quarta-feira, 2 de março de 2016

Ontem, escrito numa parede da cidade

Ao escritor doía-lhe o corpo de tanto escrever e, quando entrou na biblioteca, sentou-se descansado a ler.

terça-feira, 1 de março de 2016

Olof Palme: Um Cidadão Comum!


       
Olof Palme
imagem daqui: www.relevant.at
        Faz hoje trinta anos que assassinaram Olof Palme, à porta do Grand Cinema, na cidade de Estocolmo, Suécia. O assassinato ocorreu pelas costas quando este se encontrava acompanhado pela sua mulher. Nunca se soube quem foi o autor dos disparos. A Europa que actualmente queremos viva e herdeira dessa social-democracia avançada, sob o signo de Olof Palme e Willy Brandt, parece estar a definhar. Sem dúvida, foram eles os criadores, primeiro  da realidade  e depois do mito, arautos de uma sociedade política e culturalmente exigente, tolerante e verdadeiramente democrática. Infelizmente, os exemplos que temos hoje  à nossa frente deixam muito a desejar. Actualmente, um primeiro ministro que sai à rua sem guarda-costas e que vai ao cinema de metro, parece mesmo uma história de um tempo impossível, bem como a dedicação e serviços à causa pública se tornaram reflexo de algum cinismo e motivo de pândega. Olof Palme simbolizou o exercício e a prática da social-democracia, isto é, um Estado Social responsável pela Saúde e a Educação dos seus cidadãos, a protecção aos mais velhos, o cuidado para com as crianças e a atenção devida aos mais desfavorecidos. Foi também um politico que acreditou no fim do apartheid na África do Sul e que se opôs firmemente em relação ao nuclear, sendo um defensor do Exército de Libertação da Palestina e da autonomia política da Cuba de Fidel Castro. A Suécia simplesmente não se esqueceu de um político que promovia a garantia de trabalho para todos e que legislava para que não fosse fácil despedir um trabalhador. Um homem que se enganou apenas ao pensar que era um cidadão comum.

Lugar de Inspiração e de Poetas

     “A primeira coisa para que me alertaram quando cheguei aqui foi para o estado do tempo, com as quatro estações a acontecerem no mesmo dia. Fiquei espantado, mas já me apercebi que é mesmo assim: o sol, a chuva, o céu azul, ou o céu nublado podem caber num intervalo de apenas seis horas…Contudo achei logo os Açores um óptimo lugar para a inspiração. Pelo que me dizem, esta é uma terra de poetas e sempre me interessei pelos lugares que levam as pessoas a escrever e sobre os ambientes que as inspiram.”

Entrevista ao músico norte-americano, Thurston Moore, fundador dos Sonic Youth, por Rui Jorge Cabral in “O Açoriano Oriental”, 1 de Março de 2016.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

De que é Feito o Passado

       
Imagem daqui:www.filmaffinity.com
 "O Amarcord é uma reflexão sobre  a incapacidade de observarmos criticamente o nosso passado fascista, um passado que recusamos, mas do qual nunca nos poderíamos separar: o que faz parte do passado de cada um de nós forma inalteravelmente uma parte íntima de si próprio. Por isso o Amarcord é mais um exame do presente do que uma nostalgia. Na realidade, quando foi estreado o Satyricon, muitos viram o filme como um comentário sobre o Maio de 68. Creio que filmes como Casanova ou O Navio podem ser interpretados como reflexos de uma certa actualidade, como o jornal da noite. (...) Muitas vezes simplifiquei o sentido cabalístico da palavra amarcord, dizendo que é um termo romagnolo e que significa "Lembro-me". Mas não é bem verdade. Penso que a ideia original me ocorreu depois de ter lido qualquer coisa sobre o sueco defensor do aborto Hammercord, e que a sonoridade do seu nome o ponto de partida. Se se juntarem as palavras amare (amar), cuore (coração), ricordare (lembrar) e amaro (amargo) obtém-se Amarcord."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian   Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Relógios

          "Toda a gente sabe que o tempo é a morte, que a morte se esconde nos relógios. Apesar de tudo, se impusermos um outro tempo, que é alimentado pelo relógio da imaginação, podemos rejeitar a sua lei. Aí, livres da foice do triste ceifeiro, aprendemos que a dor é conhecimento e que todo o conhecimento é dor."

Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Ontem, escrito numa parede da cidade

As minhas amigas Sinónimas têm razão. Eu devia deixar de incomodá-las durante a noite.

(Pára-me de Repente…)

Pára-me de repente o pensamento…
-Como se de repente sofreado
Na Douda Correria…em que, levado…
-Anda em Busca…da Paz…do Esquecimento.

-Pára Surpreso…Escrutador…Atento
Como para…um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo…ante seus pés rasgado…
-Pára…e Fica…e Demora-se um Momento…

Vem Trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d´Aço, que na Noute explora…

-Mas a Espora da dor seu flanco estria…
-E ele Galga…e Prossegue…sob a Espora!

Ângelo de Lima

Sob o Lado Esquerdo

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinais, dos cristais. Então, das duas uma: partem ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:“o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo os peso do sangue sobre a metade gasta do meu corpo, esmagar o coração.”

Carlos de Oliveira

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Carta a Janeiro Alves no Findar de Fevereiro

Caro amigo Janeiro Alves,

Gostaria de dizer-lhe o quanto venerei a sua missiva em meados de Fevereiro, talvez porque há muito não lia um escrito em língua portuguesa tão livre e serenamente escorreito. Os meus sinceros encómios para si e para os seus mestres de longa data, obviamente, pois tenho a certeza que esta epístola amiga será guardada secretamente debaixo de um colchão de uma cama setecentista, à semelhança do que realizava na infância com os maços de notas do monopólio, após várias vitórias consecutivas. Ando, portanto, há alguns dias impaciente para lhe responder, mas, como o meu caro amigo bem sabe, as minhas austeras e vigorosas rotinas, deixam-me sem tempo nem espaço para fazer seja o que for. Escrevo-lhe, por isso, agorinha mesmo, antes de me recolher no meu leito de Morpheu, logo após comer as minhas papas de flor de aveia e efectuar somente dois sopros no narguilé.
Tenho levado, nos tempos mais recentes, uma vida demasiado frugal e tranquila, longe evidentemente dos tempos de apostas em casinos e demais investimentos obscuros nos concursos de tiro ao alvo, ou partidas de columbofilia, procurando nesses momentos de estúrdia e evasão a necessária ataraxia que a vida moderna exige. Estou mais calmo, é certo, mas acumulo picos de angustia e euforia, sendo este período marcado por uma felicidade incrível, no entanto pouco ou nada criativa da minha existência.
Há dias, fui pago a peso de cortiça para apresentar uma exposição de fotografia de um jovem altamente promissor, um artista obcecado em fixar manequins existentes nas montras das cidades e os seus mais que desinteressantes olhares e posicionamentos verticais. Agradou-me sobretudo ver que há artistas para tudo bem como a forma como croquete e bolinho de bacalhau invadiu os salões e as vernissages da actualidade. Sem mais, fiquei estupefacto, estarrecido e algo enfartado.
Estou quase a adormecer, amigo Janeiro Alves. Sinto que vou sonhar com a fatia de salmão que comerei bem cedo pela manhã. Da janela do meu quarto vejo um jardim resplandecente, na rua não há vivalma, e a vida por aqui sabe-me a estrelícias em flor e araucárias solitárias! A Primavera ameaça, mas fica-se por aí…à espera que as suas novidades sejam uma evidência, despeço-me…

com elevada estima e reconhecimento,
este seu eterno amigo,


       Doutor Mara 

Somos a Língua que Falamos

          “Todo o grupo que seja objecto de preconceito tem isto a dizer: somos a língua em que somos falados, somos as imagens em que somos reconhecidos, somos a história que estamos condenados a recordar porque fomos impedidos de ter um papel activo no presente. Mas somos também a língua em que questionamos estas suposições, as imagens com que invalidamos os estereótipos. E somos também o tempo em que vivemos, um tempo do qual não podemos estar ausentes. Temos uma existência própria e já não queremos continuar imaginários.”
Alberto Manguel

Diminuição da Espessura Afectiva dos Laços

          Há uma maior quantidade de traços de psicose, narcisismo, borderline. Porque há uma menor intimidade entre as pessoas. As relações são mais superficiais, menos íntimas, menos vinculadas, mais anónimas. De maneira que não há familiaridade. Deixou de haver confiança, a colaboração mútua. (…)  Hoje as pessoas só são íntimas entre dois ou três amigos. No meu tempo, era íntimo de todas as pessoas da aldeia. Mesmo nas cidades, havia aquela coisa de bairro, as pessoas iam a casa uns dos outros. Hoje temos mais conhecidos do que amigos. Há uma diminuição da espessura afectiva dos laços.”

               Entrevista de Carlos Vaz Marques a Coimbra de Matos, in Jornal Público, dia 21 de Fevereiro, 2016.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

...

sabes
conta-se que depois do inverno
a memória
treme nos interiores das chuvas caídas
alguns candeeiros deslizam para os mistérios de uma sombra
e deixam algumas pegadas
para quem sabe que nascer ou morrer agora
passa ao lado das ponderações gerais
ou dos decretos cósmicos

diz-se ainda
que alguns homens partem por esses vestígios de liquidez
cantam dentro de um corpo invertido e desfocado
ao longe
onde sentado à soleira da casa de alguém os vejo passar
sem calendário que não seja obrigatório
ou as calças mais banais
e burocráticas

Sei lá – daqui parece que caminham
sobre as ruas fluídas
como se caminhassem por cima de uma miragem
interessa-lhes pouco o que de facto nada interessa
como ajoelharem-se
encostarem o ouvido à chuva por desaparecer
procurarem naquele reflexo ingrato uma pulsação
onde uma abelha pouse e de lá traga
o princípio de outra flor

enfim
é isto que escrevo sussurradamente
sentado em sítios que não me pertencem
sabendo
que se não me levantar destas estações sensíveis
toda a minha irrefutável e inútil vida será
ver os outros partir

Leonardo, in Âmbula, Companhia das Ilhas, 2015.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!