quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dias Perfeitos na Lagoa

       

     No Convento de Santo António, ali mesmo no seu interior e com écran instalado no átrio, na cidade de Lagoa, foi exibido no dia 4 de Janeiro, Dias Perfeitos de Wim Wenders – brilhante ideia, sem dúvida, esta de disponibilizar, de forma livre e gratuita, uma sessão cinematográfica, à noite, naquele espaço com as pessoas sentadas em bancos ou espreguiçadeiras com as mantas sobre os corpos num dia tão frio de Janeiro. E, entretanto, lá veio à memória o Paris Texas do mesmo realizador alemão, filme realizado no ano de 1984. Uma narrativa intensa sobre alguém que se abandona, se esvai e decide voltar para se reencontrar ainda que seja impossível alcançar o que está defintivamente perdido. A interpretação de Harry Dean Stanton enquanto Travis é, no mínimo, exemplar a partir de um ser errante, extenuado e desmemoriado que percorre a aridez da velha América. O trajecto termina numa das cenas mais icónicas do cinema de Wenders - Travis e Jane separados num Peep Show por um vidro escuro e um telefone fixo.
         O filme tem a banda sonora de Ry Cooder, peça musical inolvidável, digna de figurar na hierarquia do panteão dos temas musicais  sugestivos de imagens cinematográficas. E, por falar em música, Dias Perfeitos não tem a sumptuosidade da banda sonora de Ry Cooder, mas tem canções encantadoras de Lou Reed, Patti Smith, The Kinks, The Velvet Underground, Van Morrison ou The Animals e ainda o silêncio e a mágoa de um homem que se recusa a seguir caminhos e quotidianos mais óbvios. Hirayama, responsável pela higiene de algumas casas de banho públicas de Tóquio, deambula pela cidade de forma atenta e apaixonada, sempre rodeado de cassetes musicais, fotografias de árvores e céus e livros de cariz contemplativo. Wim Wenders mostra-nos um personagem atento às pequenas coisas, aberto a situações inesperadas e disponível para se conhecer através das palavras dos outros. Uma dádiva existencial e cinematográfica.

Trilogia das Sombras no CAC

Mano a Mano
É já no próximo domingo, às 18 horas, que os madeirenses “Mano a Mano” irão apresentar o “Trilogia das Sombras” na blackbox do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O trabalho “Trilogia das Sombras” consiste numa homenagem musical à artista plástica Lourdes Castro, natural do Funchal, actualmente com uma longa retrospectiva da sua obra naquele espaço.
        Os músicos de “Mano a Mano” são os guitarristas André Santos e Bruno Santos, onde se juntam as palavras do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça com a leitura de “Lourdes Castro – Rua da Olaria”, tal como um disco-livro criado por Carla Cabral, que se espera que esteja disponível ao público presente no espectáculo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Provérbio

 Em Janeiro saltinho de carneiro

Verso de Filipe Furtado

 Com as cores que só eu vejo da janela

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vida alegre, fato roto

Urgências de Baloiço

Uma tarde em Salónica foi a descoberta
das árvores em que procurávamos sombra
a miragem do que seria o presente
apartados na lonjura do ordinário quotidiano
arrumados na pequena dor de cada um
 
Não quisemos nunca mais lembrar
aquele crepúsculo junto do porto
deitámos fora o princípio diletante
o fogo das areias, o título dos barcos,
enquanto fomos anotando 
no velho caderno viajado
urgências a que fomos regressando
.

sábado, 3 de janeiro de 2026

No Mesmo Lugar de K. P. Kavafis

Paisagem da casa, dos cafés, do bairro,
sob os meus olhos, sob os meus passos: há anos e anos.

Plasmei-te na alegria, na tristeza: 
a partir de tantas coisas e ocorrências. 

E, para mim, inteiramente te tornaste sentimento. 

(1929)
Tradução:  José Luís Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Da Verdade

     "Cultivar a humildade implica que devemos preocupar-nos com leis como as que proíbem a divulgação de notícias falsas  e  que, no limite, podem levar à censura da verdade. Mais uma vez as pessoas pensavam que Copérnico e Galileu estavam a espalhar notícias falsas. O meu livro não é uma teoria da conspiração: muitas pessoas divulgam notícias falsas, mas algumas estão, de facto, a lutar pela verdade e devemos estar abertos a essa possibilidade."

Samuel Fitoussi, in Público, 27 de Dezembro de 2025.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Quando coze faz-me um bolo, quando se zanga comigo dá-me com a pá do forno

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Na capa de Baloiço...


Fotografia de 
Jorge Kol de Carvalho

Baloiço no Bom Colesterol

        O livro de poemas "Baloiço" foi apresentado no domingo, dia 21 de Dezembro, na edição de Solstício de Inverno do Festival do Bom Colesterol.  Durante a apresentação foi lido o poema “Confissão”, por Esther Gotzóvá, tal como foram tocados, ao vivo, alguns temas do músico açoriano  Filipe Furtado.
Filipe Furtado
Foto: Jorge Kol
        Uma boa parte dos poemas de Baloiço foram publicados inicialmente neste blogue e encontram-se agora em livro com as fotografias de capa de Jorge Kol de Carvalho, arranjo gráfico de Júlia Garcia e a revisão de texto de Eduardo Brito. "Baloiço" foi impresso na Coingra, em Ponta Delgada, em Dezembro de 2025, numa tiragem única de 100 exemplares.