quarta-feira, 11 de maio de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

"Maio" de Raul Brandão

      "Já rebentaram as fontes. Toda a terra se agita, viva, dentando cá fora o seu sonho. Dir-se-ia que sob o chão que pisamos correm rios de tinta que transbordam, subindo nos troncos, cobrindo-os de roxo, de branco, de púrpura e verde…. Vai por esse mundo um deboche de cor. As plantas aparecem-nos na mais linda toilette, os bichos vestem as suas roupas mais ricas. Não há princesa na terra que possua tão maravilhosos tecidos, sedas, oirescências, desenhos, aplicações de igual beleza e juntamente de fragilidade tamanha…. Vi ontem uma vespa a passear numa pétala de rosa…. Tinha caído um desses aguaceiros de Primavera rápidos e precipitados – mas logo o céu correu a jorros, dourando a terra.
(…) O português, que é sempre um poeta, tem esta falha – não ama as flores. Em qualquer canteiro se podem criar obras de prodígio; a mais mesquinha terra é fácil de converter-se em sonho. Pois vê-la-eis estéril e abandonada. Há neste doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma árvore. É até vulgar!.... Quando uma árvore começa a ser bela, esgalhada e enorme, cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar, sequer, que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de Estado. O político é inútil…. Faz mais diferença à natureza o assassinato de uma grande árvore, que dá sombra e frescura, que a alta missão de purificar a atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e calvos. Perdoem-me!...
Ah sim! Maio, não era? Era de Maio que eu vinha falando?.... Já rebentaram novas fontes e não há valado, carreiro de aldeia onde não cresçam lírios selvagens, lindas florinhas graciosas e humilíssimas…. As raparigas cortam-nas, enfeitam com elas os cabelos e os seios – e riem, coram, se as olhamos. Só na cidade não há flores. Ontem, ao entardecer, deparei na rua com este caso enternecedor e banal. Nem já se diferenciavam as ressequidas. Uma triste rapariguinha que passava, descalça, de saia rota e cabelos ao vento, apanhou-as da poeira. Sacudiu-as e pondo-as no peito, partiu a cantar numa satisfação imensa, alegre como um pássaro.
Era decerto condão das flores – mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem de árvores de roxo, de púrpura, de verde."

in Brasil-Portugal, Lisboa, 16 de Maio de 1901, pp.125-126- Tb. In Vimaranense, Guimarães, 5 de Maio de 1917, p.1. Retirado do livro A Pedra ainda espera dar flor, dispersos. Raul Brandão (Organização Vasco Rosa).

Sonhos

Dreams de Sten Erland Hermundstad
(imagem You Tube)
          Quanto vale um sonho? Quando custa perder um sonho? E os sonhos todos juntos quanto valem? E perdê-los todos num só dia? E abrir mão deles podemos? Há dias em que podíamos muito bem construir todo um universo à volta deles?A música contribui para esse edifício onírico à volta dos sonhos de olhos abertos.Sonhos que permitem que absorvemos o ar todo do mundo, a respiração dos pequenos gestos quotidianos, o esplendor da vida que ao nosso lado se agita. Por isso quando sonhamos sabemos que há sonhos que são unicamente nossos, que nada nem ninguém nos consegue tirar...

sábado, 7 de maio de 2016

Chet Baker

Amarga coincidência essa de te fotografarem
sentado no peitoril de uma janela tocando
trompete e o modo como morreste. A toada

limpa e morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de inútil como de impossível de responder.

Permanece o forte tempero de ironia de que
o jazz é composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo o que na vida é fuga.
Agora só essa toada de bicho nocturno confirma isso

a ironia a fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano que levasse o tempo de uma queda

de um corpo da janela ao chão da rua.

António Amaral Tavares

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Fazendo 106

      Saiu a edição nº106 do boletim cultural FAZENDO(https://issuu.com/fazendofazendo), mais uma vez em formato online e versão impressa. Ao todo são quinhentos exemplares impressos na Tipografia Telégrafo, na cidade da Horta, Ilha do Faial. Em oito anos de publicação, já lá vão 106 números distribuídos e espalhados pelas mesas e lares das ilhas açorianas. Nos últimos tempos chega com sucesso (e de forma aérea e voluntária!) a cinco ilhas: Faial, Pico, Terceira, São Miguel e Santa Maria. É, desde o primeiro número, livre, gratuito, independente e comunitário. É a experiência participada, informativa, livre e autónoma mais bem sucedida nos tempos mais recentes em todo o arquipélago açoriano. A direcção deste boletim cultural é pertença do Tomás Melo e da Aurora Ribeiro. E todos os anos a revista altera o seu grafismo, renova a constituição dos seus conteúdos, não incluindo qualquer forma de publicidade comercial. Não há memória de nada assim ousada e tão longeva, essencialmente com estas particularidades na história das revistas/jornais nos Açores. Curioso também é o facto de não estar sob a alçada de qualquer instituição governamental ou poder político. 
A edição de Maio do FAZENDO traz consigo a capa do fotógrafo Jorge Barros que continua a fotografar as ilhas e os açorianos de forma sensível e irrepreensível. Caso mesmo para dizer: “Baleias de Barbas e Baleeiros de Bigode”. Há, portanto, no seu interior muitos artigos para ler e fruir nesta Primavera com muito pólen no ar e muitas águas vivas a chegar. Boas leituras! Eis a edição online:https://issuu.com/fazendofazendo/docs/106_zen_impress__o/1

Satie 150 no Teatro Micaelense

Joana Gama por Eduardo Brito
Erik Satie“Sonneries de la Rose + Croix (Air du Grand Prieur)
John Adams“China Gates”
Erik Satie“Gnossienne n.º1”
Carlos Marrecos“Três Prelúdios Sobre o Mar”
Erik Satie“Gymnopédie n.º1”
Arvo Pärt“Für Alina”
Erik Satie“Embryons Desséchés”
John Cage“Dream”
Erik Satie“Sonatine Bureaucratique”
Alexander Scriabin“Vers la Flamme”
Erik Satie“Cinéma

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Erik Satie: o Peripatético!

Cartaz em serigrafia de Luís Henriques
          

         Erik Satie nasceu há 150 anos na Normandia e viveu uma boa parte da sua vida em Paris, falecendo na capital francesa em 1925. As suas composições musicais ficaram conhecidas mundialmente pelo seu minimalismo e simplicidade. Os que privaram com ele disseram que ele era excêntrico e irreverente. Cultivava a poesia, o desenho de caricaturas (inclusive de si próprio) e o esoterismo. Coleccionava guarda-chuvas e cachecóis, pois tinha pouco apreço pelo sol. Foi na cidade das luzes que trocou a Montmartre por um quarto modesto na periferia industrial da urbe parisiense. Na sua biografia constam nove quilómetros diários de dar à sola para tocar. Esteve apaixonado por uma única mulher ao longo da vida: Suzanne Valadon. A pianista Joana Gama aborda a sua vida  e obra às 18 horas do no Conservatório de Música de Ponta Delgada. Amanhã há filmes relacionados com este compositor e na sexta há recital pela pianista.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O Direito à Cidade

(…)“Encontramo-nos perante cidades onde o consumo é o motor principal das acções urbanísticas. A consequência é a proliferação de espaços de segregação cultural e económica, que afastam a população da realidade urbana, e fazem com que as cidades se pareçam umas com as outras. Os processos de gentrificação e turistiificação são alguns dos motores desta segregação.
O aumento do turismo provoca grandes expectativas em termos de desenvolvimento económico, mas coloca também a questão dos recursos a afectar à conservação e revitalização dos centros históricos. Na maioria dos casos, as cidades, por causa da pressão exercida pela indústria turística, transformam-se em imagens estereotipadas, ou têm de se adequar ao mercado internacional.
Ao mesmo tempo, os processos de gentrificação e turistificação provocam o deslocamento mais ou menos voluntário das populações locais, colocando em causa o direito à cidade.
A visão teórica da reabilitação na óptica da valorização do património para todos, salvaguarda a diversidade cultural e de um desenvolvimento sustentável permanece na agenda do dia. Porém, as dinâmicas económicas e as transformações urbanas daí resultantes têm vindo a comprometer a coesão socioeconómica e territorial.
Fabiana Pave inGentrificação e Turistificação: o Caso do Bairro Alto em Lisboa”; Le Monde Diplomatique, Abril de 2016.  

sexta-feira, 29 de abril de 2016

WE SEA: Fézada Musical!

Nada como festejar a noite de 24 para 25 de Abril e ouvir música variada e diferentes músicos em conjunto com muita alegria e alvedrio de tocar. O lugar escolhido já tinha sido palco recente do último Tremor ainda que o nome dado ao evento estivesse eivado de um sentimento e carga revivalista. De qualquer modo, esta salutar e curiosa iniciativa permitia um regresso ao espaço do Solar da Graça para encontrar diferentes tipos de propostas musicais. Entretanto, não demorou muito para a grande surpresa da noite soasse aquando do nome da banda em palco fosse sussurrada pelo Rodrigo. A banda já tinha tido outro nome – Broad Beans (Favas Guisadas) e que agora a formação reduzida tinha ganho outra nomenclatura.  E, se havia coisa que dava logo para ver nestes WE SEA, era o enorme à vontade, concentração e entusiasmo com que se apresentaram em palco. Estes chegaram mesmo a ironizar com o ferro de engomar que servia de base aos instrumentos do vocalista. A banda é constituída pelo Rui Rofino, voz e teclas, que demonstra grande confiança na batida e atmosferas musicais e por Clemente Almeida, no teclado e respectivas criações melódicas.
                Foi assim que, numa noite de cravos e música diversa, o espaço do Solar da Graça deu a conhecer estes WE SEA, em pleno estado de graça, com a vantagem do primeiro tema “Ser de Ver” soar de imediato a intensidade e paixão. Que belo poema-canção! É que, subitamente, a banda ribeira-grandense tomou conta daquelas mesas de madeira e público presente com aqueles desenhos e quadros nas paredes a lembrar uma ilha de outros tempos. Rui Rofino canta, por isso, com muita alma e entrega na língua de Antero de Quental.  Quem ouviu pela primeira vez, soou logo a descoberta  e prevê algo muito arejado em embrião, o que só augura um futuro promissor.

3 x William Shakespeare

Soneto 10

Recusa, por vergonha, que não sabes amar,
Tu, que para ti mesmo és tão pouco prudente!
Concede, se puderes, que és por muitos amado,
Porém, que a ninguém amas é por todos sabido.
Pois tu de um ódio tal te encontras possuído
Que mesmo contra ti não ousas conspirar,
E arriscas arruinar esse tecto tão belo,
E havias em desvelo dele melhor cuidar.
Ah, muda o teu pensar, para que eu mude o meu!
Deve o ódio ter lar mais belo que o amor?
Sê como é o teu estar, gracioso e encantador,
Ou ao menos a ti prova o teu bom sentir.
      Torna-te em outro eu, fá-lo por meu amor,
      Possa o belo viver quer nos teus, quer em ti.

Soneto 18

Poderei igualar-te a um dia de Verão?
És mais ameno e brando, e muito mais gentil.
Vacila ao vento rude o rebento em botão
E a vida do Verão, demasiado breve.
Queimando muita vez, o olho do céu brilha,
Muita vez sua face dourada se embacia;
E sempre o que é mais belo da beleza declina
Ao mando do destino ou natural porfia.
Mas não definhará o teu eterno Verão,
Nem a tua beleza há-de deixar de ser,
Nem a Morte dirá que em sua sombra és,
Quando, em eternos versos, no tempo tu cresceres.
     Enquanto alento houver e houver humano olhar,
     Hão-de viver meus versos, e tu neles viver.

Soneto 104

Para mim, belo amigo, nunca terás idade,
Pois tal como me foste, quando te olhei no olhar,
Assim me és: belo ainda. Três Invernos medonhos
Agitaram dos ramos três Estios em esplendor.
Três gentis Primaveras se tornaram Outonos,
Eu vi as estações em constante mudar,
Três perfumes de Abril queimados por três Junhos
Desde que então te vi; e ainda: igual frescor.
Ah! Porém, a beleza, sem passo percebido,
Como braço do tempo recua, rouba a forma;
E a tua doce cor, parecendo não mudar,
Varia na mudança, pode iludir-me o olhar.
     Para que tal não fora, escutai, vós, por nascer:
     Antes de vós nascerdes, o mais belo morrera.

William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Maio, Aventado, Maio

Maio é o mês mais belo, ultrapassando assim em beleza os restantes meses do ano inteiro. Quatro letras apenas compõe o nome deste mês que consolida uma Primavera há muito ansiada. Espantados ficamos com a subida da temperatura e o abandono da roupa que passamos a deixar nos armários. Adeus casacos e gorros nessa partida e um até pró ano. Eis que somos surpreendidos com tamanha fecundidade da natureza em redor, o irromper das flores em abundância, o despontar dos frutos e o irradiar da luz. Alegres ficamos na presença dos dias que permanecem maiores, dilatando o tempo ao sabor das horas, proporcionando crepúsculos inolvidáveis.
Agora que Abril parte e nos lega esta enorme promessa, abrimo-nos aos sentidos e à luz, espevitamos os aromas e odores, o gosto refina-se e aproveitamos por tactear a vida que pulsa, o desabrochar dos tecidos. O final de Abril já antevia em demasia a comparência dos cravos, anunciando também crisântemos, orquídeas, gladíolos e rosas, tal é a abundância, a fartura, e a riqueza floral. E depois deliciamo-nos com os frutos da época, procurando no mercado maçãs, ameixas, laranjas, ou o quintal de amigos para saborear as nêsperas, esse fruto que rebenta em polpa nos lábios e devolve o sabor desta primavera reiterada.
Só em Maio é que poderia existir um dia dedicado ao prazer do silêncio.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

É hoje na GZDB!

"Terra do Corpo"é apresentado às 22 horas!
“Num corpo sem janela há um quarto vazio
E nele o ar circula de fio a pavio
Num corpo há um quarto vazio

Num quarto sem janela há um corpo vazio
e esse está à espera que lhe puxem o fio
Num quarto há um corpo vazio

Cuidado com o Corpo vazio
Cuidado com o Corpo vazio”


in “Corpo Vazio”- Medeiros Lucas (participação de Selma Uamusse), letra de João Pedro Porto.