terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Um Dia Não Muito Longe Não Muito Perto

Às vezes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer-me que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?

Ruy Belo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Obséquio de Comprar Produtos da Terra e do Mar

            O Mercado da Graça, em Ponta Delgada, abre portas muito cedo, por volta das sete horas da manhã, repetindo o mesmo horário até quinta-feira, encerrando nestes dias às seis da tarde. Nos dias de sexta e sábado este lugar de comércio é apenas reservado às manhãs, pois fecha às duas da tarde e, como encerra aos domingos, tem essa particularidade de concentrar as compras numa parte do dia. O melhor é começar as compras bem cedo.

"Mercado do Peixe" - Ilustração de Mário Roberto

            Logo à entrada do mercado, devemos exercitar o sentido do olfacto, já que acreditamos não ser possível usar o paladar, exercitemos, portanto, o exalar de aromas e cheiros dos produtos da terra que lá se encontram, provenientes dos mais diferentes lugares da ilha verde. Esse sentido deve vir, portanto, muito antes da visão, já que muitas vezes a aparência e colorido dos respectivos víveres, não é atributo de odor exuberante e frescura, por isso convirá meter a mão e o nariz onde se é chamado, sem abusar, claro.  A verdade é que muitos de nós acordamos com ansias e desejos de artigos frescos, coisas boas e tenras, sobretudo deliciosas para comer ou ter por perto, se possível, muito, muito saborosas. É, sem dúvida, zeloso e bastante cuidadoso da nossa parte ir ao encontro das delícias e paladares que a nossa terra e mar dão, a exigência obrigatória de qualidade alimentar, bem longe dos plásticos e demais embalagens poluentes, ainda com a vantagem de se poder aprender sobre o tempo das colheitas e abordar a meteorologia de forma provisória e descomprometida, à boa maneira açoriana.
           É ali, na freguesia de São Pedro, num edifício que remonta a meados do século XIX, que se concentram os vendedores habituais, as pessoas que fazem e vivem aquele quotidiano enquanto comerciantes e vendedores de produtos locais. Por vezes, simpáticos, muitas vezes cansados com as agruras de um dia-a-dia árduo e nem sempre dispostos a tolerar clientes inquisitivos e impacientes. No entanto, por vezes, é deveras surpreendente a alegria permanente que se vislumbra num lugar como este, sabendo nós de histórias de sacrifício e obstáculos que existem por detrás daquelas existências. O sítio é, pois, propício à policromia em qualquer altura do ano, com uma pletora de cores que os frutos, vegetais e flores lhe confere.  Na visita a realizar não podemos descurar a compra dos produtos que a terra açoriana nos dá: inhame, pimenta da terra, batata doce, anonas, araçás, goiabas (quando é o tempo delas, claro), ainda o famoso ananás e, claro, há também por lá um cantinho dedicado aos queijos oriundos de todo o arquipélago que, como podem imaginar, são um verdadeiro comprazimento. Bem lá no fundo do mercado, há também a peixaria, sendo razão de sobra para aí encontrar e indagar a origem dos peixes do mar profundo do Atlântico, deparar-nos assim com o peixão, veja, boca negra, espadarte, alfonsim, imperador, bodião, bonito, congro, chicharro (no continente, o jaquinzinho) e ainda o polvo, que dali passarão a ser as verdadeiras atracções da restauração local.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Três Poemas Sobre a Negligência do Fio de Cabelo

O Teu Negligé oblige

A luz irrompeu limpa pela manhã
afastou lentamente o pesadelo,
inclemente grito logo desmanchado
cindiu um coração de esfinge imaculada
acusada de desleixe percorre agora
as espúrias veredas do desalinho
e desavinda toca o precipício na
falsa serenidade em retrocesso
as ruínas de um éden já traçado.

 A Oscilante Tocha Requer

A oscilante tocha requer
colo estirado pela tardinha
o recolher do copo em desamparo
alvo fio branco do desaforo
Daquele tempo enfermo foi reboliço
guarda no bolso o ténue presente
daquela falsa Incúria acometida.

 Da Tua Alba Obstinação  Possuo

Da tua alba obstinação possuo
a transferência em prato quente
acato urgências e vitupérios
a robustez frágil das intenções
teço loas ao cargo e desempenho
é carente de amplexo a incerteza
o meu abandono de aparência e alvoroço.

Jazz no Arco 8



         O que fazem três músicos Michael Ross (contrabaixista americano), Michael Smith (saxofonista sueco) e Michael Wimberly (baterista americano) na cidade portuária de Ponta Delgada? Fazem certamente um trio de Jazz, ensaiam e dão concertos para espectadores e melómanos atentos. A noite de sexta-feira, dia 12 de Fevereiro, na Galeria Arco 8, está reservada para escutar este trio de músicos conhecidos pelo seu virtuosismo e despojamento, sendo que são raros estes encontros, estamos perante um bom momento para participarmos de forma activa nessa sessão insular dedicada ao projecto DOGGONE JAZZ.

Só a Noite Me Atraiçoa

Não sei se os pássaros estranham haver eu e tu
e nunca nos terem visto

murchou aquela rosa que me enchia o quarto
e já olhei tanto a cidade
que nunca a achei diferente

se a felicidade não é perfume de rosa
os dias são a cadeia que o sol me prendeu

menina do avental vermelho
(essa é a côr que trago por dentro)
Quando deixas as tardes p´ra me revelares amanhã?

Só a noite traz
traição
de almofada perfumada.


Rui Duarte Rodrigues

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

"A Sombra e a Luz nas Canções"

            O pianista João Paulo Esteves da Silva e o fadista Ricardo Ribeiro juntaram-se recentemente para tocar e cantar. O lugar desta curiosa junção foi na Sala Luís de Freitas Branco, no passado dia 25 de Abril, no auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Com o título de “A Sombra e a Luz nas Canções”, João Paulo Esteves da Silva tocou e acompanhou pela primeira vez a voz de Ricardo Ribeiro, que interpretou temas de Amália Rodrigues (“O Mal Aventurado" – música de Alain Oulman e letra de Bernardim Ribeiro”), Sérgio Godinho (“Demónios de Alcácer-Quibir”), Popular Alentejano (“As Mondadeiras Cantando”), José Carlos Ary dos Santos ("Canto Franciscano" e “Cavalo à Solta” - com letra de Fernando Tordo), João Paulo Esteves da Silva (“Sítio” e “Duas Cores”), Vinícius de Moraes ("Serenata do Adeus") e Carlos Paredes ("Verdes Anos"). Desta reunião aguardam-se mais acontecimentos e canções, entretanto está disponível nos concertos da Antena1 uma audição desse bonito espectáculo ao vivo, a requerer, certamente, uma escuta dedicada e atenta.

Ancoradouro de Palavras

com José Daniel Macide
Mal se vêem as luzes da baía
Lá em baixo desfocadas pelo álcool
E por rastos de tempestade

Mal se vê a boca o baton da sobrancelha
O pó do giz da palavra riscada
O salto que não calçaste

Mal me vejo aqui sentado diante
deste quadro negro ao lado deste companheiro
diante deste vinho

Servem-se palavras baixas, discretas
isoladas, profundas
pesadas que nem uma âncora

É o bar da noite, amigo
O único que a noite tem, onde quer que fique
Com baía e luzes desfocadas
Lá ao fundo


Rui Duarte Rodrigues

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ontem escrito numa parede da cidade

Há homens que nascem mortos, há outros que dão vida...

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Do Mané Cigano à Taberna do Raposo...Uma Tarde Saborosa!

          

"Taberna do Raposo"- Ilustração de Mário Roberto
    Uma tarde de sexta-feira, início de fim de semana, pode começar muito bem gastronomicamente em Ponta Delgada se, após passeio de reconhecimento arquitectónico e das lojas comerciais, entrarmos, em plena calheta, na Casa de Pasto do “Mané Cigano”. Uma casa especialista em diferentes pratos regionais, com um redobrado cuidado nas iguarias relacionadas com o peixe. Uma tarde de sexta-feira, início de fim de semana, pode começar muito bem gastronomicamente em Ponta Delgada se, após passeio de reconhecimento arquitectónico e das lojas comerciais, entrarmos, em plena calheta, na Casa de Pasto do “Mané Cigano”. Uma casa especialista em diferentes pratos regionais, com um redobrado cuidado nas iguarias relacionadas com o peixe. Da sua oferta gastronómica reina, portanto, o peixe fresco, com o prato de chicharros fritos à cabeça, acompanhados com cebola curtida, pimenta regional, feijão, mas é essencialmente o polvo guisado à regional, o bonito ou ainda o peixão grelhado que abrilhantam o menu. A fechar, como sobremesa, é aconselhável comer uma queijada da Ilha Graciosa. No centro da cidade de Ponta Delgada ainda não há, portanto, um circuito de restaurantes com peixe a ser confecionado na rua, algo semelhante a muitos lugares sugestivos do norte e a sul do país. Alguns importar-se-ão com o cheiro que daí resultará, mas o que é isso quando comparados com o saciar da fome ou a sede em cidades portuárias? É uma cidade com o mar tão perto que só ganhará se for cultivada a gastronomia dos sabores do peixe, esta granjeará novos e bons clientes, dispostos a usufruir da luz e das suas esplanadas. De seguida, uma passagem pela Taberna do Raposo, na Rua do Perú, para alegrar e digerir a refeição. Se acertarmos no dia, podemos assistir a um emocionante jogo de dominó ou simplesmente contemplar os expositores e balcão de cores rubras desta taberna particular ou ainda aproveitar para beber um copo de vinho de cheiro. Uma fotografia a preto e branco, a chegar aos quarenta anos, relativa  à inauguração do Estádio de Ponta Delgada, em dia de jogo Benfica-Sporting (vi o meu ídolo Rui Jordão, trajado com a camisola do SLB, que tristeza!!!), compõe a galeria de retratos que ocupam a parede daquele distinto estabelecimento! As divisões por onde se entra nos diferentes espaços da Taberna do Raposo tem também a característica das fitas cromáticas, fazendo-se imediatamente notar a chegada ao denominado “Vale dos Aflitos”. Em jeito de aviso, é escusado pedir café por aqui, pois neste sítio só se degustam líquidos etílicos e licores diversos e nem se avista qualquer televisão ligada, o que é, sem dúvida, uma mais valia nos dias que correm.

Errores non Falsos

            (..) A verdade é o que consideramos real, mas precisamos da mentira poética, a mentira que diz a verdade profunda para entender a realidade. Sabemos o que é uma guerra, podemos ter estado numa guerra, ter-lhe sobrevivido, mas é a Ilíada que nos ajuda a pôr essa experiência em palavras, a focá-la. A experiência concreta, material, é demasiado complexa. Precisamos de inspiração poética para extrair dessa experiência um novo sentido. O que Dante chama “errores non falsos” são as invenções poéticas que são verdadeiras num sentido profundo.”
Alberto Manguel

domingo, 7 de fevereiro de 2016

As Charlas "Nocturnas" do Doutor Mara


Fotografia de Diogo Fonseca
          A primeira dramatização “Charlas Quotidianas do Doutor Mara" ocorreu em Fevereiro de 2014, na Travessa dos Artistas, com a representação do capítulo “Futurofagia”, e contou com as participações dos actores João Malaquias e Judite Fernandes e ilustrações de Luís Brum. A segunda apresentação deu-se na ilha do Faial com três novos capítulos: “Ginecomagia”, “Tarantorerapia” e “Enomátria”, postos nas tábuas do palco do Auditório ao Ar Livre da Biblioteca Municipal da Horta, com as interpretações de Tiago Vouga e Aurora Ribeiro, que replicaram a representação por mais duas vezes para uma audiência de 150 pessoas no total. Há um mês atrás, foi a vez de voltar à cidade de Ponta Delgada, na Galeria Arco 8, contando com 60 pessoas na assistência. Aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=0m_9pwmHtqc

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vinil de Música Açoreana


A capa azul celeste anuncia “Música Açoreana”, inclui Música e Sons das Festas do Senhor Santo Cristo, álbum gravado pela Stanton Productions, New Jersey, em 1976, pela mão de John Carey.  Um disco completamente desconhecido para ouvir com a ajuda da agulha em forma de descoberta e com elevada curiosidade dado o passar do tempo e da memória. Entretanto, a data histórica deste disco desperta e aguça a vontade de querer conhecer e saber quais razões que se encontram por detrás deste. É certamente mais um disco de recolha de música açoriana por gente culta e interessada, com a particularidade de uma capa azul celestial e a imagem de um poderoso milhafre de asas caídas e com as estrelas das nove ilhas açorianas na capa. Este objecto é revelador de alguma pomposidade na altura da gravação a que, segundo os autores, contribuíram para ele centenas de músicos e cantores açorianos. Gravado e produzido por John Carey, inclui no lado um os respectivos temas do Cancioneiro açoriano já conhecidos: “Pézinho”, “Fado Fadista”, “Bairro Alto”, “Chamarrita” e as mais que conhecidas e festivas “Cantigas ao Desafio”. O que permite abrir a uma maior curiosidade é a inclusão no lado dois de uma mistura de sons que inclui a Folia do Maranhão, sons de pássaros na montanha de São Miguel, bandas de música em coretos, fogo de artificio, coros religiosos e bandas de música no Domingo da Festa. Enfim, meia hora de experiências sonoras em território açoriano. Música e sons para ouvir num gira-discos perto de nós.