutinho, in Avenida Paulista, Quasi Edições (2005/2007)

terça-feira, 8 de março de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

Partirás em condição de não saber

Partirás em condição de não saber
a outra já de si desconhecida hesitação
o que de ti escasso veio atesta
ínsula de segredo e fantasia
nunca leveza nem círio de traição
Desvelas um farol à distância
e é como se ao longe o mar devolvesse
a linha do horizonte sem fim à vista.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Conheci um homem que um dia me disse:-"Uma rua não começa nem acaba, é lá que está a minha casa".

Os Poetas

           "O dinheiro está em toda a parte, mas a poesia também. O que falta são os poetas. Os produtores dizem que são poetas, é verdade, porque acreditam que têm público. Eu faço o que faço porque é só isso que sei fazer. É como se tivesse sido feito, mais ou menos penosamente, mais ou menos felizmente, para ser realizador. A vida real não me interessa."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Capítulo C está Pronto!

O culminar deste projecto literário, tido inicialmente como  uma trilogia editorial, deve ser francamente saudado. Este fecho, agora concretizado, correspondeu a uma vontade genuína de dar a conhecer um leque alargado de autores, isto é, a divulgação de poetas residentes nos Açores. O Capítulo C está, portanto, pronto e reúne novamente um conjunto de poetas e poemas bastante heterogéneo, essencialmente com um lanceiro de registos poéticos para diferentes gostos, ideias e estéticas.
Esta publicação relembra também a importância e o aparecimento de espaços públicos que funcionaram como encontros semanais, quinzenais e mensais de actividades públicas de divulgação de poesia: o Poetry Slam de Ponta Delgada, as quintas de Poesia na Travessa dos Artistas ou da TASCÀ, na Rua de Lisboa.  A vantagem de reunir estes poetas e poemas terá ajudado certamente na criação de novos leitores de poesia, ainda o eventual surgimento de novas vozes poéticas, salientando-se neste impulso editorial só por si, ser portador da ideia de comunidade poética, o que não é de somenos. Fica assim fechada a trilogia editorial com a edição do Capítulos C (nada invalida que o projecto não possa crescer ainda mais). A tiragem, para cada uma das três edições, foi de 150 exemplares e contou com o preço simbólico de 2 euros. O designer Luís Andrade coordenou, organizou e fez o grafismo deste projecto apoiado pela Direcção Regional da Juventude dos Açores, através do programa "Põe-te em Cena". Esta súmula reúne assim dois poemas dos seguintes autores: Artur Falcão, Carla Veríssimo, Dalila Bettencourt, Eleonora Marino Duarte, Fernando Nunes, João Malaquias, Jaqueline Torres, José Soares, Júlio Ávila, Leonardo e Luís Augusto. Todos os pedidos dos capítulos A, B e C poderão ser feitos para: capitulospoesia@gmail.com

Ontem, escrito numa parede da cidade

O pescador ao regressar da faina diz ao filho que o mar é verdadeiramente grande mas maior é a viagem que faz quando olha para ele a partir da terra.

quinta-feira, 3 de março de 2016

"Adeus Pai" no Teatro Micaelense

Há vinte anos atrás, Luís Filipe Rocha apresentou nas salas de cinema “Adeus, Pai”. O filme foi filmado nas Ilhas Terceira e São Miguel, para além de Lisboa. Ontem, de manhã, voltou a ser exibido no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, através do Plano Nacional de Cinema, com a sala cheia de estudantes e a presença do realizador. No final do filme houve debate alargado, num acontecimento raro de presenciar pois estavam presentes estudantes de todas as idades que quiseram sobretudo questionar o realizador sobre elementos ficcionais pertencentes à história do filme. Luís Filipe Rocha, que acredita que falar com o público espectador faz parte do caderno de encargos de quem dá a ver os próprios filmes, começou por falar da sua necessidade enquanto cineasta em contar histórias e que aquela era uma ficção que surgiu no entrementes do filme “Sinais de Fogo”. Entre a preparação, rodagem e montagem, esta longa-metragem demorou um ano a ser realizada. A verdade é que este autor de cinema narrativo – “são as histórias que escolhem os seus contadores”- não podia ter melhores companheiros de viagem. Durante uma hora, os alunos das várias escolas da cidade insular, foram incansáveis nas perguntas, revelando assim que houve encontro e empatia com as imagens presentes no filme, denotando uma necessidade em ver “resolvidas” algumas interrogações que o filme suscita. No final, o realizador respondeu que "é muito importante num determinado momento do nosso crescimento ter um pai, alguém que nos pergunte ou simplesmente comente como foi o dia” e, que muito embora “vivamos e suportemos uma realidade palpável, concreta, real, transportamos sempre connosco muita fantasia, imaginação e sonho”. Luís Filipe Rocha, que realizou recentemente a longa-metragem  “Cinzento e Negro”, rodada nas Ilhas do Faial e do Pico, espera poder continuar a mostrar os seus filmes e a “comunicar com eles”.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Barco ao Sol

São Miguel, Jorge de Oliveira e Tereza Arriaga (1972)

Fellini e Rimini

         “A noite passada sonhei com o porto de Rimini, que abria para um mar ondulante, verde, tão ameaçador como um prado em movimento, sobre o qual corressem nuvens baixas, tocando o solo.
          Eu era um gigante, nadando para o mar alto, a partir do porto, que era pequeno e estreito. Disse a mim mesmo: “Posso ser um gigante, mas o mar é sempre o mar. Vamos supor que não sou capaz?" Mas não estava preocupado. Nadei em grandes braçadas pelo porto fora. Não me podia afogar porque tocava com os pés no chão. No mar já poderia ser; mas continuei a nadar como se não fosse nada comigo.
      Era um sonho tipo alimentício, que tendia para restabelecimento da minha confiança no mar. Um convite para uma sobrevalorização pessoal; ou melhor, para subestimar as frágeis condições protectoras que poderiam suster-me. De qualquer modo, não compreendi se deveria desistir da ideia de abandonar o porto ou se estaria a sobrevalorizar-me.
        Seja como for, uma coisa é certa. Não gosto da ideia de voltar a Rimini. Tenho de admitir isto: é uma espécie de bloqueamento. A minha família continua a viver lá, a minha mãe, a minha irmã: estarei com receios de alguns dos meus sentimentos? O que me parece é que regressar é sobretudo uma insistência complacente e masochista da memória: uma acção literal, teatral. É claro que pode ser aí que reside o seu encanto. Um encanto turvo, sonolento. Mas não consigo considerar Rimini com um facto objectivo. É uma dimensão da memória, nada mais. De facto, quando estou em Rimini sou sempre assaltado por fantasmas que já havia arquivado, colocado no seu devido lugar.”

in Fellini conta Fellini, Livraria Bertrand, Tradução de Maria Dulce e Salvato Teles Meneses, 1974.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Ao escritor doía-lhe o corpo de tanto escrever e, quando entrou na biblioteca, sentou-se descansado a ler.