quarta-feira, 2 de março de 2016
Ontem, escrito numa parede da cidade
Ao escritor doía-lhe o corpo de tanto escrever e, quando entrou na biblioteca, sentou-se descansado a ler.
terça-feira, 1 de março de 2016
Olof Palme: Um Cidadão Comum!
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| Olof Palme imagem daqui: www.relevant.at |
Lugar de Inspiração e de Poetas
“A primeira coisa para que me
alertaram quando cheguei aqui foi para o estado do tempo, com as quatro
estações a acontecerem no mesmo dia. Fiquei espantado, mas já me apercebi que é
mesmo assim: o sol, a chuva, o céu azul, ou o céu nublado podem caber num
intervalo de apenas seis horas…Contudo achei logo os Açores um óptimo lugar
para a inspiração. Pelo que me dizem, esta é uma terra de poetas e sempre me
interessei pelos lugares que levam as pessoas a escrever e sobre os ambientes
que as inspiram.”
Entrevista
ao músico norte-americano, Thurston Moore,
fundador dos Sonic Youth, por Rui
Jorge Cabral in “O Açoriano Oriental”, 1 de Março de 2016.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
De que é Feito o Passado
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| Imagem daqui:www.filmaffinity.com |
Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Relógios
"Toda a gente sabe que o tempo é a morte, que a morte se esconde nos relógios. Apesar de tudo, se impusermos um outro tempo, que é alimentado pelo relógio da imaginação, podemos rejeitar a sua lei. Aí, livres da foice do triste ceifeiro, aprendemos que a dor é conhecimento e que todo o conhecimento é dor."
Federico Fellini -"Sou Um Grande Mentiroso - Uma Conversa com Damian Pettigrew",Tradução de Miguel Serras Pereira, Fim de Século, 2008.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Ontem, escrito numa parede da cidade
As minhas amigas Sinónimas têm razão. Eu devia deixar de incomodá-las durante a noite.
(Pára-me de Repente…)
Pára-me de repente o
pensamento…
-Como se de repente
sofreado
Na Douda Correria…em
que, levado…
-Anda em Busca…da
Paz…do Esquecimento.
-Pára
Surpreso…Escrutador…Atento
Como para…um Cavalo
Alucinado
Ante um Abismo…ante
seus pés rasgado…
-Pára…e Fica…e
Demora-se um Momento…
Vem Trazido na Douda
Correria
Pára à beira do
Abismo e se demora
E Mergulha na Noute,
Escura e Fria
Um olhar d´Aço, que
na Noute explora…
-Mas a Espora da dor
seu flanco estria…
-E ele Galga…e
Prossegue…sob a Espora!
Sob o Lado Esquerdo
De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos
sinais, dos cristais. Então, das duas uma: partem ou não se partem as cordas
tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:“o
melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo os peso do
sangue sobre a metade gasta do meu corpo, esmagar o coração.”
Carlos de Oliveira
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Carta a Janeiro Alves no Findar de Fevereiro
Caro amigo Janeiro Alves,
Gostaria de dizer-lhe o quanto venerei a sua missiva em meados de Fevereiro, talvez porque há muito não lia um escrito em língua portuguesa tão livre e serenamente escorreito. Os meus sinceros encómios para si e para os seus mestres de longa data, obviamente, pois tenho a certeza que esta epístola amiga será guardada secretamente debaixo de um colchão de uma cama setecentista, à semelhança do que realizava na infância com os maços de notas do monopólio, após várias vitórias consecutivas. Ando, portanto, há alguns dias impaciente para lhe responder, mas, como o meu caro amigo bem sabe, as minhas austeras e vigorosas rotinas, deixam-me sem tempo nem espaço para fazer seja o que for. Escrevo-lhe, por isso, agorinha mesmo, antes de me recolher no meu leito de Morpheu, logo após comer as minhas papas de flor de aveia e efectuar somente dois sopros no narguilé.
Tenho levado, nos tempos mais recentes, uma vida demasiado frugal e tranquila, longe evidentemente dos tempos de apostas em casinos e demais investimentos obscuros nos concursos de tiro ao alvo, ou partidas de columbofilia, procurando nesses momentos de estúrdia e evasão a necessária ataraxia que a vida moderna exige. Estou mais calmo, é certo, mas acumulo picos de angustia e euforia, sendo este período marcado por uma felicidade incrível, no entanto pouco ou nada criativa da minha existência.
Há dias, fui pago a peso de cortiça para apresentar uma exposição de fotografia de um jovem altamente promissor, um artista obcecado em fixar manequins existentes nas montras das cidades e os seus mais que desinteressantes olhares e posicionamentos verticais. Agradou-me sobretudo ver que há artistas para tudo bem como a forma como croquete e bolinho de bacalhau invadiu os salões e as vernissages da actualidade. Sem mais, fiquei estupefacto, estarrecido e algo enfartado.
Estou quase a adormecer, amigo Janeiro Alves. Sinto que vou sonhar com a fatia de salmão que comerei bem cedo pela manhã. Da janela do meu quarto vejo um jardim resplandecente, na rua não há vivalma, e a vida por aqui sabe-me a estrelícias em flor e araucárias solitárias! A Primavera ameaça, mas fica-se por aí…à espera que as suas novidades sejam uma evidência, despeço-me…
com elevada estima e reconhecimento,
este seu eterno amigo,
Doutor Mara
Somos a Língua que Falamos
“Todo o grupo que seja objecto de preconceito tem isto a dizer: somos a
língua em que somos falados, somos as imagens em que somos reconhecidos, somos
a história que estamos condenados a recordar porque fomos impedidos de ter um
papel activo no presente. Mas somos também a língua em que questionamos estas
suposições, as imagens com que invalidamos os estereótipos. E somos também o
tempo em que vivemos, um tempo do qual não podemos estar ausentes. Temos uma
existência própria e já não queremos continuar imaginários.”
Alberto Manguel
Diminuição da Espessura Afectiva dos Laços
Há uma maior quantidade de traços de psicose, narcisismo, borderline.
Porque há uma menor intimidade entre as pessoas. As relações são mais
superficiais, menos íntimas, menos vinculadas, mais anónimas. De maneira que não
há familiaridade. Deixou de haver confiança, a colaboração mútua. (…) Hoje as pessoas só são íntimas entre dois ou
três amigos. No meu tempo, era íntimo de todas as pessoas da aldeia. Mesmo nas
cidades, havia aquela coisa de bairro, as pessoas iam a casa uns dos outros.
Hoje temos mais conhecidos do que amigos. Há uma diminuição da espessura afectiva dos
laços.”
Entrevista de Carlos Vaz Marques a Coimbra de Matos,
in Jornal Público, dia 21 de Fevereiro, 2016.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
...
sabes
conta-se
que depois do inverno
a
memória
treme
nos interiores das chuvas caídas
alguns
candeeiros deslizam para os mistérios de uma sombra
e
deixam algumas pegadas
para
quem sabe que nascer ou morrer agora
passa
ao lado das ponderações gerais
ou
dos decretos cósmicos
diz-se
ainda
que
alguns homens partem por esses vestígios de liquidez
cantam
dentro de um corpo invertido e desfocado
ao
longe
onde
sentado à soleira da casa de alguém os vejo passar
sem
calendário que não seja obrigatório
ou
as calças mais banais
e
burocráticas
Sei
lá – daqui parece que caminham
sobre
as ruas fluídas
como
se caminhassem por cima de uma miragem
interessa-lhes
pouco o que de facto nada interessa
como
ajoelharem-se
encostarem
o ouvido à chuva por desaparecer
procurarem
naquele reflexo ingrato uma pulsação
onde
uma abelha pouse e de lá traga
o
princípio de outra flor
enfim
é isto que escrevo
sussurradamente
sentado em sítios que não
me pertencem
sabendo
que se não me levantar
destas estações sensíveis
toda a minha irrefutável
e inútil vida será
ver os outros partir
Leonardo,
in Âmbula, Companhia das Ilhas,
2015.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Tipografia Micaelense: A Aventura Continua
![]() |
| Ilustração de Mário Roberto |
Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo
que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de
alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o
tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem
que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos
esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor,
irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao
público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo
Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis,
já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um
período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de
entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona
apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais
máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes
gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do
Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo
Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra
no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à
cabeça, recorrendo também ao offset,
mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais.
Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de
Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e
confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha
e, por sinal, bem “requinha”!
Tipografia Micaelense: A Aventura Continua
![]() |
| Ilustração de Mário Roberto |
Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo
que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de
alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o
tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem
que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos
esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor,
irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao
público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo
Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis,
já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um
período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de
entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona
apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais
máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes
gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do
Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo
Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra
no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à
cabeça, recorrendo também ao offset,
mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais.
Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de
Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e
confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha
e, por sinal, bem “requinha”!
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