sábado, 26 de dezembro de 2015

O Dia Mais Curto pelo 9500 Cineclube

          
"CÓDIGO POSTAL -A2053N" de Pepe Brix
         Antes da quadra natalícia dar início, o 9500 Cineclube de Ponta Delgada brindou os cineclubistas micaelenses com duas curtas metragens inseridas no Dia Mais Curto, uma iniciativa que ocorre por esta altura do ano. A sessão abriu com "CÓDIGO POSTAL-A2053N", curta-metragem do fotógrafo e realizador mariense, Pepe Brix, num registo documental em imagens sobre a sua presença curiosa e observadora durante quatro meses no navio "Joana Princesa", uma embarcação da pesca do bacalhau. O resultado desta sua dedicação e sensibilidade é o encontro com a mais profunda humanidade destes homens em crescendo de sacrifício e esforço. Pepe Brix traduz em imagens essa mesma dor em comunhão, a sua mais funda contemplação de seres em pleno acto de entrega ao seu labor. Ainda que em forma de "teaser" promocional, "CÓDIGO POSTAL-A2053N" é um fresco tocado pela contemplação de uma longa jornada com homens no mar, atraído pela vida a bordo dos bacalhoeiros nos mares do norte, o seu primitivo confronto com essa força da natureza: o mar. Este processo, ou mergulho, implica sempre dificuldades, renúncias, resistências aos limites de cada um. Bonita e emotiva é, sem dúvida, a convocação no final de todos os intervenientes nesta aventura, suportada com a música "Que Força é Essa" de Sérgio Godinho, e ainda a voz de José Mário Branco.


       
"Raimundo" de Paulo Abreu
        Quanto a "Raimundo", curta-metragem de um realizador interessado em combinar a pulcritude dos espaços insulares com a leveza dos personagens particulares que habitam o singular espaço das ilhas, tem aqui o seu ponto de partida e chegada. Anteriormente, Paulo Abreu brindou os cinéfilos açorianos com duas pérolas documentais na Ilha do Faial - "Adormecido" (2012) e "Varadouro", (2013), percorrendo com distinção vários festivais, acolhendo do público espectador encómios de súbita rendição, um considerável grupo galvanizado pelas suas derivações interiores e marinhas. Desta feita, Paulo Abreu entrega-se ao pícaro e ao jogo de forma deliberada, assumindo os riscos de pouco ou nada surpreender com este registo divertido e assaz fantástico. O realizador quis reunir uma família de amigos em torno de um "cineasta polémico" a residir em São Miguel e, por isso, "Raimundo" é, à sua maneira, um objecto fílmico extravagante, demasiado até, enxugado pelo universo que retrata, e marcado essencialmente pelo rol de personagens que apresenta - Comissário Bettencourt, Professor Malaquias, Professor José Mascarenhas, o pescador Gualtieri Filostrosa, entre outros - que tentam, cada um à sua maneira, justificar a existência de seres extraterrestres em território rodeado de mar por todos os lados. Talvez por isso, os estudantes da Escola de Cinema foram à procura destes conceituados teóricos ou figuras locais com os seus testemunhos estrambólicos de cariz obsceno e rebuscado. O próprio personagem principal, "Raimundo", na pele do produtor João da Ponte, possui tiques raros e manias de um isolado amante de cinema, imbuído de insistências, obsessões e tergiversações, acreditando mesmo estar possuído por uma missão de detectar vida para lá destas nossas consciências mundanas e existências muito terrestres. Este singular atestar de evidências extraterrestres é levado ao extremo pelos diferentes discursos desse leque alargado de personagens mirabolantes, que nos deixam exactamente na mesma sobre a existência ou não deste tipo de fenómenos, o que é pena. Por isso, a dúvida mantém-se e, à semelhança das figuras/soldado que surgem no final do filme, podemos dizer que o invulgar, o inesperado, culminado num inusitado riso, é, afinal, a mais sábia de todas as estranhezas que nos invadem e circundam.