"Tempos houve
em que a fábrica da Sé mantinha cónegos, arcediagos, chantres, arciprestes e
beneficiados, vendo-se o vasto caldeirado totalmente ocupado pelo Cabido, a dar
luzimento aos esplendorosos cerimoniais litúrgicos.
A completar
tão faustoso conjunto de dignidades eclesiásticas, havia ainda os meninos do
coro, rapazes que envergando largas saias encarnadas e brancas sobrepelizes,
cantavam no coro e ajudavam à missa.
Conta-nos o
Pe. Jerónimo Emiliano de Andrade, na sua Topografia da Ilha Terceira, um
interessante episódio passado no século IX, tendo como protagonista um dos
aludidos meninos, que embora de compleição franzina, se destacava entre os
demais, a criar situações contraditórias com a compostura requerida e imposta
pelos preceitos religiosos.
Foi assim que, encontrando-se a
Sé entre obras, com andaime armado até ao cimo das torres, o menino depois de
cometer mais umas das suas traquinices, fugiu perseguido por um operário,
atingindo os andaimes cimeiros.
E
como nesse dia soprasse rijo o “carpinteiro”, a causar estragos de monta – carpinteiro que levaria alguém a
dizer, com muita piada, ser a exportação de ciclones uma das maiores riquezas
dos Açores – arrastou o menino de pouca carne e leve ossatura, enfunado nas
largas saias.
Um clamor de terror terá
perpassado por quantos assistiram a tão horripilante vôo.
Mas volvido
pouco tempo dissipavam-se as mais tenebrosas conjecturas com o aparecimento do
imprevidente e forçado argonauta, ileso no telhado do Convento da Esperança.
Mais uma vez
ficaria comprovado o velho ditado: “Ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por
baixo…”
in o
“Filósofos da Rua”, de Augusto
Gomes, pág.140, editado por Jaime Cruz, a impressão ficou concluída nas
Sanjoaninas de 1984, com uma tiragem de 1500 exemplares.