quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rua do Quelhas 35.3º (Valsinha)

Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz 
como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente 
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer 
fica a cinza de um corpo no olhar 
ó meu amor a noite se vier 
é seara de nós ao pé do mar 

Letra: António Lobo Antunes
Voz: Vitorino 
Música: João Paulo Esteves da Silva

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Melancolia Congénita

Fotografia de Carlos Olyveira
        "As janelas dos primeiros andares, logo acima das lojas e dos armazéns, são em geral guarnecidas com pequenas varandas de madeira entrelaçada, como nas janelas das nossas leitarias, pintadas de vermelho escuro, verde ou branco. Nas casas maiores vêem-se elegantes varandas de ferro. Pelas goteiras dos telhados escorre água em abundância e a telha da esquina toma frequentemente a forma de um pássaro de asas abertas, ou alonga-se para cima em comprida ponta. Os edifícios são caiados de branco e as ombreiras das portas, cantarias das janelas e cornijas ficam em geral da cor da pedra, cinzento-escuro ou negra. Os sapateiros trabalham sentados à entrada das portas, os alfaiates estão acocorados, o ferreiro com o ferro na rua, em frente da porta, cobre carvões em brasa. Os que eu vi sentados em bancos no interior das lojas, pareciam haver sacudido aquela melancolia congénita que lhes atribui, entregando-se a ruidosa alegria."


         in Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, de Joseph e Henry Bullar, escrito em 1838-39, numa edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 1986.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A Mulher de Muitas Caras

Do sítio: www.garboForever.com
"Um velho preconceito condiciona, muitas vezes, o olhar dos espectadores de cinema sobre os filmes mais “antigos”. Por acção de uma cultura televisiva que tende a produzir ironia sobre qualquer manifestação artística a que não seja possível colar o rótulo de “actualidade”, tudo o que no remeta para épocas mais ou menos distantes é encarado como pitoresco, anedótico e, no limite, irrelevante.
O trabalho dos atores, por exemplo. De facto, não é verdade que o cinema mudo tenha sido habitado apenas por actores peritos em esgares mais ou menos histriónicos. Em primeiro lugar, a evolução da comédia até à eclosão do som, em finais da década de 1920, está longe de ser coisa banal ou desprezível; depois, os atores transfigurando desde os primeiros filmes que “reproduziram” a cena teatral até aos que, a pouco e pouco, souberam diversificar as escalas das imagens e enriquecer específico da montagem.
Nesse contexto, Greta Garbo (1905-1990) é um prodígio de versatilidade, subtileza e intensidade dramática. E não apenas porque passou, incólume, do mudo para o sonoro. Também porque toda a sua evolução revela um labor alicerçado na certeza d que a câmara de filmar, longe de ser um mero objecto de registo, é uma “coisa” que refaz as coordenadas do espaço e tempo, obrigando o actor/actriz a uma sofisticada arte corporal."


João Lopes, in “Açoriano Oriental” 13 de Julho de 2017