No Convento de Santo António, ali mesmo no seu interior e com écran instalado no átrio, na cidade de Lagoa, foi exibido no
dia 4 de Janeiro, Dias Perfeitos de Wim Wenders – brilhante ideia, sem dúvida,
esta de disponibilizar, de forma livre e gratuita, uma sessão cinematográfica,
à noite, naquele espaço com as pessoas sentadas em bancos ou espreguiçadeiras
com as mantas sobre os corpos num dia tão frio de Janeiro. E, entretanto, lá veio
à memória o Paris Texas do mesmo realizador alemão, filme realizado no ano de 1984.
Uma narrativa intensa sobre alguém que se abandona, se esvai e decide voltar
para se reencontrar ainda que seja impossível alcançar o que está defintivamente perdido. A interpretação de Harry Dean Stanton enquanto Travis é, no
mínimo, exemplar a partir de um ser errante, extenuado e desmemoriado que
percorre a aridez da velha América. O trajecto termina numa das cenas mais icónicas do cinema de Wenders - Travis e Jane separados num Peep Show por um vidro escuro e um telefone fixo.
O filme tem a banda sonora de Ry
Cooder, peça musical inolvidável, digna de figurar na hierarquia do panteão dos temas musicais sugestivos de imagens cinematográficas. E, por falar em música, Dias Perfeitos
não tem a sumptuosidade da banda sonora de Ry Cooder, mas tem canções encantadoras de Lou Reed, Patti Smith, The Kinks, The Velvet Underground, Van Morrison ou
The Animals e ainda o silêncio e a mágoa de um homem que se recusa a seguir
caminhos e quotidianos mais óbvios. Hirayama, responsável pela higiene de
algumas casas de banho públicas de Tóquio, deambula pela cidade de forma atenta
e apaixonada, sempre rodeado de cassetes musicais, fotografias de árvores e céus e livros de cariz contemplativo. Wim Wenders
mostra-nos um personagem atento às pequenas coisas, aberto a situações
inesperadas e disponível para se conhecer através das palavras dos outros. Uma dádiva existencial e cinematográfica.

