quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
sábado, 31 de dezembro de 2016
Uma Missiva de Janeiro Alves Mesmo no Cair do Pano
Caro Doutor Mara,
Estava eu nos preparos para a
passagem de ano, a abrir uma garrafa de Macieira reserva e a separar as passas
para a meia noite, quando me bateram à porta para me entregarem a sua carta.
Dei-me ao trabalho de a ler, apesar de me ter causado algum transtorno em plena
preparação do fim de ano. E deixe-me que lhe diga - o Doutor Mara diverte-me.
Mas falo de uma diversão constrangedora, num sorriso flácido que produzi com o
canto da boca, ao mesmo tempo que revirava os olhos. A forma leviana como me
insulta é de uma pobre, insípida e desprovida de qualidade literária. Chamou-me
burguês, inchado, bonacheirão, insensato, o “maior”, doidivanas, artolas, e por
fim linguista sensaborão. É caso para
perguntar “está aí alguém?”. Alô! acorde, Doutor Mara! Estamos no século vinte
e um! É que se me quer importunar, pelo menos faça-o com classe!
Enquanto não chega a meia
noite, e pelo respeito que tenho por si (sobretudo pelo seu passado pois o seu
presente é uma nuvem negra), envio-lhe algumas sugestões para que me possa insultar
categoricamente em 2017 sem que eu tenha de o desprezar. Pois fique sabendo que
eu sou um ser irascível! Há quem diga que sou a alma dos bórgias a penar, um
excremento de animal na via pública pisado por uma dondoca da linha, sou o
bicho de estimação de um rafeiro que me deixou no canil municipal, tenho a
impotência da criação e o dom da malcriação, sou parasita social e atrasado
mental. Sou mesmo um mentecapto profissional, salafrário velhaco e safardana.
Sou um saloio pote de banhas e caixa de óculos, com boca de charroco e orelhas
de abano. Não passo de um reles bebedolas, mas ao mesmo tempo copo de leite e
menino da mamã. Eu sou a praga do século vinte e um a alastrar, um farsola
macarongo e obnóxio. Enfim, um verme asqueroso, azeiteiro e lambe-botas.
Percebeu?
Espero que o ano de 2017
estanque de forma definitiva esta sua decadente caminhada para o abismo, e lhe
devolva a glória dos anos cada vez mais distantes do seu fulgor de juventude.
Espero que acorde para a vida, abrace o futuro, e pare de viver de recordações
do passado. Também lhe assentaria bem uma vontade de trabalhar, e um corte
definitivo com esse dolce fare niente
alimentado por heranças e outras benesses familiares. Talvez assim, quem sabe,
se tornasse efectivamente útil à sociedade (e não falo da sociedade nocturna
que frequenta).
Em espírito de missão na
reparação intelectual da sua pessoa, e apesar de tudo com estima e
consideração, desejo-lhe um bom Janeiro.
Janeiro Alves em Penedono, no
31 de Dezembro de 2016
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Das Pessoas
"Descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Como me doía não ter dito(...) tudo, não ter feito confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas."
Nelson Rodrigues
sábado, 24 de dezembro de 2016
Resposta a Janeiro Alves Poucochinho antes das Festas
Caro
amigo Janeiro Alves,
Espero
que já se encontre no seu retiro de Penedono, no nordeste do distrito de Viseu,
essa incrível aldeia histórica onde passa tranquilamente e de forma solitária
esta quadra natalícia.
Sinceramente
e, perdoe-me a franqueza, mas deparei na sua última missiva tiques típicos de
um burguês nada arrazoado, lamúrias correspondentes a um indivíduo todo
inchado, bonacheirão e pouco sensato. Como é possível, meu caro amigo, proferir
que lhe correu bem o ano!? Está a brincar? É necessário acalmar-se, amigo
Janeiro, pois qualquer dia já ninguém o consegue ouvir com a mania que é o maior,
que ninguém está ao seu nível, o autoelogio recorrente e constante dos seus
feitos, enfim, essas taras e manias de um doidivanas qualquer. Quem é que você
julga que é? Certamente, por tudo aquilo que nos foi dado a ler, você é um
artolas de primeira água e um linguista sensaborão ou irá dizer-nos que afinal
era tudo a fingir e que apenas queria pôr um ponto final no top da brutalidade!
Escrevo-lhe
deitado numa espreguiçadeira num apartamento de quatro assoalhadas junto do
aeroporto. Descobri recentemente que este mesmo me tinha sido doado em herança
pelo meu tio de Florença, Pietro Marentini, aquando do seu divórcio com a
famosa hospedeira de bordo da Scandinavian LineAir: Vicky Malastrom. Julga-se
que este terá passado os últimos dias da sua vida com cenários de aviões
que chegam e partem de forma a sossegar a sua dor, entrando numa fase de metal e melancolia que nunca foi
capaz de recompor-se. Encontrei fotografias e objectos da sua amada espalhados
pelos vários recantos da casa, uma mulher, por sinal, muito bela de rosto redondo e maçã no queixo, digna de actriz de cinema nórdico. Chamou-me também a atenção uma manta de
linho em forma de V, promotora de bastante calor, onde se depreende toda a paixão existente entre o casal. De qualquer modo,Vicky, creio, nunca suportou aquele sedentarismo crónico do meu tio…
E
agora, conte-nos novidades, que tal o tempo por aí? Soube pelo carteiro que o
ano passado houve muita neve e que as comunicações estiveram cortadas. Talvez, por isso mesmo, sugeri para que lhe entregassem em mãos esta missiva.
Soube, inclusive, que o amigo Janeiro teve de improvisar na cozinha com comida
vinda fora de portas, onde encomenda telepizza. Será verdade?
Com os respectivos votos de boas festas, seu admirador
Doutor Mara
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Uma Carta TOP de Janeiro Alves a fechar 2016
Caro Dr. Mara,
Antes de ir directo
ao assunto, deveria por precaução certificar-me que o meu amigo goza de uma
saúde impenetrável neste mês de Dezembro, e que consegue focar ao longe sem
necessitar de lentes, metaforicamente falando. Não sendo possível, parto do
princípio que mesmo não estando no auge das suas faculdades físicas e
intelectuais, também poderia estar pior, estando portanto reunidas condições
para a boa recepção do conteúdo desta carta.
Neste mês que
capitula o ano de 2016, que teve tanto de bom como de devastador, à semelhança
de todos os outros com excepção de alguns, ando na rua a observar as pessoas e
a ouvir as suas conversas, e à noite ligo a televisão generalista no horário
nobre, das salsichas. É uma prática ancestral dos grandes pensadores, que assim
recolhem como que “fruta fresca” para as suas teorias. Aprende-se muito na
observação das massas ondulantes à bolina dos ventos natalícios, como sabe.
Hoje trago-lhe algumas actualidades da língua, da melhor língua nacional – a
língua portuguesa.
É sabido que a
nossa língua já conheceu dias de glória, mas actualmente é desdenhada pela
maioria dos nossos conterrâneos. E que sorte é a dum povo que não sabe usar a
sua própria língua? “Quando o pensamento é pobre e a língua não ajuda, mais
vale uma pessoa ficar muda” – Um provérbio que inventei ontem à noite, e que se
tudo correr dentro da normalidade, um dia entrará para o “Grande Livro dos
Provérbios”.
Para além de se
falar e escrever genericamente mal, surgem por vezes fenómenos populares ou
modas temporárias muito curiosas. Este ano há algumas que registei no meu
caderno.
A primeira é o uso
excessivo da palavra “brutal”. Quase tudo é brutal. Um gajo bêbado a vomitar na
estrada é brutal, mas a mulher vistosa a passar na rua também é brutal. Está um
dia brutal. A miúda a cantar é brutal. Esta cena é brutal. Que cena brutal! O
que dizer então de um assassinato violento, de um acidente em cadeia, de um
massacre de guerra, da imponência das montanhas e desfiladeiros, quando uma
simples “cena” quotidiana é brutal? O que dizer da expressão “atirai-vos independentes prá sublime
brutalidade da vida” do Ultimatum
Futurista de Almada? Actualizando a expressão aos nossos dias, teríamos
provavelmente: “saiam da vossa zona de conforto”. Brutal!
A segunda moda,
algo embaraçante, é o uso da expressão “top”, um estrangeirismo foleiro que
segundo algumas fontes nasceu em ginásios lisboetas onde se pratica Cross Fit,
Body Jump, Stretching e Core. O que não é brutal, é top, pois convencionou-se a
supressão de alternativas. O cúmulo da expressão é dizer-se “este topo de gama
é mesmo top”.
Na escrita,
assistimos a uma nova tendência de pontuação – os consecutivos pontos de
exclamação!!!!! Uma cena brutal cheia de pontos de exclamação é algo do outro
mundo. É top!!!
Por sua vez, a comunicação
social também marca a sua diferença ao inovar na construção frásica. A
tendência 2016 e com provável arrastamento a 2017 é começar uma frase com o
verbo: “Dizer também que Mário Soares já respira outra vez”; “Dizer ainda que o
tempo se manterá cinzento e encoberto, tal como o meu cérebro de rato”; “Dizer
por fim que copio as tendências dos meus colegas que inventam formas parvas de
falar porque sou um jornalista top, apesar de desprovido de pensamento
crítico”. Doutor Mara, isto é Brutal!!! Mas brutal de bruto, de abrutalhado, de
brutamontes se quiser.
E como a carta já
vai longa e tenho de ir ali para o Natal, dizer por fim ao doutor Mara que lhe
desejo umas festas brutais, cheias de presentes top!!!!!
O Adeus da Cornucópia
Em Novembro de 2005, pude assistir à Companhia de Teatro da Cornucópia no Teatro Municipal de Faro. À altura, foi grande o espanto ver uma peça da Cornucópia fora de Lisboa bem como da descoberta de um autor, António José da Silva, com a peça “Esopaida ou a Vida de Esopo”, numa comédia exigente, bem elaborada e difícil e que instigava momentos de riso e até mesmo gargalhadas. Ao mesmo tempo que assistíamos em palco a um actor no máximo da técnica vocal e interpretativa: Luís Miguel Cintra. A Cornucópia sabe-se, entretanto, que irá fechar portas muito em breve, isto é, dar por concluída a sua actividade. Desculpem, será que podem repetir?
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Zeca Medeiros: palavras para este tempo
![]() |
| Zeca Medeiros (Fotografia Tiago Rodrigues) |
José Medeiros, realizador, músico e
compositor, é responsável por muita da música açoriana de referência que
podemos ouvir e que, por isso mesmo, permanecerá para sempre na nossa memória
colectiva. As suas letras e músicas foram gravadas para programas musicais e
séries televisivas: "Mau Tempo no Canal", "Xailes Negros",
"Gente Feliz com Lágrimas", "Balada do Atlântico", "O Barco
e o Sonho", "O Feiticeiro do Vento", "A Ilha de
Arlequim", ou ainda as mais recentes, "O Sorriso da Lua nas
Criptomérias" ou “As Sete Viagens de Jeremias Garajau”. Os temas e
as canções de Zeca Medeiros encontraram vozes diferentes em intérpretes: Minela, Susana Coelho, Vera Quintanilha, Mariana Abrunheiro, Vânia Dilac,
entre tantas outras. Curiosamente é na voz dele que agora apetece escutar os versos
finais de “Torna Viagem”: “Se as palavras
se cansam no tempo/Este fogo não deixa de arder/Se as canções incendeiam a
praia/ Esta noite não hei-de morrer”.
El Mar
Antes que el sueño (o el terror) tejiera
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.
¿Quién es el mar?¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.
Jorge Luis Borges, in Obra Poética, 2 (1960-1972), Biblioteca Borges, Alianza Editorial.
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.
¿Quién es el mar?¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.
Jorge Luis Borges, in Obra Poética, 2 (1960-1972), Biblioteca Borges, Alianza Editorial.
domingo, 18 de dezembro de 2016
"Menina" em estreia no Teatro Micaelense
Um disco acabadinho de chegar aos
escaparates e ali está, Cristina Branco, mais a sua banda, em palco no Teatro
Micaelense. “E às vezes dou por mim”, com letra de André Henriques (Linda Martini), inicia
a ponte para uma grande noite, já que atente-se nos versos da canção que abre o mais recente álbum “Menina”: “E às vezes dou por mim/Quando ninguém está a
ver/Ser que é por tanto crer/Que ninguém me quer/Sozinha na moldura/Na casa dos
meus pais/Dizem que estou madura/E eu não quero esperar mais”. Como pano de fundo, discreta e imponente, a guitarra portuguesa, aqui
tocada exemplarmente por Bernardo Couto. Seguiu-se uma hora e meia de espectáculo musical com muitas e bonitas palavras, ainda a intensidade da partilha. No final, desfeito o gelo, os músicos voltaram ao palco para encher de novo o coração de lindas melodias, frases e versos controversos de gente cheia de alma. Certo é que foi um belo
serão musical. Estamos, sem qualquer dúvida, na presença de um disco orelhudo que merece a repetição da escuta.
sábado, 17 de dezembro de 2016
Eu, Daniel Blake
![]() |
| (daqui:www.slate.fr) |
"A lógica do sistema está pensada na actualidade para aprisionar as pessoas, apanhá-las em falso. Há uma discriminação terrível nos centros de emprego que tende a submeter as pessoas. É uma lógica mais importante do que haver ou não haver trabalho. Haver trabalho há, mas também há discriminação na forma como são filtradas as oportunidades. E há uma questão ideológica por detrás disto: tudo está feito para que as pessoas interiorizem que se estão desempregadas, é culpa delas, são pobres, é culpa delas."
Ken Loach, in Ípslon, Público, dia 2 de Dezembro de 2016
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
O Corpo Ardeu
Atirámos um homem do
penhasco abaixo.
Toda a aldeia
reunida no adro;
corremos sobre ele
aos gritos
fizemo-lo cair de
grande altura.
O padre disse que
agora, sim, é
que começa a
verdadeira vida
e eu pensei com muita
força e muita fé;
mete a verdadeira
vida no cu.
Acordo a meio da
noite com os uivos das pessoas
Prendem um homem no
manicómio
atam-no à cama,
enfiam-lhe comida
pela goela abaixo,
engordam-lhe o fígado.
Ele tinha um anjo
dentro da cabeça
sempre a levá-lo, a
voá-lo muito
para lá das nuvens,
repuxava-lhe os fios
forçava-o a uns
esgares, uns dizeres obscenos
Quando o deixava
planar a meia altura
a uns quinhentos
metros, digamos, uma
corrente inesgotável
de lenços coloridos
saia-lhe da cartola,
com as músicas mais belas.
Tanto medo da
loucura,
tantas verdades
incómodas ali à mostra,
tantos segredos
insuportáveis.
Vamos estabilizá-lo,
disseram.
Quero escapar,
morrer,
arder-vos por entre
os dedos,
ó boas pessoas, ó
sãos de espírito,
ó assassinos, adeus.
Da Amizade
«Falei de amigos. Haverá melhor
na vida do que tê-los? Muitos? Uns partem de vez (eram amigos a prazo), outros
andaram por longe, regressaram, convertidos à ideia de que não há como beber um
copo juntos. Nem que seja de café. Só na desgraça se conhecem bem: sabedoria
popular. Fi-los em toda a parte.»
Mário Dionísio
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