sábado, 10 de janeiro de 2026

Sobre a lírica de Camões...

        A lírica de Camões é a nossa Vénus de Milo, o nosso Laocoonte descoberto, os nossos Bronzes de Riace, os nossos sarcófagos etruscos, a nossa Capela Sistina, a nossa música de Bach. A lírica camoniana pertence a essa ordem porque é um lugar onde a língua e o pensamento afirmam acerca da vida qualquer coisa que não estava dita, pelo menos naqueles termos absolutos, naquela forma incomparável, passando a alargar as fronteiras do conhecimento humano. Na verdade, apreciar simplesmente o mérito cultural de um grande livro de poesia é um incipiente exercício escolar. Um grande livro de poesia é um dispositivo de diagnóstico de alta precisão que permite a captação de imagens (como fazem os aparelhos de ressonância magnética ou as sondas espaciais), úteis para a compreensão das estruturas internas de um determinado sistema, seja o corpo de um homem ou universo. A lírica de Luís Vaz de Camões é um detentor de intensidades: um mega scanner que permite visualizar, traduzir em dados e conservar o enigma do real; é um decifrador dos nossos códigos mais decisivos. 

José Tolentino Mendonça, Lírica de Camões - Antologia: Amor é um Brando Afeito, Expresso, Janeiro de 2026.

Janeiro de 1904 de K. J. Kaváfis

Ah, as noites de Janeiro,
fico sentado enquanto a mente recompõe
aqueles momentos, e encontro-te,
e oiço as nossas últimas palavras, e oiço as primeiras.

Desesperadas noites deste Janeiro,
quando a visão se vai, deixando-me só.
Tão apressada que parte, e dissolve-se - 
e lá vão árvores, lá vão ruas, lá vão casas, lá vão luzes:
apaga-se e perde-se a tua desejada forma. 

in Aquele Belo Rapaz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2025. Tradução de José Luís Costa.

Campeões de Inverno

Josef Koudelka, 1976
 

Da dor

   Em todas as vidas há dor. É um elemento precioso para que possamos dar valor ao que temos na vida. E é também um bom assunto para escrever. 

Pedro Almodovar, Ípsilon, Novembro de 2023