A exposição de
fotografia "Uma Mancheia de Circunstâncias de Independência", de Jorge
Kol de Carvalho, abre hoje ao público, quinta-feira, pelas 18 horas, na Galeria/Editora
Miolo, na cidade de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. Trata-se de um conjunto fotografias
que tem como referência uma parte recente da História dos Açores, mais
concretamente os movimentos autonomistas e independentistas que se lhe seguiram,
essencialmente no pós-25 de Abril de 1974. As fotografias, todas elas com a
presença de um busto de um homem com a mão ao alto, sob o signo do discurso de
independência, mostram essa imagem espalhada por vários lugares: paredes de
casas, edifícios oficiais, casas particulares, muros brancos, materiais públicos, etc. O fotógrafo interroga
de forma apelativa e estética o discurso revolucionário contido na imagem
principal bem como os códigos citadinos associados associados à sua representação. Jorge Kol apresenta-nos
uma crítica mordaz e irónica e, por isso, dialoga muito bem e de forma bastante inteligente, com os lugares de todos os dias, evidenciando um campo aberto de perspectivas e
sentidos para nos re(vermos) e pensar (mos). A ver e visitar até dia
3 de Junho.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
"Fome de Vento" de Medeiros/Lucas (com Tó Trips e Filho da Mãe)
Primeiro
tudo é boca
E
dela o trago sorvido
Depois
o mundo cresce
E
nasce o sonho vivido
De
pés e mãos andantes
O
corpo quer ser vivido
Depois
do ventre o norte
E
vontade do sentido
Desde
o fundo do tempo
O
Homem vê-se sofrido
Depois
o peito embate
E
tudo se faz cumprido
No
fim silêncio ouvido
E
nele o jogo vencido.
Letra de João Pedro Porto
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Ontem, Escrito numa Parede da Cidade
-Please, what would you like drink?
-Quero um chá verde, por favor.
-Quero um chá verde, por favor.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
"Maio" de Raul Brandão
"Já
rebentaram as fontes. Toda a terra se agita, viva, dentando cá fora o seu
sonho. Dir-se-ia que sob o chão que pisamos correm rios de tinta que
transbordam, subindo nos troncos, cobrindo-os de roxo, de branco, de púrpura e
verde…. Vai por esse mundo um deboche de cor. As plantas aparecem-nos na mais
linda toilette, os bichos vestem as suas roupas mais ricas. Não há princesa na
terra que possua tão maravilhosos tecidos, sedas, oirescências, desenhos,
aplicações de igual beleza e juntamente de fragilidade tamanha…. Vi ontem uma
vespa a passear numa pétala de rosa…. Tinha caído um desses aguaceiros de
Primavera rápidos e precipitados – mas logo o céu correu a jorros, dourando a terra.
(…)
O português, que é sempre um poeta, tem esta falha – não ama as flores. Em
qualquer canteiro se podem criar obras de prodígio; a mais mesquinha terra é
fácil de converter-se em sonho. Pois vê-la-eis estéril e abandonada. Há neste
doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda
corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma
árvore. É até vulgar!.... Quando uma árvore começa a ser bela, esgalhada e
enorme, cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar,
sequer, que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de
Estado. O político é inútil…. Faz mais diferença à natureza o assassinato de
uma grande árvore, que dá sombra e frescura, que a alta missão de purificar a
atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e
calvos. Perdoem-me!...
Ah
sim! Maio, não era? Era de Maio que eu vinha falando?.... Já rebentaram novas
fontes e não há valado, carreiro de aldeia onde não cresçam lírios selvagens,
lindas florinhas graciosas e humilíssimas…. As raparigas cortam-nas, enfeitam
com elas os cabelos e os seios – e riem, coram, se as olhamos. Só na cidade não
há flores. Ontem, ao entardecer, deparei na rua com este caso enternecedor e
banal. Nem já se diferenciavam as ressequidas. Uma triste rapariguinha que
passava, descalça, de saia rota e cabelos ao vento, apanhou-as da poeira.
Sacudiu-as e pondo-as no peito, partiu a cantar numa satisfação imensa, alegre
como um pássaro.
Era
decerto condão das flores – mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o
seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o
chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem de árvores de
roxo, de púrpura, de verde."
in Brasil-Portugal, Lisboa, 16 de Maio de 1901, pp.125-126- Tb. In Vimaranense, Guimarães, 5 de Maio de 1917, p.1. Retirado do livro A Pedra ainda espera dar flor, dispersos. Raul Brandão (Organização Vasco Rosa).
Sonhos
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| Dreams de Sten Erland Hermundstad (imagem You Tube) |
Quanto vale um sonho? Quando custa perder um sonho? E os sonhos todos juntos quanto valem? E perdê-los todos num só dia? E abrir mão deles podemos? Há dias em que podíamos muito bem construir todo um universo à volta deles?A música contribui para esse edifício onírico à volta dos sonhos de olhos abertos.Sonhos que permitem que absorvemos o ar todo do mundo, a respiração dos pequenos gestos quotidianos, o esplendor da vida que ao nosso lado se agita. Por isso quando sonhamos sabemos que há sonhos que são unicamente nossos, que nada nem ninguém nos consegue tirar...
sábado, 7 de maio de 2016
Chet Baker
Amarga
coincidência essa de te fotografarem
sentado no
peitoril de uma janela tocando
trompete e o
modo como morreste. A toada
limpa e
morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a
cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de
inútil como de impossível de responder.
Permanece o
forte tempero de ironia de que
o jazz é
composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo
o que na vida é fuga.
Agora só
essa toada de bicho nocturno confirma isso
a ironia a
fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano
que levasse o tempo de uma queda
de um corpo
da janela ao chão da rua.
António Amaral Tavares
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Fazendo 106
Saiu a edição nº106 do boletim cultural FAZENDO(https://issuu.com/fazendofazendo),
mais uma vez em formato online e versão impressa. Ao todo são quinhentos
exemplares impressos na Tipografia Telégrafo, na cidade da Horta, Ilha do Faial.
Em oito anos de publicação, já lá vão 106 números distribuídos e espalhados
pelas mesas e lares das ilhas açorianas. Nos últimos tempos chega com sucesso
(e de forma aérea e voluntária!) a cinco ilhas: Faial, Pico, Terceira, São
Miguel e Santa Maria. É, desde o primeiro número, livre, gratuito, independente
e comunitário. É a experiência participada, informativa, livre e autónoma mais
bem sucedida nos tempos mais recentes em todo o arquipélago açoriano. A
direcção deste boletim cultural é pertença do Tomás Melo e da Aurora Ribeiro. E
todos os anos a revista altera o seu grafismo, renova a constituição dos seus
conteúdos, não incluindo qualquer forma de publicidade comercial. Não há
memória de nada assim ousada e tão longeva, essencialmente com estas particularidades
na história das revistas/jornais nos Açores. Curioso também é o facto de não
estar sob a alçada de qualquer instituição governamental ou poder
político.
A edição de Maio do FAZENDO traz consigo a capa do
fotógrafo Jorge Barros que continua a fotografar as ilhas e os açorianos de forma
sensível e irrepreensível. Caso mesmo para dizer: “Baleias de Barbas e
Baleeiros de Bigode”. Há, portanto, no seu interior muitos artigos para ler e
fruir nesta Primavera com muito pólen no ar e muitas águas vivas a chegar. Boas
leituras! Eis a edição online:https://issuu.com/fazendofazendo/docs/106_zen_impress__o/1
Satie 150 no Teatro Micaelense
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| Joana Gama por Eduardo Brito |
Erik Satie“Sonneries de la Rose +
Croix (Air du Grand Prieur)
John Adams“China Gates”
Erik Satie“Gnossienne n.º1”
Carlos Marrecos“Três Prelúdios Sobre o Mar”
Erik Satie“Gymnopédie n.º1”
Arvo Pärt“Für Alina”
Erik Satie“Embryons Desséchés”
John Cage“Dream”
Erik Satie“Sonatine Bureaucratique”
Alexander Scriabin“Vers la Flamme”
Erik Satie“Cinéma”
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Erik Satie: o Peripatético!
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| Cartaz em serigrafia de Luís Henriques |
Erik Satie nasceu há 150 anos na Normandia e viveu uma boa parte da sua vida em Paris, falecendo na capital francesa em 1925. As suas composições musicais ficaram conhecidas mundialmente pelo seu minimalismo e simplicidade. Os que privaram com ele disseram que ele era excêntrico e irreverente. Cultivava a poesia, o desenho de caricaturas (inclusive de si próprio) e o esoterismo. Coleccionava guarda-chuvas e cachecóis, pois tinha pouco apreço pelo sol. Foi na cidade das luzes que trocou a Montmartre por um quarto modesto na periferia industrial da urbe parisiense. Na sua biografia constam nove quilómetros diários de dar à sola para tocar. Esteve apaixonado por uma única mulher ao longo da vida: Suzanne Valadon. A pianista Joana Gama aborda a sua vida e obra às 18 horas do no Conservatório de Música de Ponta Delgada. Amanhã há filmes relacionados com este compositor e na sexta há recital pela pianista.
terça-feira, 3 de maio de 2016
O Direito à Cidade
(…)“Encontramo-nos perante cidades onde o consumo é
o motor principal das acções urbanísticas. A consequência é a proliferação de
espaços de segregação cultural e económica, que afastam a população da
realidade urbana, e fazem com que as cidades se pareçam umas com as outras. Os
processos de gentrificação e turistiificação são alguns dos motores desta
segregação.
O aumento do turismo provoca grandes expectativas
em termos de desenvolvimento económico, mas coloca também a questão dos
recursos a afectar à conservação e revitalização dos centros históricos. Na
maioria dos casos, as cidades, por causa da pressão exercida pela indústria
turística, transformam-se em imagens estereotipadas, ou têm de se adequar ao
mercado internacional.
Ao mesmo tempo, os processos de gentrificação e
turistificação provocam o deslocamento mais ou menos voluntário das populações
locais, colocando em causa o direito à cidade.
A visão teórica da reabilitação na óptica da
valorização do património para todos, salvaguarda a diversidade cultural e de
um desenvolvimento sustentável permanece na agenda do dia. Porém, as dinâmicas
económicas e as transformações urbanas daí resultantes têm vindo a comprometer
a coesão socioeconómica e territorial.
Fabiana Pave in “Gentrificação e
Turistificação: o Caso do Bairro Alto em Lisboa”; Le Monde Diplomatique, Abril de
2016.
sábado, 30 de abril de 2016
sexta-feira, 29 de abril de 2016
WE SEA: Fézada Musical!
Nada como festejar a noite de 24 para 25 de Abril e ouvir música variada e diferentes músicos em conjunto com muita alegria e alvedrio de
tocar. O lugar escolhido já tinha sido palco recente do último Tremor ainda que
o nome dado ao evento estivesse eivado de um sentimento e carga revivalista. De
qualquer modo, esta salutar e curiosa iniciativa permitia um regresso ao espaço
do Solar da Graça para encontrar diferentes tipos de propostas musicais. Entretanto,
não demorou muito para a grande surpresa da noite soasse aquando do nome da
banda em palco fosse sussurrada pelo Rodrigo. A banda já tinha tido outro nome –
Broad Beans (Favas Guisadas) e que agora a formação reduzida tinha ganho outra
nomenclatura. E, se havia coisa que dava
logo para ver nestes WE SEA, era o enorme à vontade, concentração e entusiasmo
com que se apresentaram em palco. Estes chegaram mesmo a ironizar com o ferro
de engomar que servia de base aos instrumentos do vocalista. A banda é constituída pelo Rui
Rofino, voz e teclas, que demonstra grande confiança na batida e atmosferas
musicais e por Clemente Almeida, no teclado e respectivas criações melódicas.
Foi assim que, numa noite de cravos e música diversa, o
espaço do Solar da Graça deu a conhecer estes WE SEA, em pleno estado de graça,
com a vantagem do primeiro tema “Ser de Ver” soar de imediato a intensidade e paixão. Que belo poema-canção! É que, subitamente,
a banda ribeira-grandense tomou conta daquelas mesas de madeira e público
presente com aqueles desenhos e quadros nas paredes a lembrar uma ilha de outros tempos. Rui
Rofino canta, por isso, com muita alma e entrega na língua de Antero de Quental. Quem ouviu pela primeira vez, soou logo a
descoberta e prevê algo muito arejado em
embrião, o que só augura um futuro promissor.
3 x William Shakespeare
Soneto 10
Recusa, por vergonha, que não sabes amar,
Tu, que para ti mesmo és tão pouco prudente!
Concede, se puderes, que és por muitos amado,
Porém, que a ninguém amas é por todos sabido.
Pois tu de um ódio tal te encontras possuído
Que mesmo contra ti não ousas conspirar,
E arriscas arruinar esse tecto tão belo,
E havias em desvelo dele melhor cuidar.
Ah, muda o teu pensar, para que eu mude o meu!
Deve o ódio ter lar mais belo que o amor?
Sê como é o teu estar, gracioso e encantador,
Ou ao menos a ti prova o teu bom sentir.
Torna-te em outro eu,
fá-lo por meu amor,
Possa o belo viver quer
nos teus, quer em ti.
Soneto 18
Poderei igualar-te a um dia de Verão?
És mais ameno e brando, e muito mais gentil.
Vacila ao vento rude o rebento em botão
E a vida do Verão, demasiado breve.
Queimando muita vez, o olho do céu brilha,
Muita vez sua face dourada se embacia;
E sempre o que é mais belo da beleza declina
Ao mando do destino ou natural porfia.
Mas não definhará o teu eterno Verão,
Nem a tua beleza há-de deixar de ser,
Nem a Morte dirá que em sua sombra és,
Quando, em eternos versos, no tempo tu cresceres.
Enquanto alento houver e
houver humano olhar,
Hão-de viver meus versos, e
tu neles viver.
Soneto 104
Para mim, belo amigo, nunca terás idade,
Pois tal como me foste, quando te olhei no olhar,
Assim me és: belo ainda. Três Invernos medonhos
Agitaram dos ramos três Estios em esplendor.
Três gentis Primaveras se tornaram Outonos,
Eu vi as estações em constante mudar,
Três perfumes de Abril queimados por três Junhos
Desde que então te vi; e ainda: igual frescor.
Ah! Porém, a beleza, sem passo percebido,
Como braço do tempo recua, rouba a forma;
E a tua doce cor, parecendo não mudar,
Varia na mudança, pode iludir-me o olhar.
Para que tal não fora, escutai, vós, por nascer:
Antes de vós nascerdes, o mais belo morrera.
William Shakespeare, “31
Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.
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