sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

(Pára-me de Repente…)

Pára-me de repente o pensamento…
-Como se de repente sofreado
Na Douda Correria…em que, levado…
-Anda em Busca…da Paz…do Esquecimento.

-Pára Surpreso…Escrutador…Atento
Como para…um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo…ante seus pés rasgado…
-Pára…e Fica…e Demora-se um Momento…

Vem Trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d´Aço, que na Noute explora…

-Mas a Espora da dor seu flanco estria…
-E ele Galga…e Prossegue…sob a Espora!

Ângelo de Lima

Sob o Lado Esquerdo

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinais, dos cristais. Então, das duas uma: partem ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa:“o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo os peso do sangue sobre a metade gasta do meu corpo, esmagar o coração.”

Carlos de Oliveira

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Carta a Janeiro Alves no Findar de Fevereiro

Caro amigo Janeiro Alves,

Gostaria de dizer-lhe o quanto venerei a sua missiva em meados de Fevereiro, talvez porque há muito não lia um escrito em língua portuguesa tão livre e serenamente escorreito. Os meus sinceros encómios para si e para os seus mestres de longa data, obviamente, pois tenho a certeza que esta epístola amiga será guardada secretamente debaixo de um colchão de uma cama setecentista, à semelhança do que realizava na infância com os maços de notas do monopólio, após várias vitórias consecutivas. Ando, portanto, há alguns dias impaciente para lhe responder, mas, como o meu caro amigo bem sabe, as minhas austeras e vigorosas rotinas, deixam-me sem tempo nem espaço para fazer seja o que for. Escrevo-lhe, por isso, agorinha mesmo, antes de me recolher no meu leito de Morpheu, logo após comer as minhas papas de flor de aveia e efectuar somente dois sopros no narguilé.
Tenho levado, nos tempos mais recentes, uma vida demasiado frugal e tranquila, longe evidentemente dos tempos de apostas em casinos e demais investimentos obscuros nos concursos de tiro ao alvo, ou partidas de columbofilia, procurando nesses momentos de estúrdia e evasão a necessária ataraxia que a vida moderna exige. Estou mais calmo, é certo, mas acumulo picos de angustia e euforia, sendo este período marcado por uma felicidade incrível, no entanto pouco ou nada criativa da minha existência.
Há dias, fui pago a peso de cortiça para apresentar uma exposição de fotografia de um jovem altamente promissor, um artista obcecado em fixar manequins existentes nas montras das cidades e os seus mais que desinteressantes olhares e posicionamentos verticais. Agradou-me sobretudo ver que há artistas para tudo bem como a forma como croquete e bolinho de bacalhau invadiu os salões e as vernissages da actualidade. Sem mais, fiquei estupefacto, estarrecido e algo enfartado.
Estou quase a adormecer, amigo Janeiro Alves. Sinto que vou sonhar com a fatia de salmão que comerei bem cedo pela manhã. Da janela do meu quarto vejo um jardim resplandecente, na rua não há vivalma, e a vida por aqui sabe-me a estrelícias em flor e araucárias solitárias! A Primavera ameaça, mas fica-se por aí…à espera que as suas novidades sejam uma evidência, despeço-me…

com elevada estima e reconhecimento,
este seu eterno amigo,


       Doutor Mara 

Somos a Língua que Falamos

          “Todo o grupo que seja objecto de preconceito tem isto a dizer: somos a língua em que somos falados, somos as imagens em que somos reconhecidos, somos a história que estamos condenados a recordar porque fomos impedidos de ter um papel activo no presente. Mas somos também a língua em que questionamos estas suposições, as imagens com que invalidamos os estereótipos. E somos também o tempo em que vivemos, um tempo do qual não podemos estar ausentes. Temos uma existência própria e já não queremos continuar imaginários.”
Alberto Manguel

Diminuição da Espessura Afectiva dos Laços

          Há uma maior quantidade de traços de psicose, narcisismo, borderline. Porque há uma menor intimidade entre as pessoas. As relações são mais superficiais, menos íntimas, menos vinculadas, mais anónimas. De maneira que não há familiaridade. Deixou de haver confiança, a colaboração mútua. (…)  Hoje as pessoas só são íntimas entre dois ou três amigos. No meu tempo, era íntimo de todas as pessoas da aldeia. Mesmo nas cidades, havia aquela coisa de bairro, as pessoas iam a casa uns dos outros. Hoje temos mais conhecidos do que amigos. Há uma diminuição da espessura afectiva dos laços.”

               Entrevista de Carlos Vaz Marques a Coimbra de Matos, in Jornal Público, dia 21 de Fevereiro, 2016.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

...

sabes
conta-se que depois do inverno
a memória
treme nos interiores das chuvas caídas
alguns candeeiros deslizam para os mistérios de uma sombra
e deixam algumas pegadas
para quem sabe que nascer ou morrer agora
passa ao lado das ponderações gerais
ou dos decretos cósmicos

diz-se ainda
que alguns homens partem por esses vestígios de liquidez
cantam dentro de um corpo invertido e desfocado
ao longe
onde sentado à soleira da casa de alguém os vejo passar
sem calendário que não seja obrigatório
ou as calças mais banais
e burocráticas

Sei lá – daqui parece que caminham
sobre as ruas fluídas
como se caminhassem por cima de uma miragem
interessa-lhes pouco o que de facto nada interessa
como ajoelharem-se
encostarem o ouvido à chuva por desaparecer
procurarem naquele reflexo ingrato uma pulsação
onde uma abelha pouse e de lá traga
o princípio de outra flor

enfim
é isto que escrevo sussurradamente
sentado em sítios que não me pertencem
sabendo
que se não me levantar destas estações sensíveis
toda a minha irrefutável e inútil vida será
ver os outros partir

Leonardo, in Âmbula, Companhia das Ilhas, 2015.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!

Tipografia Micaelense: A Aventura Continua


         
Ilustração de Mário Roberto
A Tipografia Micaelense está situada na Rua do Castilho, com o número 33B, em pleno centro histórico da cidade de Ponta Delgada. À passagem pela sua porta, o seu reclamo sugere de imediato curiosidade a quem sempre nutriu gosto e encanto pelo mundo das artes gráficas. Ao entrar, respira-se um ambiente de papel e máquinas que se assemelha a um repositório de vivências e memórias que não somos capazes de decifrar à primeira. É preciso, por isso, dar tempo ao tempo e dois passos em frente para nos abeirarmos da recepção e absorver o cheiro das máquinas e objectos ali presente. Num expositor do lado esquerdo estão, de forma ordenada, algumas das relíquias gráficas que a designer Júlia Garcia, tem desenhado e composto por ali com a ajuda do pessoal da casa. É esta designer quem irá discorrer, algumas horas depois, sobre esse universo tipográfico, os mistérios e encantamentos de cada gaveta, a revelação de antigas técnicas de impressão nos tipos ali guardados, bem como do trabalho manual que é necessário para cumprir cada tarefa ou a vontade que é partilhar esses conhecimentos ancestrais com diferentes pessoas que ali aportam. E o que é um facto é que cada vez mais gente nova ligada às artes gráficas e outros curiosos passam por ali e assistem espantados ao imaginário de subtilezas que importa conhecer e voltar a (re)descobrir. A porta, pelo menos, está aberta a quem decida aventurar-se naquela "catedral de conhecimento gráfico".
       Fundada em 1947, a Tipografia Micaelense faz parte desse património vivo que urge ser recuperado e novamente valorizado, sendo actualmente pertença de alguém que, com cuidado, orgulho e dedicação, tem sabido que este é de novo o tempo de misturar e voltar a dar: Dinis Botelho. É, sobretudo, ele, um homem que trabalha há muitos anos em tipografias, quem conta como agarrou em mãos esta antiga casa, em estado de pausa e desuso, e com a sua direcção e labor, irá completar este ano duas décadas de funcionamento contínuo e abertura ao público. A seu lado, está o seu companheiro de ofício de longa data - Eduardo Furtado. Dinis Botelho conta também que os primeiros dez anos não foram fáceis, já que serviram essencialmente para pagar o investimento e manutenção, sendo um período de muito empenho e esforço, algo que pertence a muitos dias e noites de entrega às canseiras e dificuldades. Hoje, a Tipografia Micaelense funciona apenas em offset, ainda que esteja por ali uma Heidelberg muito antiga e demais máquinas de outros tempos, e foi dessas subtilezas relacionadas com as artes gráficas do passado, que saíram recentemente a capa do livro “Os Caminhos do Chá”, um extraordinário catálogo de divulgação da exposição organizada pelo Museu Machado de Castro, ainda em exibição, a bonita "Agenda Luz de 2016", trabalho realizado na íntegra no espaço da Tipografia por um grupo alargado de pessoas, com Júlia Garcia à cabeça, recorrendo também ao offset,  mantendo técnicas de impressão antigas na capa e nas artes finais. Curiosamente, na última sexta-feira, assistimos ao lançamento de “Haikus de Passage”, da francesa, Elga Martin, que nos ajudou também a compreender e confirmar o que já todos sabíamos: a Tipografia Micaelense está viva, vivinha e, por sinal, bem “requinha”!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Uma Missiva de Janeiro Alves no Cair do Pano

Caro Dr. Mara,
            Espero que esta carta de Fevereiro esteja à altura da sua magnífica intelectualidade e superior interesse, para que não a leia na diagonal como é habitual, e não deixe assim escapar os pequenos detalhes das entrelinhas, decisivos para que perceba que nem tudo espelha o que à partida aparenta.
            No Vislumbre está o erro.
            Imagino-o bem, na sua vida pacata, entre a casa, a biblioteca, e o café. Em casa descansa, na biblioteca trabalha e no café convive, embora também conviva em casa, trabalhe no café e descanse na biblioteca. Poderá também trabalhar em casa, conviver na biblioteca (baixinho) e descansar no café, desde que tenha boas poltronas para se recostar. Este seu triângulo é já uma rotina, e quem disser que não precisa de uma rotina fá-lo por inócua rebeldia, ou por manifesta incompetência. É essa rotina que lhe permite por em prática o seu método de trabalho, a sua nobre missão de compor palavras através de letras, frases por junção de palavras, textos como compilação de frases, e ideias por intermédio de textos. Expresso portanto um sentimento de ampla satisfação por ver o Dr. Mara, na plenitude de todas as suas capacidades físicas e mentais, e sempre com os olhos postos na construção do universo futurista, a produzir matéria literária relevante para as gerações futuras. Agrada-me sobretudo ver que abandonou, num definitivo provisório, os seus comportamentos pouco ortodoxos que tão lamentavelmente abalaram os pilares da sua idoneidade social e dignidade pessoal. O dia em que largou o degredo e a luxúria e decidiu regressar à sua promissora carreira, deveria ser feriado nacional! Longe vai o tempo dos clubes nocturnos e dos negócios obscuros. Faça-se luz nas suas ideias
          Mas já chega de falar de si, Dr. Mara, pois daqui a pouco, de tão inchado rebenta. E se rebentar pelos ares, milhões de palavras desordenadas se soltarão e serão arrastadas pelo vento para parte incerta, como pequenos murmúrios eternos espalhados pela cidade à procura de bocas.
            Este seu admirador por aqui vai andando e observando. Andando pelo jogo da cidade, observando transeuntes a arrastarem-se por entre os destroços da sua própria existência, chorando mil lágrimas vazias no culto permanente da sua impotência de amar. Na avenida passam autocarros repletos de amargura disposta em filas de rostos adormecidos de olhos abertos. As pessoas andam tão cabisbaixas que parecem tentar encontrar a lente de contacto que perderam no chão, e por cima das nossas cabeças cai uma chuva torrencial de depressão e angústia.
            Estava a brincar, Dr. Mara. Apenas senti que esta minha carta estava a necessitar de um momento de tensão. A cidade está resplandecente, as pessoas caminham com um sorriso aberto pelas ruas, e a vida por cá é um grande festim!
           Aguardo notícias suas em breve, se não for antes.
Com consideração e auto-estima,
Janeiro Alves

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Do Teatro

As Charlas Quotidianas do Doutor Mara

         "O teatro é uma forma social que depende, mais do que qualquer outra da sua eventual manifestação pública e por isso, de condições culturais gerais. Pode-se teoricamente conceber um filme rodado com intenção de posterioridade, o teatro, esse existe no presente, ou não existe."


Vaclav Havel in jornal "Expresso", Dezembro de 1990.

Dois Poemas Fevereiros

Se possuísse por instantes
o futuro todo pela frente
e lograsse escapar perplexo
pela copiosa chuva da manhã
talvez fosse provável abraçar
dez minutos mais tarde
a Primavera por cumprir
com robustas árvores e troncos em flor

Sem qualquer escusa
sairia em Fevereiro pela rua fora
com uma folha de hortelã ao ombro
directo à tigela da sopa
sabendo por entre dentes 
o quanto solitariamente escrevo
esse teu olhar
de intencionalidade pura.
(...)

Aproximar os ramos das árvores e escrever
sem querer saber de cheiros e de seiva
passear-se sobre ruas inexactas
lugares inócuos de ciência e clareira
o têmpero de líquidos no Inverno
expostas máscaras sem mistério
ao mágico espelho do tempo
enquanto as fábricas laboram sem cessar
e as pobres mães à espera de intervalo
em contínuo recreio, quase febril,
-que infância protelaremos em Fevereiro?

Quanto sangue escorre derretido
sobre vítimas indefesas da frieza
tal e qual caudais de gente revolta
somos transatlânticos sem destino
um manto de nuvens num abandono fugidio.

Ontem escrito numa parede da cidade

A kora não é popular em Portugal já que os músicos evitam ser conhecidos por coristas.