quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Um Poema de Elio Pecora

Desde sempre abomino as armas,
não sei se por soberba ou se por medo,
e quanto aos cavaleiros
prefiro os cavalos.
Amo, sim, o amor
e continuo a procurá-lo
blasfemando e sofrendo,
como se não soubesse 
que estou em servidão.

in Poemas Escolhidos, tradução de Simonetta Neto, Quasi Edições, 2008.

Verso de Sharon Von Etten

 Follow my shadow around your corner

Verão Azul

Fotografia de Tânia Neves dos Santos 
 

Daqui a pouco em Groix, na Bretanha.

Baleias e Baleeiros de Luís Bicudo
 

        “Neste filme não existe nada a provar, nem ninguém a quem é preciso convencer. O que se procurou na montagem, foi usar os relatos que transmitem mais emoção, não a emoção no sentido sensacionalista do termo, mas no sentido em que nos aproxima mais de cada pessoa filmada e se dá a possibilidade de responder de uma forma sensorial à questão: o que é que os define de uma forma mais profunda? Nenhum cientista consegue responder a esta questão, porque não existe uma resposta. Existirá uma empatia humana? Uma percepção cinematográfica?”

Luís Bicudo, in Boletim Cultural Fazendo, 6 de Maio de 2016.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Festival International du Film Insulaire de Groix: Entre Ilhas!

           
         Começa hoje e poderá passar despercebido por todos os que apreciam a sétima arte. São documentários na sua maioria, poucas ficções e algumas curtas-metragens. No entanto, esta mostra é reveladora do momento que o cinema insular atravessa e, por isso, será motivo de evocação e celebração numa ilha francesa - Groix, na Bretanha. Durante quatro dias, seguiremos a presença dos filmes das ilhas da Madeira e dos Açores no 23º Festival International du Film Insulaire de Groix. Para além da mostra de filmes destas duas ilhas portuguesas, há ainda 11 filmes digitalizados pela Cinemateca Portuguesa que constam desta atenção maior ao cinema realizado em solo ilhéu ao longo dos últimos tempos. São, portanto, muitos os realizadores que deram contributos firmes para a existência deste dito cinema insular falado em português - Luís Bicudo, Catarina Mourão, Diogo Lima, Gabriela Oliveira, Jorge Jácome, Jorge Monjardino, Joaquim Pinto e Nuno Leonel, Paulo Abreu, Rodrigo Areias, Cláudia Varejão, Vítor Bruno Pereira, André Laranjinha, Amaya Sumpsi e 
Gonçalo Tocha. Pelo meio há música, conferências, debates e…venda de fanzines, algo extraordinário nos tempos que correm.

sábado, 17 de agosto de 2024

23ºFestival Internacional de Filmes Insulares de Groix

Cartaz de Cristiana de Sousa
As Ilhas Portuguesas

21 a 25 de Agosto em Groix 
Ver aqui:
www.filminsulaire.com

Ainda Temos Amanhã de Paola Cortelesi

Ce Ancora Domani de Paola Cortelesi, 2023

           Ainda há surpresas, a certeza que o mundo do cinema continua a surpreender. Atente-se apenas ao cartaz e deparamo-nos com uma referência ao número de presenças nas salas de cinema, mas como se trata de cineclube tudo isso parecia passar ao lado. No final, perguntamo-nos pelo desconhecimento concreto deste filme, a tristeza relativa à ignorância deste objecto cinematográfico que muito circulou pela Europa. É, sem dúvida, um libelo poético pelo empoderamento e emancipação feminina, todo ele carregadinho de referências ao cinema italiano da reconstrução – a começar logo pela figura da Paola Cortelesi e as suas parecenças com a saudosa Ana Magnani. Agradecemos, por isso, o assombro, a ousadia e essa coisa italiana de tudo nos parecer sempre tão leve apesar de falarmos de coisas tão sérias. Este é, sem qualquer dúvida, o filme perfeito para ver e reflectir no mês de Agosto, pois ainda temos o amanhã.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Da Pobreza

         "Gostava de salvar aquela ternura, a ternura com que a minha mãe me ajudava a fazer as malas quando partia de Barbastro para Saragoça naqueles anos, em 1980, em 1981, em 1982, as coisas que me punha dentro da mala, como me ajudava com a roupa, como me punha comida em frascos de vidro, e depois eu ficava a olhar para tudo aquilo e o desamparo vencia-me.
          Na realidade, tudo isto tem a ver com a pobreza. Era a pobreza - como éramos pobres - que me fazia tremer de medo. E deu-me para chamar ternura ao medo. 
        Se tivéssemos sido ricos, tudo teria corrido melhor, e essa é a verdade de todas as coisas.
         Se os meus pais tivessem tido dinheiro, tudo teria corrido melhor. Mas não tinham nada, absolutamente nada. A confissão da pobreza em Espanha parece uma imoralidade, algo repudiável, uma afronta. E, no entanto, é o que quase todos fomos.
         Fomos pobres, mas com pinta. 

Manuel Vilas, in "Em tudo havia Beleza - (Ordesa)", Alfaguara, 2018.

domingo, 11 de agosto de 2024

Best of 32ºCurtas: Sob o Olhar das Mulheres e Crianças!

          
That´s How I Love You, 2024
Mário Macedo
Agosto pode e deve ser o mês de esticar as toalhas e ler os livros guardados durante o ano para a canícula, no entanto é também o momento certo para ver ao ar livre o  Best of 32ºCurtas na Solar, Galeria Cinemática, em Vila do Conde. Sentados, em plena noite estival, com a previsão de 65 minutos, foram, assim, desfilando, em écran gigante, os filmes que obtiveram melhor acolhimento por parte do júri e do público presente nos idos da edição do Curta de Vila do Conde, em Julho.
      A sessão abriu com That´s How I Love You, uma curta-metragem com origem na Croácia e realizada pelo português, Mário Macedo, que narra a história das férias dum neto junto dos avós na aldeia onde estes vivem. O vencedor do grande prémio contém planos fixos bem definidos, personagens credíveis  e uma tensão narrativa permanente, a curta é terna e cativante até ao seu terminus. O mundo dos adultos e o seu legado é aqui visto sob o olhar de uma criança, os seus receios e a sua vontade de pertença, a pedir um crescimento atento, dialogante, ainda que sempre doloroso. Não terá sido sempre assim? Seguiu-se Rinha, curta-metragem de Rita M. Pestana, prémio de melhor filme, todo ele passado em Belo Horizonte, Minas Gerais. São vinte e três minutos mergulhados no submundo das lutas de galos e na vida de personagens desesperadas. Aqui é o cuidado e persistência associados ao feminino, sentimento explícito de  preservação e manutenção do mundo antigo a funcionar. Seguiu-se depois Percebes de Alexandra Ramirez, Laura Gonçalves, uma animação portuguesa (Prémio do Público), sob a forma de tributo ao crustáceo mais popular da região algarvia. O filme de grande investimento visual e gráfico é feito em forma de coral narrativo por todos os que apanham e vivem de tão importante iguaria. A sessão terminou com Blhec, prémio do público na competição internacional. Trata-se de uma animação divertida sobre o poder do beijo entre os humanos e a  curiosidade que este desponta nos mais novos, isto é, nas crianças que lidam com o desplante de pôr os lábios a brilhar, a cada investida que avistam. O filme de Loïc Espuche seria o mais leve e divertido nesta noite de cinema ao ar livre com lua nova.