sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Abstenção de Cinema

  "Ando cumprindo mal meus deveres de cronista. Não está certo, não, Vinicius de Moraes. O público te paga para escrever, e você, em vez, fica a andar de bicicleta com o Rubem Braga pelas praias do Leblon ou a roer a sua solidão nos bares de Capacabana, ingerindo chopes, além de tudo uma coisa que não pode fazer bem à colite.  Você vai num mau caminho, rapaz. Você devia era entrar no cinema e ir ver Shirley Temple - mas como dói! Anteontem, passando em frente ao Rian, você teve mentalmente o seguinte comentário diante do cartaz: "Casei-me com um nazista". «Quem mandou...Nada disso está certo. Você é um rapaz de responsabilidade, com dois filhos, uma bela carreira na sua frente, talvez até com um ou mais um ou dois livros a escrever. Você devia acordar mais cedo, olhar a aurora nascer, encher os pulmões da salsa brisa atlântica, fazer uma hora de ginástica, tomar um banho frio e escrever um poema sobre a eugenia. Mas, não. Há uma semana que você não vai ao cinema. Olhe que você com essa sua abstenção pode ter feito mal a algum fiel leitor seu - esse desconhecido...que, por incauto, e sem a sua rija orientação cinematográfica, se deixasse seduzir  pela burrice dos cartazes, e...mais uma alma no inferno do cinema...
     O médico em você se rebela contra essas surtidas dos monstros, Vinicius de Moraes. Ouve a voz que te conclama ao sereno e imparcial  cumprimento do dever. Fecha os olhos, vai ao cinema. Ingere Shirley Temple e outras adolescências geniais como ingerias o teu óleo de rícino na infância, ministrado pela mão mussoliniana de tua tia. O público assim o quer. Deixa de hipocondrias. Sê cronista. Vence a sedução da máquina  e o canto da sereia de Rubem Braga. Atira-te à confecção de joias de bom gosto cinematográfico, pipocando em conceitos do mais alto interesse artístico, e larga essa mania de querer andar sem mãos e quem sabe  - ó sonho! - de costas para a frente, na bicicleta. Ainda domingo passado pagaste quarenta cruzeiros ao garagista. Está louco, rapaz, com o quilo de carne a três cruzeiros e sessenta centavos?
      Não está certo, não, Vinicius de Moraes. É preciso comer cenouras, tomar pelo menos meio litro de leite por dia - e não uma uma bagaceirinha ou outra, está ouvindo? - ir ao cinema e depois meditar uma boa crónica ante um chá  com waffle and mapple numa das cadeiras da Americana, entre senhoras abastadas - e não chope, está ouvindo?, que é uma coisa que encharca o estômago e não nutre nada...(Mas, afinal de contas, esse negócio de cevada é ou não é batata?)"

Vinicius de Moraes, in Manhã, 23 de Fevereiro de 1943

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Canela de Angra

Meninas de canela à mesa
a casa de bonecas insular povoam
assomam-se na presença da neblina e do salitre
ocultam a lava e a centelha
um vulcão guardado ao peito
enrolam açúcar na ventania
a palha fustigada a preceito
o deserto nocturno antecipam
nas zonas líquidas ali gravito

Os Bravos

meu bem
se te fores bravo
meu bem como dizem
que te vais
irei manso 
à terra dos bravos 
mais
mansamente no balanço
dos teus braços


esta terra diz
bravo meu bem que é brava
   de brandecer
a ira
        irarei com mansidão
         bravo meu bem e só 
            para a tua companhia
     pois que tu ah mô
 meu bem bravo
                                                                        me queres querer 

in "Ilhíada" de Vasco Pereira da Costa, edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura 1981, Angra do Heroísmo. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Futurofagia

DM: Caro Doutor Mara,  soubemos que passou o ano no seu gabinete à espera das doze badaladas e só algum tempo depois é que abriu uma das janelas que dá para a rua. Alguma superstição?
Doutor Mara: Nada disso. A verdade é que desde pequeno que sou muito sensível ao barulho dos relógios de corda, julgo que aquele som remete a minha imaginação para a adorada e irrecuperável infância que eu tive. Nestas alturas da entrada de um novo ano, sinto sempre uma fina e doce aragem infantil que me invade a alma, deixando-me completamente letárgico, desassossegado e anestesiado, o que pode parecer contraditório. Julgo que foi o tempo suficiente para acender um puro e desfrutar do amável aroma das fábricas de tabaco da minha Havana querida. 

DM: Doutor Mara, compreendemos. Sinceramemente, diga-nos, o que espera de 2013?
Doutor Mara: Sinceramente, preferia entrar já em 2014. Como o próprio número indica, temos que ser cautelosos com o que aí vem. Sabem que não sou de dar palpites nem gosto de abusar de prognósticos, como devem calcular. Nós, latinos, somos dados ao pessimismo, o que por um lado é muito bom, mas há que ter em conta que nestes momentos é muito importante agir. Ainda que com uma boa dose de preguiça, pois claro. Sou, como se costuma dizer um "pugilista" dos novos tempos, portanto, quem tiver um quintal deve começar já a fazer a sua horta, quem tiver bicicletas deve levá-las ao mecânico, quem tiver relógios deve voltar a andar com eles no pulso, quem tiver uma enxada no sótão deve ir buscá-la, quem gostar de democracia deve comprar um guarda-chuva e quem for adepto do cinema iraniano deve comprar um viagem de avião para o Festival de Berlim. 

DM: Sente que a cultura em Portugal está ameaçada?
Doutor Mara: Creio que nunca deixou de estar. O meu avó, que não era propriamente um intelectual, dizia sempre que ainda havíamos de acabar todos a jogar matraquilhos. Estou confiante que as suas previsões vão chegar mais cedo do que o previsto. Tenho receio, no entanto, que esta crise irá, no entanto, agravar a variedade e diversidade de equipas em disputa. O Sporting se continuar a jogar assim no campeonato corre o risco de desaparecer do mundo dos matrecos, o que é uma autêntica desgraça, e o Sporting de Braga que substituirá o Sporting, muito provavelmente  terá que usar o seu equipamento alternativo para não ser confundido com o Sport Lisboa e Benfica. A ser assim, ficamos com mais um problema de economia real para os detentores destes jogos de sorte e azar espalhados pelo país e ilhas.  É caso para dizer: o que mais nos irá acontecer?

DM: Soubemos, no entanto, que ficou bastante desiludido com a escolha dos melhores livros, filmes e álbuns de 2012?
Doutor Mara: Talvez tenha havido aqui alguma fuga de informação. Não foi bem desilusão, é não chegar a perceber para quê que aquilo serve. É como aquelas estrelas que os críticos atribuem...uma coisa é expressar uma opinião a outra é atribuir bolinhas ou estrelas consoante a boa ou má disposição com que se acorda pela manhã. Um músico, um cineasta, um actor, um poeta ou um escritor não deviam ter este tipo de escrutínio redutor, simplista e faccioso. Todos os anos lá estão as listas, as bolinhas e as estrelas...eu prefiro as serpentinas, os cigarros de chocolate e os rebuçados do doutor Bayard para a tosse.

DM: Por pouco quase que tocava a sua irritação com o ranking anual das escolas?
Doutor Mara: Sim, é verdade, esta foi de raspão. São simplificações que servem uma determinada opinião pública e que visa tornar ainda maior o fosso entre as escolas públicas e as  escolas privadas. É uma espécie de  nouvelle cuisine...misturar alhos com bugalhos, lançar a confusão e depois  dizer que não tem nada a ver uma coisa com a outra e que as escolas saem beneficiadas deste tipo de julgamento e escrutínio. É típico da xico-espertice lusitana, pois todos sabemos que estamos a avaliar pessoas de contextos sociais, culturais e económicos diferenciados em contexto de exame.  Por outro lado, a maior parte de nós aprendeu na escola a não querer uma data de coisas que são hoje para nós bens essenciais à existência, tais como o direito à diferença, ler e aprender o que não está nos programas, sonhar com outro tipo de escolhas para lá daquela que a escola nos oferecia, enfim, coisas que escapam aos rankings e aos topes contemporâneos.  Ou será que alguém vai lançar o ranking das escolas com os melhores resultados na sua relação com o meio e relevância para a cultura de todo um povo? 

DM: Doutor, uma pergunta bastante pessoal: o que espera de Portugal em 2013 ?
Doutor Mara: Um barco e uma flor. 

DM: Um barco e uma flor???
Doutor Mara: Um dia explicar-vos-ei porquê. Um bom ano para todos vós e que não vos falte a voz! Um amplexo Doutor Mariano!

DM: Muito obrigado, doutor. Esperamos vê-lo pela cidade um destes dias...

Diários de Angra

        Não há aqui nada contra os automóveis. O que é um facto é que os carros não deviam ter mais direitos que os cidadãos ou prioridade  em relação aos peões e transeuntes, mas têm. Sabemos o quanto os carros  são úteis, demasiado até,  na forma como diminuem as distâncias e encurtam o espaço e o tempo de um sítio para o outro, tornando a vida e os dias mais aceitáveis com temperaturas aziagas e chuvas persistentes. No entanto, da mesma forma que as praias não deviam servir para colocar bares e restaurantes em cima do areal para não importunarem a vista e o desfrutar do areal e da paisagem de quem ali vive ou gostaria de ali estar, o que é verdade é que não é concebível o estacionamento dos carros em cima de passeios ou a invasão destes no centro histórico de cidades de pequena dimensão, impedindo o passeio e usufruto do espaço e da via pública por parte de quem ali vive e passa. Estacionar  carros em cima dos passeios não é, nem nunca será uma situação ideal, não é aceitável, o mesmo se pode dizer dos milhares de carros que invadem o centro  num abanar constante da terra e do barulho que torna possível a vivência e o usufruto do espaço citadino. Deste modo,  seria desejável que  as cidades fossem lugares prazenteiros de descoberta e fruição dos seus espaços arquitectónicos, lugar de  encontro com suaves e amenos passeios diurnos e nocturnos, dados à contemplação e observação do comércio, recheado de conversas sobre o passado e o presente, espaços entregues aos  passeantes e respectiva contemplação. Para quando? 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Música Maior que a Vida?


          Uma vez para imitar o Miguel Esteves Cardoso e, em plena adolescência, proferi num programa de rádio que havia música preferível à vida. A adolescência dá-nos para isso e para muito mais assim como andar com a capa do disco dos Jesus And Mary Chain (creio que era o Psichocandy) pelas ruas da cidade horas a fio até que alguém perguntasse quem eram os "Jesus and Mary Chain". Satisfeita a curiosidade pouco ou nada religiosa, regressava a casa com o dever cumprido e com a capa do grupo do underground britânico pronta para ir para o lugar de onde não devia ter saído. À distância não é mais possível transmitir a forma  crua e fidedigna que a música ocupava para aquele grupo de adolescentes vestidos todos de preto e cabelos em pé, jovens lunáticos que acreditavam piamente na música como a arte que aglutinava todas as emoções à flor da pele. 
           A música era assim o elo de ligação que acorrentava e funcionava como o estandarte em que se jogava a batalha de diferenciação entre os diferentes grupos e se extremavam posições bem definidas na topografia do estabelecimento escolar ou cafés citadinos. Lembro-me de alguém dizer que tinha chorado a ouvir o álbum "LC" dos Durutti Column e o contágio estender-se aos restantes elementos do grupo  e que, por isso, tinham tentado, em pleno quarto fechado e luz apagada, repetir a façanha e o choro derramado. Com estima, recordo também o gesto de um professor de Geografia, também ele treinador da equipe de basquetebol, emprestar cem (ouviram!), uma centena de vinis para ouvir e gravar durante um mês até que as cassetes BASF ou TDK se esgotassem e se cansassem de tantas gravações. Ou ainda de contribuir com uns parcos cinco escudos para que um "jovem hippie" pudesse assistir ao concerto dos "Filhos do Presidente"...será que existiram?!? E o que existiu mesmo foi esse desejo de ter uma banda a qualquer custo, isto é, sem o mínimo de condições e dinheiro para a comprar instrumentos e equipamento de som e, mesmo assim, dar concertos, tocar e encher os lugares que julgaríamos ser coisa apenas de músicos com tarimba e com carreira profissional.  
        É certo e sabido que crescemos e que, ao avistarmos um bando de flamingos num sapal em Castro Marim, a vida passa a ser outra coisa.  Mas ainda assim sabemos que é improvável, mesmo impossível, viver sem música. Como viver então sem músicas, sem músicos ou estórias de músicas e músicos em redor? 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

2013

Corto Maltese, Hugo Pratt
  "Eu creio que a natureza humana é essencialmente boa e má e cada pessoa contém um solidário, um carrasco, um amigo, um amante mas também um torturador e um assassino. O desenvolvimento do melhor e do pior depende muito do meio circundante, do que alguém ouve, vê e respira cada dia. Os modos de vida dominantes e, portanto, os sistemas de poder dominantes no mundo, têm muito que ver com os estímulos que cada pessoa recebe desde que nasce até que morre."

Eduardo Galeano

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Estirpe do Sal

Domicílio de madeira coroada de sal
juntam-se cordas e homens-anzóis a levitar
profetas de sismos e trovões  
pancada espúria em dolente batida
humanos acordes vociferam clarões 
do mendaz grito no desenho de baía  
a fagulha eléctrica na voadora guitarra
dedos de sangue no círculo forjado 
fiéis apóstolos do musical magma
a negação do elo e da tradição
amanhã não mais celebraremos
ou cagarros da invernia inventados

Diários de Angra

        Ainda sob o efeito de "O Menino Mija", tradição que se prolongará até meados de Janeiro, passa-se à noite pelo Teatro Angrense e é de pasmar perante a beleza deste edifício considerado património de utilidade pública. Data do século XIX a sua construção, remetendo de imediato para o imaginário dos tempos áureos  da ópera italiana e do teatro romântico. Hoje a necessitar de obras urgentes de remodelação e recuperação, fala-se de uma verba de oitenta mil euros mas ainda sem data marcada para a sua execução. Imagine-se, portanto, as noites em que a população terceirense invade esta rua (Esperança de nome) e diminui a ventania nocturna que aqui se vive, insuflando vida e animação a este distinto lugar citadino, tão próximo da baixa e dos seus cafés. E quem já viu este teatro aberto, em forma de ferradura, exemplar único em Angra do Heroísmo e uma referência em todo o arquipélago, sabe como é necessária a sua abertura e actividade regular deste espaço para a vivência cultural da Ilha Terceira. É mais que sabido que a diversidade cultural irá diminuir em 2013 perante os cenários negros que se nos apresentam diariamente, basta verificar que os  Açores foram a região que mais reduziu o seu investimento na cultura (-23,6%), daí que este velhinho Teatro Angrense, belo e renovado, poderia ser um espaço de resistência e afirmação da cultura e identidade terceirense e açoriana.   

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os Flanilhas

Ilustração de Pedro Valim

Cultivavam esse amor antigo pela história ensinada nos bancos de escola que falavam do continente e das ilhas adjacentes. Sabiam desde sempre que o que tinham aprendido era importante mas não era certamente tudo aquilo que precisariam na medida certa para viver. Havia dentro deles um espírito marinheiro, errante, para além de serem amantes do oceano e das profundezas dos mares que rodeavam as ilhas atlânticas. Navegavam com inquietude pelos mistérios das ilhas como os antigos exploradores, absorvendo  o espectáculo e a simplicidade da vida  insular, absorvendo o rito e a passagem humana por esses antigos montes, vulcões e vales de solidão. No interior das ilhas era comum avistarem-se Flanihas em pleno acção, a flanar, muitas vezes a caminhar pelos seus próprios meios, longe de recusarem a rapidez das máquinas e dos avanços tecnológicos,  preferindo, no entanto, o movimento das solas e dos sapatos, das rodas das bicicletas, ainda o vagar lento dos transportes públicos, quando os havia. Há muito que sabiam que a espécie humana nem sempre era bondosa, sendo por vezes ressentida, fechada, dada a visões curtas e circunstanciais, mesquinhices, dependendo muito dos estímulos e cultura em redor e, talvez por isso, os Flanilhas despojaram-se de bens materiais, adquirindo apenas o que a terra e o mar lhes davam, afastando-se o mais que podiam dos bens materiais, ou pelo menos tentavam fazer por isso, retirando máscaras e fingimentos ao quotidiano. Os Flanilhas quiseram ser pele, osso e  tráfico desse dom humano que era o corpo aberto ao movimento, à experiência do vento e do sol, da vida ao ar livre, exposta ao coração da mãe natureza. Veneravam dessa forma os traços e os gestos das obras terrenas da vida e da passagem do Homem nas ilhas, os seus sinais de um desejo insaciável e vontade inquieta que se concentravam nas casas, edifícios, arquitectura e jardins. Amavam também as músicas celestiais que das suas vilas e freguesias ecoavam em dias de festa, romaria ou religiosidade. Os Flanilhas ficaram conhecidos por lançar garrafas ao mar carregadas de mensagens secretas que nunca ninguém seria capaz de decifrar, dado que eles há muito diziam desconfiar do valor das palavras. Preferiam a poesia do movimento, do corpo em fuga e sentido ambulante dada pelo  nomadismo dos primeiros viajantes. De ilha em ilha, o gosto, o prazer, o amor pela viagem. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Estrela

O artista estava ali a equilibrar o jogo
corre o vício em acesa disputa 
sai valete e entra a dama 
no plasma de Hollywood 
-Quem quer ver?
paga a mini com o desenrolar da fita 
vai com murro 
o passado é a doer
iões de prata é a chave do presente
na partida só com lousa sobre a mesa
a colecção tem vitrine como afago
matraquilho sentimental em reunião
rico desassossego após labuta
ninguém é nada neste encontro 
líquida nave em desassombro
maré de sorte 
estrelinha ao fundo.

Diários de Angra

       Os cafés de Angra do Heroísmo são uma seguríssima porta de entrada nesta cidade património da humanidade. Os cafés formam a personalidade da Angra convivial, tolerante, conversadora, aberta ao discurso do outro e da boémia, evidentemente. O sítio  mais badalado culturalmente é a "Pastelaria Portugália", antigo poiso de jornalistas, músicos, poetas e gente das mais diversas linhas e cruzamentos. Há também uma rua viva e com a preguiça típica das  esplanadas, que é certamente a Rua da Palha, sempre movimentada. Ali é só comprar o jornal e  seguir o caminho e o cheiro que exala dos cafés até às mesas expostas na rua com o mar ao fundo, com muito comércio e lojas de roupa e artesanato para apreciar. Quem resiste à Menina de Canela ("Cinnamon Roles") feitos com receita pessoal, cartão de visita do "Marquês", confeccionados por quem já esteve e regressou das Américas? Angra é certamente terra de doçaria e  com variedade de petiscos para o almoço, lanche ou mesmo jantar, fácil de comprová-lo  no Petiskaky, porto de abrigo de estudantes e demais clientes oriundos da escola secundária, tribunal e direcção regional da cultura, dos edifícios citadinos que ali gravitam. Na baixa, há também o "Marcelinos" que anima um centro há muito despovoado e com pouca ou quase nenhuma animação nocturna, sobretudo aos dias da semana. Aos fins de semana, é difícil não dar conta da animação do Dona Amélia, no Alto das Covas, muito bem servido de jornais e livros e sempre com música a condizer, à escolha do freguês ou cliente com gosto ecléctico e aberto às diferentes andanças musicais. E como faz falta uma sala de espectáculos em pleno de actividades e que possa servir de alimento e oxigénio à respiração nocturna destes cafés que à noite estão mais que desertos ou então inundados e entupidos de imagens televisivas de jogos da bola repetidos ad nauseam...

Poema da Adivinhação

Quando os sábios da numerologia
supositório da vida em gabinete
puserem cobro à intrusa travessia 
que restará da insigne e devastada nau
e da sua sobressaltada tripulação?
Que canções, émulos  e bandeiras?
retrato enviesado das suas veias 
presente apropriado à burla e à rapina 
rotas algibeiras de insatisfação
melancólico destino assim ultrajado 
em mácula dor assim exposta 
com letargia e sem convulsão. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Metereopatia

DM: Caro Doutor Mara,  fale-nos aos estudos que tem vindo a desenvolver, pois temo-lo visto a passar pelo centro da cidade com muitos livros e, pouco agasalhado, o que não é normal para esta altura do ano.
Doutor Mara: Neste momento, fruto de uma pausa laboral imposta por este governo de sábios da numerologia, dedico-me ao estudo da Metereopatia.
DM: Doutor Mara, estamos atónitos, sinceramente, diga-nos, em primeiro lugar, em que consiste a Metereopatia?
Doutor Mara: Como a própria palavra indica refere-se à alteração que o estado do tempo provoca no comportamento humano - visível e invisível. As mudanças e variações que o estado do tempo provoca no eu individual e colectivo dos povos. Nós, portugueses, somos completamente dominados pelo estado do tempo e raramente temos consciência disso. Os suecos ganharam consciência desse facto e arranjaram formas de lidar com esse  problema. É impressionante o número de bandas suecas pop da actualidade  que cantam os verões do sul, por exemplo. Há, inclusive, uma banda intitulada "El Perro de Barcelona", já para não ir lá atrás buscar os ABBA. É uma forma de aliviar a pressão de muitos meses de inverno, passados dentro de casa ou fechados no quarto junto de computadores. A social-democracia sueca, por exemplo, foi muito longe porque na Suécia, não só devido à cultura e ética protestante, mas também devido a invernos longos e prolongados, pois as pessoas vivem muito isoladas e desenvolvem formas de autonomia, sobrevivência e independência muito maiores que no sul. A falta de luz no exterior faz com que se procure a luz no interior da comunidade.
DM: Por que é que decidiu dedicar uma boa parte do seu tempo a um estudo, uma parcela do conhecimento, com tão pouca cientificidade no nosso país?
Doutor Mara: Bom, há quem se dedique a estudar a influência da Vitamina B12, uma das componentes da sardinha, na dita melancolia e saudade portuguesa. Mas, foi sobretudo em dia de grande tempestade. Eu encontrava-me  no norte do país a mostrar uma cidade do litoral a um encenador lisboeta, chovia imenso, e era impossível caminhar pelas ruas da cidade, quando este me disse  que aquele dia de chuva intensa era propício à leitura de romances russos...um dia assim seria para ler na cama os romancistas russos, com Dostoievsky e Tolstoi à cabeça. Foi aí que pensei: "Há aqui uma mina de estudo para desenvolver". A partir daquele momento, revi os meus conhecimentos básicos da psicologia moderna e atirei-me de galochas para o estudo da Metereopatia. 
DM: E que dados concretos foi descobrindo?
Doutor Mara: O sério desta questão é que o estado do tempo tem uma influência de forma acentuada no eu, individual e colectivo. Vivemos numa sociedade com um elevado número de metereopáticos. Há pessoas que funcionam muito com a presença ou não da luz do sol nas suas vidas, pessoas que gostariam de não ter que se confrontar com nuvens durante algum tempo ou pessoas que se modificam, se reinventam, com a chegada dos raios de sol. Veja-se, por exemplo, o caso das nossas ilhas e a quantidade de escritores que estas já forneceram ao nosso país. Herberto Helder é o escritor  que é,  um escritor em tom maior, devido ao sol da Madeira, os Açores  tem uma bruma na literatura que não se vê em mais nenhum outro sítio. Ou então, ouçam-se os coros e os corais alentejanos para perceber que são tudo expressões e influência do estado do tempo, em que depois  a cultura e a música logo se encarrega de expressar. A Metereopatia devia ser tida em conta na economia e a verdade é que não é. Os povos do norte trabalham e produzem muito mais por uma questão de temperatura e depois bebem mais cerveja para compensar essa dedicação ao trabalho. Os invernos rigorosos e a impossibilidade de andar na rua no Inverno casa obriga a uma outra estratégia para lidar com a natureza e a sobrevivência. 
DM: Dizem inclusive que os povos mais felizes são os latino americanos, será que é por não estarem sujeitos à metereopatia?
Doutor Mara: Sim, completamente. Ali combina-se a temperatura e a lentidão do progresso económico e tecnológico. Tudo tem o seu tempo e depois há a música em tons maiores que faz com que qualquer sueco seja o melhor dançarino após a ingestão de uma cuba livre ou dois goles de tequila. 
DM: Doutor, uma pergunta muito pessoal:  considera-se um metereopata contemporâneo?
Doutor Mara: Sim, dentro do possível e de um quadro clínico ainda por desvendar. Em manhãs de nevoeiro, por exemplo, como sempre uma anona e, por vezes, uma barra de chocolate para aumentar os níveis de serotonina  no cérebro.