domingo, 27 de outubro de 2013

Ainda o Angrajazz...

         Ainda há ecos desse festival que ocorre, há quinze anos, no início do Outono na Ilha Terceira. Sabe-se que Manuel Jorge Veloso envia bons augúrios ao festival ainda que nunca tenha estado presente no festival por razões de ordem aérea - não consegue andar de avião - ou ainda a memória do músico Esbjorn Svenson que não chegou a pousar as malas no Hotel Caracol sem antes mergulhar na piscina salgada da Silveira ou também as memórias infindáveis de quem  ouviu e viveu os concertos no pátio coberto do Museu de Angra do Heroísmo. Estas foram algumas histórias que se ouvem contadas pela voz avisada de José Ribeiro Pinto, digno membro da Direcção da Associação Cultural Angrajazz, que todos anos se orgulha de trazer à Terceira grandes nomes do jazz internacional. E que todos aqueles que este ano assistiram ao monumental concerto do Trio Azul (Carlos Bica, Jim Black e Frank Möbus) podem e devem alegremente agradecer.





Foto retirada do sitio-de-sons.org

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Experimentar...

Cartaz de Aurora Ribeiro
           O Experimentar editou em 2012 "2: Sagrado, Profano" e vem apresentá-lo um ano depois à ilha de São Miguel. O segundo disco, à semelhança do primeiro, obteve o reconhecimento e aplauso da crítica musical portuguesa. Amanhã é dia de concerto e de voltar a ver no Teatro Micaelense esta banda que junta em palco: Aurora Ribeiro, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, "Pietá" Miguel Machete, Jácome Armas e, obviamente, Pedro Lucas. Por lá, andarão também as canções de José da Lata e as recreações de Carlinhos Medeiros - quando é que há reedição do "Cantar Na M´Incomoda"? - bem como um cheirinho do que poderá vir a ser o terceiro tomo deste arriscado e original projecto da renovação da música tradicional açoriana.





 

Uma terra...



Fotografia de Frederico Rocha
“Un paese ci vuole. Non fosse che per il gusto di andarsene via. Un paese vuol dire non essere soli. Sapere che nela gente, nelle piante, nella terra, c´e qualcosa di tuo. Che anche quando non ci sei resta ad aspetarti.”

Cesare Pavese

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

No Movimento Diplomático do Outono...

  Caros leitores e leitoras, durante os meses da canícula estive alegremente apartado deste espaço e deveras retirado do mundo das letras. Foi preciso o dealbar do Outono e o retomar da melancolia - os dias encurtaram, o sol rareia, é certo - daí que é desta forma triste e acabrunhada que regresso ao vosso caloroso e apelativo convívio. Como devem imaginar é necessário ficar arreigado do movimento diplomático do Outono, tão necessário ao meu espírito luso para que as palavras se alinhem e enfileirem engrossando este mural de lamentações bem como alguns lampejos se lancem na atmosfera e ganhem respectivo corpo e movimento. Durante a minha ausência, o mundo esteve muito calmo, demasiado até, vivemos num mundo comovente sem qualquer comoção. Sim, eu sei, ao contrário do mundo da alta finança e da especulação que continua desvairado e louco, mas nesse âmbito sempre me mexi com muita dificuldade, tendo ouvido recentemente uma declaração de uma vítima desse desastre declarar: "Estou morto mas ainda fungo!". Tenho, portanto, dedicado a minhas parcas horas de ócio à recolecção de sonoridades perdidas no fundo do tempo. Acredito que o mundo sem música seria um desperdício. Um amigo de longa data diagnosticou-me instabilidade crónica no meu espírito, pensa ele que se deve em muito ao terreno geológico que agora piso e às constantes divagações das quais resultam charlas e fait-divers que não lembram ao vosso familiar mais estranho. Ultimamente, a minha alimentação é bastante modelar, sigo à regra uma dieta alimentar baseada em bifes de atum, chicharros, iogurtes florentinos e umas suculentas meloas de Santa Maria…quem sabe não são estas que ainda me prendem ao quotidiano ou mesmo à dura e esdrúxula realidade em que nos movemos. Em suma, espero que amanhã ainda tenham vontade de me ler.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dino Risi filmou o verão italiano

     
Vittorio Gassman e Jean Louis Tritignant

       Il sorpasso ("A Ultrapassagem") de Dino Risi é, sem qualquer dúvida, um filme para (re) ver nas férias de verão. Podemos considerá-lo por diversas razões um filme estival, uma película leve, propícia a ser vista ao ar livre, se possível com manta sobre os joelhos, caso o frio incomode. Dino Risi filmou, há cinquenta anos, o verão italiano, a luz e o sol, a cidade e o campo, a praia e o mar, a amizade e o amor. Para isso muniu-se de dois actores: Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman e, muito embora com menor relevância, as actrizes:  Catherine Spaak e Mila Stanic.
     Dino Risi celebra o “Ferragosto” romano por ruas e estradas vazias, o comércio e as casas fechadas, servindo-se de um telefonema do fanfarrão Bruno Cortina (Vittorio Gassman) que  assim irá perturbar o tímido estudante de Direito, Roberto Mariani (Jean-Louis Trintignant). O Verão de 1962 italiano cheirava a boom económico, o país crescia a olhos vistos e o automóvel era o epítome de bem-estar. Vemos em ritmo frenético um road-movie -dizem que terá influenciado Easy Rider (1969) - e que nos leva a viajar e a escapar pela Riviera de Fregene de Capalbio da Castiglioncello até Quercianella, ao redor da capital e da sua costa. 
A actriz Catherine Spaak 
    O cineasta Dino Risi, com formação em Medicina, começa por dar-nos a conhecer essa célebre expressão italiana “Ferragosto”, um feriado italiano celebrado no dia 15 de Agosto e que é motivo de patriótica comemoração. Inicialmente, estava associado à celebração da metade do verão e do fim das colheitas nos campos. Com o passar dos anos, a Igreja Católica passou a adoptar essa data para comemorar a assunção da Virgem Maria. Hoje, Ferragosto é um feriado em que milhões de italianos abandonam as suas cidades origem e demandam outras paragens.
     Aqui “Ultrapassagem” não é só o acto de ultrapassar mas aquilo que se vive nas cidades desertas no estio e, que por aquecimento e lassidão, se inclinam, tombam, caem e se deitam literalmente sobre as praias, acampando e deambulando junto do mar. Logo nos momentos iniciais do filme, um homem pára o seu carro desportivo junto de um fontanário para beber água e telefonar, a cidade está completamente deserta em Agosto (quem não conhece cidades assim?), o silêncio abafado pelo calor e a fadiga que perpassa sobre os minutos e as horas do mês de Agosto, rendidos à rarefacção do ar e à largueza dos dias.
     Vittorio Gassman, que participou em treze filmes de Risi, encarna a personagem do fanfarrão, mestre na arte de saber viver, um homem de meia idade que se deixa ir com a ligeireza e a leveza da estação dos grilos e das cigarras. Sempre com a resposta pronta na ponta da língua, ávido dos prazeres terrenos e imediatos, acompanhado ao volante pelo som da mítica Klaxon e do seu Lancia Aurelia B24, ao qual imprime velocidade e um ritmo estonteante, quase sufocante. O carro é aqui a expressão da liberdade e da velocidade, inaugurando um tempo novo, repleto de comodidades, movimentações e deslocações. Como filmar a passagem do tempo que se nos afigura tão veloz quanto o desejo de querer viver?
Dino Risi a filmar Il Sorpasso
    Dino Risi filma esta ausência de limites sem moralismos, sem justificações óbvias para derivas comportamentais, abraça inclusive as contradições do campo e da cidade, impregna de sensualidade os momentos finais do filme e dá-nos a dose certa de tragédia num final surpreendente. Nota também para rodagem dos minutos finais na praia Castiglioncello, que é magnífica. Cinquenta anos depois, a actualidade deste filme prende-se com a rapidez da montagem e este filme consubstancia de forma quase carnal a transição de um tempo, corporiza e cristaliza uma estação que tem os dias contados, daí este renovado e auspicioso encontro do filme como novos e jovens espectadores.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Vittorio Gassman

Vittorio Gassman enquanto Bruno Cortina em Il Sorpasso (1962)
Gassman: Acredito no amor, é uma das forças que sustentam o mundo e o fazem mover: o amor pelos filhos, pelos pais, pelos amigos e pelas mulheres que realmente marcaram a tua vida.

Scalfari: Tal como o acabas de descrever é um sentimento cósmico, mas eu pedia-te uma definição mais concreta, uma relação de casal homem-mulher como aquela que vivenciaste
Gassman: Sempre desejei ter uma relação serena, uma coisa nada fácil, porque exige que uma pessoa se supere de alguma forma a si própria e se ponha no lugar do outro, o aceite e compreenda. Por sinal, agora, ainda que ao fim de trinta anos, tenho essa relação de paridade, discutimos com frequência, mas isto não faz mais do que alicerçar a nossa relação e torná-la mais sólida.


Tradução livre, in Revista El Pais Semanal, 1 de Setembro de 1996

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Saraband

Liv Ullmann e Julia Dufvenius
Karin: Porque não posso viver um amor como o da minha mãe?
Marianne: Não tiveste medo que o teu pai se suicidasse depois da morte dela?
Karin: Não pensei muito na tragédia dele. Mas tentei cuidar da mamã o máximo que ela me deixou. A mamã nunca foi muito faladora. Mas num dos seus últimos dias, costumava dormir com morfina...quando estava junto dela, ela olhou para mim e disse muito claramente: "Sabes que te amo. Sabes que te amo, Karin". A minha mãe nunca usava esse tipo de linguagem. Uma vez o papá disse na brincadeira, isto já foi há muito tempo, "A Anna nunca diz "amo-te" mas está sempre a realizar actos de amor".

´
in "Saraband", de Ingmar Bergman (2003)

domingo, 21 de julho de 2013

Do Estio...

         Era Julho e à semelhança das cigarras ninguém dormia. O cabelo doirado das mulheres lembra-me agora a infância deitado ao sol sobre os barcos, um clarão de luz a incidir sobre a merenda, os cães a rondar a areia e um cheiro intenso de salitre com o estender das algas e sargaço a serpentear a orla. Não havia sono mas sim desenhos com giz sobre a lousa ou sobre a areia e os amigos que se sentavam em redor à volta da canícula, ansiando o toque e afago das mães que se tinham  retirado e ausentado por instantes para o recolher da faina e dos maridos.
Era verão e as cartas rondavam os adultos nas mesas das tabernas e esplanadas. As bicicletas encostadas, exauridas e expostas nas paredes das ruas vazias, os bichos a povoarem as ranhuras, o verde das ervas a irromper por entre frinchas e rachas nos muros para além da ferrugem nos raios das rodas em descanso. Os gelados compostos de gelo e de açúcar, as nódoas no peito das camisas, as unhas sujas e enfiadas na terra dos berlindes gastos e consumidos ou ainda o medo das sebes altas nos campos de espigas e das vinhas. Adormecemos em algumas ocasiões junto de girassóis inclinados, por vezes debaixo de chatas e de lanchas a servir de refúgio e esconderijo às tropelias cometidas, ilibando culpas de horas e brincadeiras intermináveis na praia do pescado ou ainda dos tesos mergulhos no mar de domingo sem digestão, com os avós ocupados com os labores das redes e resultados da bola.
        Dessas tardes soalheiras com a cabeça enfiada na areia, a lassidão e o suor dos corpos à beira-mar ganha-se consciência. Consciência dessa grata e feliz morada salina de luz e azul, uma casa vasta e farta onde podemos molhar sempre os pés e mãos do nosso desconforto da adulta idade ou da velhice. O estio é certo que findará um destes dias sem darmos conta mas é dele sempre este baloiço guardado e relembrado, o escorregão recordado de correrias eternas e os ponteiros do relógio que de tanta corda ficaram parados.

Doravante o sol

Doravante o sol o céu o sal
o tempo a escoar pelas marés
voa um garajau como se ganhasse
às nuvens de passagem o vagar
caí refeito verticalmente
num tempo outro a restaurar
o nosso enredo reescrito
rodopio constante irrequieto
desejo conspirativo em movimento
a  harmonia secreta das espumas
o horizonte com linha a desvanecer
o brilho e o branco dos casarios
e o mar chão que nem um barco vislumbra
ali onde a cor da luz se agiganta.

Belarmino vs Linda Martini

-Após a banda sonora do Manuel Jorge Veloso, do poema do Alexandre O’Neill (Belarmino - Amigos Pensados”) e deste vosso tema, é caso para dizer que nunca um filme em Portugal gerou tanto entusiasmo e fulgor criativo. Qual é a vossa opinião sobre o filme enquanto expressão de um certo espelho lusitano?

-André: O filme é ainda hoje uma referência e à época foi uma pedrada no charco do cinema português. Está ali num limbo entre a ficção e o documentário que me agrada muito. É sem dúvida um espelho da época. Dá para ver toda a gente a olhar para o chão metido dentro das suas vidas e dos seus casacos. O Belarmino acaba por contrastar no meio daquilo tudo com aquele ar gingão e aquela pose de malandro.

Entrevista dos Linda Martini ao Boletim Cultural Fazendo nº 48(https://issuu.com/fazendofazendo) (29 de Outubro a 11 de Novembro de 2010).

sábado, 20 de julho de 2013

Il Sorpasso

"A Ultrapassagem" de Dino Risi (1962)

Roberto Mariani: Ti giuro che ho visto.

Bruno Cortina: -Ma che sei matto, te voi impiccia' con le testimonianze, voi passa' il ferragosto al commoissariato?

Emoções

        “Sem qualquer excepção, homens e mulheres de todas as idades, de todas as culturas, de todos os graus de instrução e de todos os níveis económicos têm emoções, estão atentos às emoções dos outros, cultivam passatempos que manipulam as suas próprias emoções, e governam as suas vidas, em grande parte, pela procura de uma emoção, a felicidade, e pelo evitar de emoções desagradáveis. À primeira vista, não existe nada de caracteristicamente humano nas emoções, uma vez que é bem claro que os animais também têm emoções. No entanto, há qualquer coisa de muito característico no modo como as emoções estão ligadas às ideias, aos valores, aos princípios e aos juízos complexos que só os seres humanos podem ter, sendo nessa ligação que reside a nossa ideia bem legítima de que a emoção humana é especial. A emoção humana não se reduz ao prazer sexual ou ao pavor aos répteis. Tem a ver, igualmente, com o horror de testemunhar o sofrimento e com a satisfação de ver cumprida a justiça; ou o nosso deleite face ao sorriso sensual de Jeanne Moreau ou à densa beleza das palavras e ideias da poesia de Shakespeare (…) A emoção humana pode até ser desencadeada pela música barata ou pelo cinema de má qualidade cujos poderes não podem ser subestimados.”

António Damásio in “Sentimento de Si”

Émulos

Foi com amor aquilo que fizemos
ou acto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de  abraçarmos? Foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a libido
E em palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido

Margarida Vale do Gato 

Curiosidade

A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade.”

Dorothy Parker  (1893-1967)