sábado, 10 de janeiro de 2026

Sobre a lírica de Camões...

        A lírica de Camões é a nossa Vénus de Milo, o nosso Laocoonte descoberto, os nossos Bronzes de Riace, os nossos sarcófagos etruscos, a nossa Capela Sistina, a nossa música de Bach. A lírica camoniana pertence a essa ordem porque é um lugar onde a língua e o pensamento afirmam acerca da vida qualquer coisa que não estava dita, pelo menos naqueles termos absolutos, naquela forma incomparável, passando a alargar as fronteiras do conhecimento humano. Na verdade, apreciar simplesmente o mérito cultural de um grande livro de poesia é um incipiente exercício escolar. Um grande livro de poesia é um dispositivo de diagnóstico de alta precisão que permite a captação de imagens (como fazem os aparelhos de ressonância magnética ou as sondas espaciais), úteis para a compreensão das estruturas internas de um determinado sistema, seja o corpo de um homem ou universo. A lírica de Luís Vaz de Camões é um detentor de intensidades: um mega scanner que permite visualizar, traduzir em dados e conservar o enigma do real; é um decifrador dos nossos códigos mais decisivos. 

José Tolentino Mendonça, Lírica de Camões - Antologia: Amor é um Brando Afeito, Expresso, Janeiro de 2026.

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