domingo, 7 de fevereiro de 2016

As Charlas "Nocturnas" do Doutor Mara


Fotografia de Diogo Fonseca
          A primeira dramatização “Charlas Quotidianas do Doutor Mara" ocorreu em Fevereiro de 2014, na Travessa dos Artistas, com a representação do capítulo “Futurofagia”, e contou com as participações dos actores João Malaquias e Judite Fernandes e ilustrações de Luís Brum. A segunda apresentação deu-se na ilha do Faial com três novos capítulos: “Ginecomagia”, “Tarantorerapia” e “Enomátria”, postos nas tábuas do palco do Auditório ao Ar Livre da Biblioteca Municipal da Horta, com as interpretações de Tiago Vouga e Aurora Ribeiro, que replicaram a representação por mais duas vezes para uma audiência de 150 pessoas no total. Há um mês atrás, foi a vez de voltar à cidade de Ponta Delgada, na Galeria Arco 8, contando com 60 pessoas na assistência. Aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=0m_9pwmHtqc

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vinil de Música Açoreana


A capa azul celeste anuncia “Música Açoreana”, inclui Música e Sons das Festas do Senhor Santo Cristo, álbum gravado pela Stanton Productions, New Jersey, em 1976, pela mão de John Carey.  Um disco completamente desconhecido para ouvir com a ajuda da agulha em forma de descoberta e com elevada curiosidade dado o passar do tempo e da memória. Entretanto, a data histórica deste disco desperta e aguça a vontade de querer conhecer e saber quais razões que se encontram por detrás deste. É certamente mais um disco de recolha de música açoriana por gente culta e interessada, com a particularidade de uma capa azul celestial e a imagem de um poderoso milhafre de asas caídas e com as estrelas das nove ilhas açorianas na capa. Este objecto é revelador de alguma pomposidade na altura da gravação a que, segundo os autores, contribuíram para ele centenas de músicos e cantores açorianos. Gravado e produzido por John Carey, inclui no lado um os respectivos temas do Cancioneiro açoriano já conhecidos: “Pézinho”, “Fado Fadista”, “Bairro Alto”, “Chamarrita” e as mais que conhecidas e festivas “Cantigas ao Desafio”. O que permite abrir a uma maior curiosidade é a inclusão no lado dois de uma mistura de sons que inclui a Folia do Maranhão, sons de pássaros na montanha de São Miguel, bandas de música em coretos, fogo de artificio, coros religiosos e bandas de música no Domingo da Festa. Enfim, meia hora de experiências sonoras em território açoriano. Música e sons para ouvir num gira-discos perto de nós.

50 anos de "Persona" de Ingmar Bergman

 "Persona"
Filme de 
Ingmar Bergman(1966)
         Ingmar Bergman realizou “Persona”, em 1966. Em português ficaria conhecido por “Máscara”, nome bem elucidativo de um argumento que se vai revelando por camadas, que se vai descobrindo à medida que se desenrola o fio desta trama psicológica. Liv Ullmann é “Alma”e Bibi Andersson é "Elisabeth Vogler". A actriz encontra-se em silêncio profundo, facto originado a meio da sua actuação na peça “Elektra”, de Sófocles, acontecimento que a leva a isolar-se dos outros, em profunda apatia e solidão. A enfermeira vai lentamente tornar-se cúmplice da actriz, expondo-se, também ela à fragilidade e à força do inconsciente. Ingmar Bergman contou, à semelhança de muitos dos seus outros filmes, com a mestria da fotografia de Sven Nykvist. Cinquenta anos depois, “Persona” permanece como um marco fundamental da carreira do realizador sueco.

Ontem escrito numa parede da cidade

Um caminho pode ser traçado sem fim ou destino à vista.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Raul Brandão e Domingos Rebelo: Pintores da Luz e da Cor


         

Ilustração de Mário Roberto
           Raul Brandão amarou nos Açores proveniente da origem, viajando de barco e, atrás de si, ficava a pátria republicana e essa Europa saída e fustigada pela primeira Grande Guerra. Dois anos depois do seu périplo pelo arquipélago, publicaria “As Ilhas Desconhecidas”. O jovem Domingos Rebelo retomava, à altura, a sua vivência na cidade de Ponta Delgada, organizando a sua própria exposição na Rua do Provedor com o título: “Exposição de Pintura Domingos Rebello”. O pintor micaelense acreditava no amor à sua terra natal, professando e valorizando o regionalismo e a cultura popular. O jornalista e escritor da Foz do Douro desconhecia, portanto, a potência da verdura aqui instalada, o encanto da luz, a demanda das cores presentes na natureza. Com o seu relato sentimental das “Ilhas Desconhecidas”, aproximou o continente às ilhas e a todos os que se deixaram fascinar pelas suas notas e paisagens do arquipélago ignoto, cumprindo a narração intima de cada ínsula, o deslumbramento visível a meio do oceano atlântico.
           Por aqui, na Ilha de São Miguel, Domingos Rebelo, dedicava-se de corpo e alma aos pincéis, forçando as linhas e os traços ao entardecer, tingindo telas pela noite dentro. Asceta e com o corpo exausto de tanto colorir rostos, delinear pessoas, abarcar a vida que discorria à sua frente, regressou a Lisboa alguns anos mais tarde. À semelhança de Raul Brandão, gostava de ser cúmplice da paisagem açoriana e da luz que o rodeava, ambos sustentavam um especial apego pela terra que pisavam, exaltando profissões e todos aqueles que nelas trabalhavam. Eram, sobretudo, crentes de uma força maior, possuíam, por isso, fé nos homens e na vida. Foram incansáveis viajantes, contemplaram o mundo físico, trabalhadores tenazes e observadores inquietos da vida dos outros ao mesmo tempo que intervinham no tempo e na sociedade que lhes calhou em sorte viver. Ambos necessitavam confirmar a leveza e a urgência da arte. Eram cultos, exigentes, e herdeiros de uma tradição humanista. Cada um à sua maneira, forjou um imaginário, cumpriu um sonho, arriscou ir mais além na missão de viver uma renascença, alcançar um sentimento de pertença, acrescentar um fulgor novo. Domingos Rebelo, jovem, e, Raul Brandão, maduro, cobriram de luz e de cor um país e ilhas que sempre se quiseram sombrios, toscos, pesados. A idade tinha vinte e quatro anos a separá-los. No primeiro quartel do século passado ninguém melhor do que eles  soube “pintar” as paisagens humana e natural do continente e das ilhas. Devemos aos dois essa evocação e o sentimento vital do gigantesco legado que nos deixaram. Agradecidos, continuaremos!

Torna-Viagem


Vem guardar nestas rimas meu canto vadio
Minha galera de sonhos, de inquietações
Viageiro num fado oculto e sombrio
Torna-viagem, regressos, desilusões
Torna-viagem, no mar das canções

Se as palavras se cansam no tempo
Este fogo não deixa de arder
Se as canções incendeiam a praia
Esta noite não hei-de morrer

Vem guardar o silêncio na cinza do tempo
Vem esquecer ventanias e vendavais
Vem bailar o veludo na noite fagueira
Serei o barco e tu hás-de ser o cais
Serei o barco, tu serás o cais

Se as palavras se cansam no tempo
Este fogo não deixa de arder
Se as canções incendeiam a praia
Esta noite não hei-de morrer

Textos Zeca Medeiros, Desenhos: Alberto Péssimo ( Março, 2006)

Uma Experiência com Riscos

         "Quando escrevo falo da minha experiência porque é o material que tenho. Unamuno dizia que falava dele porque era o que tinha mais à mão. O me interessa é converter a minha experiência numa experiência de todos os leitores. Isso tem riscos, mas quem não quer correr riscos não é escritor."
Javier Cercas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Contigo aprendi coisas tão simples como"

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente.

Ruy Belo

44

Mas de onde vem esta manhã que, apesar de tudo,
não nos abandona? Somos privilegiados.
O mar é mais catastrófico na televisão
e nos sítios onde felizmente não estamos.
A terra treme debaixo dos outros
e o sol mantém uma imoralidade média e
                                                     (neutra
sobre grandes assassinatos. Homens
enterram corpos em quintas privadas onde
plantas robustas nascem com doenças imperceptíveis.

Gonçalo M.Tavares, in "Uma Viagem à Índia".

Caminhos

Caminhos por entre prados
Dos quais não sabe ninguém
Nem sequer onde começam
Nem onde vão dar também

Caminhos sempre isolados
Abertos num simples traço
Só tendo em frente o tempo
E o puro espaço…

Rainer Maria Rilke (Tradução de Armando Côrtes Rodrigues, que aproveitou para dedicar ao seu amigo, Domingos Rebelo, pintor micaelense que fixou residência em Lisboa, em 1942).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Éden



"A melhor homenagem que podemos fazer ao espírito d`As Ilhas Desconhecidas é preservar a paisagem, protegê-la do betão e de infra-estruturas desnecessárias. As companhias de baixo custo poderão revolucionar o mercado da aviação, trazer mais turistas, mas não creio que o arquipélago passe a ser um destino de massas. A falta da luz e do Sol de outras latitudes dão-lhe alguma protecção, contudo não há isenção de riscos. Acredito que o turismo nos Açores será sempre destinado a diferentes nichos de amantes da natureza, a viajantes sem pressa e pacientes perante os humores atmosféricos. Espero que As Ilhas Desconhecidas nunca venham a ser lidas pelas futuras gerações como um lamento por um éden que se perdeu."

Paulo Lisboa, in "Nos Açores, com Raul Brandão no século XXI"- Boletim Cultural Fazendo nº97.

Os Dias Fevereiros que se Anunciam

             Janeiro, enquanto mês inicial de um novo ano, promete sempre muito mais do que aquilo que cumpre e, talvez por isso, parece demorar uma eternidade até cumprir as suas demandas e promessas. Por vezes, traz com ele algumas surpresas, inquietudes e demais devaneios meteorológicos, sendo assim incumbido de enxugar de forma irrepreensível os nossos cabides e existências. Janeiro passou entretanto, despedindo-se de forma líquida e cordial, arriscando novos desenvolvimentos no ano impar que ainda demorará a chegar, deixando certamente um lastro de indescritível e húmida saudade. Venha, portanto, Fevereiro, esse mês que nem damos por ele, de tão curto que é, e que quase nos deixamos enternecer pelo seu particular nome volátil e diminutos dias. Como desafio, devia ser possível esboçar um pequeno diário passado todo ele neste mês diminuído e, se possível, explicitando a rapidez da sua passagem, o estado cronicamente frio da sua temperatura, os dias curíssimos e a escassez da luz e de brilho. Um quase mês por completar. É por isso tempo de procurar canções ou poemas que falem da alegria e melancolia de Fevereiro e é tempo agora de anunciar por aqui os versos  de “Caligrafia”, dedicados a este mês num outro calendário existencial: "Numa manhã de Fevereiro/Apaixonei-me pela tua caligrafia/Daí em diante fiquei a saber/Este é o mês em que se sofre menos.”

sábado, 30 de janeiro de 2016

Saída

temos na terra um dizer
Que é diferente do de fora
Temos as vogais bem cheias
Encanadas pelo vento
Do tempo que se demora

nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo

vem à ilha
Só para ver o que ela tem
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo

vem à ilha
Só para ver o que ela tem
Quatro tempos num só dia
Cada minuto são cem

vem à ilha
Talvez fiques mais um dia
Porque o avião não vem

música dos Bandarra (Letra: Miguel Machete), in álbum Bicho do Diabo, 2012.

O Mapa da Minha Experiência

       "Quando fiz 50 anos, deixei de contar os lugares em que tinha vivido. Às vezes por poucas semanas, às vezes durante uma década ou mais, o mapa mundo consistiu, para mim, não na sua convencional representação num globo, como o que tinha na minha mesa de cabeceira quando era criança, mas numa cartografia pessoal em que as maiores massas de terra eram os lugares em que eu passava períodos maiores, e as ilhas os locais de passagem mais curta. Tal como o modelo do eu concebido por fisiologistas em que o tamanho de cada traço corresponde à importância que lhe atribuímos na nossa cabeça, o meu modelo do mundo é o mapa da minha experiência."

Alberto Manguel