quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Figueira da Foz: "Os Cinéfilos da Sétima Arte"!

Cartaz de José Brandão
É sempre bom recordar, lembrar com acuidade aqueles dias ainda de sol do mês de Setembro, nem que seja porque vamos entrar no tempo do calendário em que o verão se despede. Por esta altura, há mais de três décadas, rumávamos para a Figueira da Foz e, sobretudo, estávamos preparados para invadir as salas de cinema do Casino daquela cidade costeira. Durante dez dias, víamos e ocupávamos as praças e esplanadas nas redondezas para conversar após os filmes naquelas salas povoadas de cinematografias oriundas de proveniências diversas acompanhados por gente ligada à realização e produção de objectos cinematográficos.  
    A Figueira da Foz, naqueles dias setembrinos, era o "farol" da sétima arte. Era lá que encontrávamos outros membros dos cineclubes de Portugal e estrangeiros, realizadores de cinema, amantes das imagens na tela e outros tantos curiosos da sétima arte. Muitos de nós éramos estudantes e, talvez por isso, havia um forte apoio nos transportes para ali chegar, na estadia e alojamento, bem como na alimentação necessária ao visionamento de várias jornadas cinematográficas ou ainda reduções no passe geral.
    Desta feita, rumar à Figueira por estes dias de Setembro era sinónimo de lazer misturado com descoberta da essência das imagens em movimento. Quem quisesse aprender em conjunto havia ainda tempo para ir às palestras matinais de Pierre Dumont, naquelas sessões apelidadas de “Quoi dire aprés le film?”. E, muito facilmente, sentados nos bancos e esplanadas se avistava e falava com gente conhecida na realização – Samuel Fuller, John Mekas, Fernando Lopes, entre tantos outros. Ou ainda aquele famoso transeunte que, de cada vez que nos encontrava, nos decidiu cunhar com um pleonasmo, ao referir-se aos "Cinéfilos da Sétima Arte", o grupo dos que chegavam à cidade por esta altura. 
Por último, convirá referir que a organização do Festival, sobretudo nas últimas edições, faz agora vinte anos da última edição, em 2002, nem sempre foi pautada pela perfeição, no entanto, graças à boa vontade e entusiasmo, tudo era superado por essa liberdade e disponibilidade de ver filmes sem critério, à deriva, à semelhança destes dias em que dizemos adeus à estação dos grilos e das melancias e vamos, assim, retomando labores e compromissos.

Portugal Visto por Georges Dussaud

Trás-os-Montes, 1981