segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Semear em Janeiro...

      "Janeiro semear centeio, favas, ervilhas, alhos, couve-flor e mergulhar vides. Semear goivos, crisântemos, ervilhas de cheiro e girassóis. No minguante da lua podar roseiras e árvores de fruto. Lavrar e preparar a terra."
in Agenda Terra, 2018.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Hoje à noite, no Cine Borboleta

A Ultrapassagem, 1962, de Dino Risi


                Dino Risi filmou há cinquenta anos a sua versão cinematográfica do verão italiano: a sombra e o sol, a cidade e o campo, a praia e o mar, a amizade e a aventura. Para isso, muniu-se de dois atores: Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman (ainda que a primeira escolha fosse Alberto Sordi). O cineasta, com formação em Medicina, começa por dar-nos a conhecer essa célebre expressão italiana “Ferragosto”, um feriado italiano celebrado a 15 de Agosto, motivo de patriótica comemoração. Associado à celebração da metade do verão e do fim das colheitas nos campos, seria a Igreja Católica a adoptar a data para celebrar a assunção da Virgem Maria. Actualmente o Ferragosto é o dia em que milhões de italianos deixam as suas cidades de origem e demandam outras paragens em busca de repouso ou diversão. 
O Verão de 1962 em Itália cheirava a spaghetti e a boom económico, a economia crescia e o automóvel epitomizava a sociedade do progresso e do bem-estar. Este é o primeiro road-movie da história do cinema, sete anos antes de “Easy Rider” de Hopper, ainda que aqui fosse o volante do Lancia Aurelia B24, e o som da mítica Klaxon, ao qual imprime velocidade e um ritmo estonteante, quase sufocante. O carro é aqui a expressão da liberdade e da velocidade, inaugurando um tempo novo, repleto de comodidades, movimentações e deslocações.
     Vittorio Gassman, que participou em treze filmes de Risi, encarna aqui a personagem do fanfarrão, mestre na arte de saber viver, um homem de meia idade que se deixa ir com a ligeireza e leveza da estação dos grilos e das cigarras. Sempre com a resposta pronta na ponta da língua, ávido dos prazeres terrenos e imediatos, forçando a companhia. É um filme fresco, quente, sob o signo de Eros, que obteria em português o título “Ultrapassagem”.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pão

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, 2005

Diário

“O importante é sempre isto: concentração. Concentração: etimologicamente – com um centro. Afastar  da luz excessiva mas sem movimentos violentos, sem grandes frases, sem altifalante.
Para se escrever é necessário um solo firme e movimentos mínimos. Os micro-movimentos da mão do próprio acto de escrever devem ser resultado das também subtis mudanças da posição dos pés, e ainda da calma voz e das calmas palavras.
         É necessário silêncio ou um ruído base fixo que não se excite minimamente com as constantes excitações do mundo(…)”

Gonçalo M. Tavares in Jornal de Letras, 19 de Dezembro de 2017

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

3xKaurismäki

         

             Agora que o filme "O Outro Lado da Esperança" se encontra disponível nas salas é possível ver ou rever em DVD estas três películas do finlandês -"Contratei um Assassino"(1990), "A Vida de Boémia" (1992) e "Le Havre" (2011), todos eles contidos na caixa da Midas. Mergulhe-se neste cinema nostálgico, na sua estética lúgrubre composta de melancolia e esperança. No visionamento de "Vida de Boémia" sobressai a amizade, em "Contratei um Assassino", o amor, e em "Le Havre" sobressaem os dois em conjunto, ainda a solidariedade. 
            Aki Kaurismäki vive entre a Helsínquia, Finlândia, e Monção, em Portugal. São muitos os que começaram a ver filmes os seus filmes nos cineclubes e certamente se lembrarão das reacções a esta obstinada e resistente cinematografia: estranheza e  perplexidade. Tantos anos depois as invectivas à particularidade e exceção mantém-se e há por isso que continuar  a exercer o salutar direito de ver e reflectir!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Da Estrutura Social

         “A estrutura social é real e tem fortes consequências, especialmente visíveis quando são violadas. Exatamente como numa cidade, segue-se geralmente os passeios, torneia-se os edifícios ou entra-se neles. A vida é governada por estruturas externas, responsáveis por constrangimentos e possibilidades, sejam elas físicas e sociais. Os comportamentos individuais não podem ser compreendidos sem ter em conta as estruturas sociais. Esta é a razão pela qual estrutura social é real e autónoma.”

Thomas Brante, Consequências do Realismo na Construção da Teoria Sociológica.