sábado, 24 de maio de 2025

Música Para o Findar de Maio

-Who Knows Where The Time Goes - Sandy Denny, 1967 - Sandy Denny

-Love, Try Not To Let Go - Pre Pleasure, 2025 - Julia Jacklin

- Happiness - Live at Revolution Hall, 2024 - Adriane Lenker

-Este País Não é para Mães - Ferry Gold, 2025 - A Garota Não

-Se Por Acaso - 1970, 2007- J.P.Simões&Luanda Cozeti 

-Lilac Wine -Wild is the Wind, 1966 - Nina Simone

-Te Recuerdo Amanda - mid-eighties, 1983 - Robert Wyatt

-Hoje Já Não é Tarde - Salvador&Sílvia, 2025 - Salvador Sobral&Sílvia Pérez Cruz

-Mohabbat - Vulture Prince, 2021 - Arooj Aftab

-Jelena Solun Devojko - Songs of Thessaloniki, 2015 - Savina Yannatou

-Ge mig hopp, ge mig tro, ge mig nåt - Sex, 2024 - Anna Järvinen

-Pra Não Falar Mal - Novo Mundo, 2025 - Arnaldo Antunes e Ana Frango Eléctrico

-Malaika -Myriam Makeba Live in Paris, 1977 - Miriam Makeba

Verso de Fred Neil

 The old world may never change 

A Saudade de Rolando de Viveiros

É um suave misto de tristeza 
e de dor, de vago ansiar e nostalgia...
misto de indefinível poesia, 
de esperanças, de sonhos, de incerteza...

É uma sensação, bem portuguesa,
de que se morre, um pouco, dia a dia...
Lembrança triste de uma simpatia,
que, para sempre, n´alma ficou presa...

É um sentimento vago e nebuloso,
em que há um não sei quê de misterioso,
cheio de encanto e de suavidade...

...Só quem, em vão, aspira a um bem ausente,
ou que, um dia, amou sinceramente,
pode saber, ao certo, o que é - saudade! 

in Versos, 1979.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Cartas da Suécia: o que mudou?

 
    “Os Suecos sentem evidentemente orgulho na maneira de ser única da Suécia, no seu papel de vanguarda no panorama internacional. Tal soa bastante americano, não é verdade?  Mas o deles é um tipo muito diferente de orgulho. Os americanos revestidos também dum sentido de supremacia única como nação e da sua identificação com a virtude, não só consideram a sua própria virtude como exportável, mas possuem ainda um mandato para a sua exportação (e lucram com a mesma: imperialismo). Os suecos vêem-se a eles mesmo exemplares num estilo mais passivo. Não estão nem em posição nem dispostos, por temperamento, a exportar agressivamente aquilo que eles praticam – costumes sexuais pós-puritanos, bom gosto e generosidade para as artes, planeamento económico racional, justiça social sem atritos, cuidado com o ambiente urbano-,mas aguardam com confiança os inevitáveis movimentos da história que levarão outras nações a imitá-los. O que acontece na Suécia, tem-me sido dito por mais de um sueco, acontece cinco, dez, ou quinze anos mais tarde em qualquer outra parte adiantada do mundo.”

Susan Sontag in “Carta da Suécia, Suécia: Mito Ou Realidade?”, cadernos d. quixote, 1969.

          "Suécia? Um dos países europeus mais seguros e acolhedores enfrenta na atualidade uma das maiores crises securitárias da Europa, com o número de crimes com armas de fogo ser apenas ultrapassado pela Albânia. Cada vez mais jovens são recrutados por gangues de traficantes de droga e a situação atingiu tal ponto que o governo decidiu aprovar uma lei que permite à polícia pôr escutas em telemóveis de menores de 15 anos. Uma advogada sueca confirmava: As crianças já não estão a usar as mochilas para levar livros, antes para transportar o mercado de droga sueco nos seus próprios ombros."

Ana Cristina Leonardo , Ípsilon, Jornal Público, 16 de Maio de 2025

FUSO INSULAR 2025

Informações aqui: https://fusovideoarte.com/
 

terça-feira, 20 de maio de 2025

Ilustração de António Pedro

 

O Interior

             “Os candidatos a primeiro ministro dos maiores partidos, nos bocadinhos que tiram à pressa para vir ao interior durante a campanha eleitoral, falam sobre como estas regiões importam, sobre o perigo da desertificação, sobre os transportes públicos que quase não temos e sobre o envelhecimento da nossa população. Mas na hora em que, efectivamente, podem fazer alguma coisa e dar-nos pelo menos um voto com a mesma representatividade do litoral, escolhem antes ficar sossegadinhos e não mexer no que está instituído. Porque antes do interior estão eles e os interesses do partido.
             O interior? É bonito! Eles depois voltam cá nas férias.”

 Carmen Garcia,  in Público, 18 de Maio de 2025

sábado, 17 de maio de 2025

NAPA: Deslocados Venceremos!

     É uma canção bem bonita, inusitada para este tipo de certame, à semelhança de Amar pelos Dois de Salvador Sobral, cantada em português, com um significado etéreo e intenso, aquela que nos irá representar no Festival da Eurovisão, logo à noite. Quem é que neste país de gente errante nunca se sentiu "deslocado" que ponha o dedo no ar? Quem é que não se revê nesta nostalgia dolente de uma voz anasalada a pedir um coro geral? Por isso, serão muitos os estudantes, professores, portugueses emigrantes ou viajantes que irão entoar estes versos: "Por mais que possa parecer/ Eu nunca vou pertencer àquela cidade/ O mar de gente, o Sol diferente/ O monte de betão não me provoca nada/ Não me convoca casa". Só por isso, já ganharam!

Verso de Cátia Mazari Oliveira

 é preciso colocar bondade em dia 

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Em Escuta...

Ferry Gold, 2025
A Garota Não
A primeira audição de A Garota Não foi de absoluta surpresa: alguém que assumia o legado dos grandes cantautores nacionais – José Mário Branco e José Afonso. “Liberdade/querida Liberdade/ o nosso chão tem sonhos e vontade”, cantava Cátia Mazari Oliveira acompanhada  pela guitarra de Sérgio Miendes. Para além dessa assunção da herança, havia a firmeza de trilhar um caminho próprio, um desejo de partilhar canções que estivessem focadas na esperança e na transformação. Uma voz de veludo que nos incitava à urgência e à resistência de viver num país com tanto por mudar e concretizar.  
       O disco “Ferry Gold”, o terceiro de originais da “Garota Não”, chegou via caixa do correio. São 19 temas carregados de colagens, citações, apropriações, interlúdios e demais montagens. O CD, mais o livro, foram “costurados à mão, papel reciclado, muita paciência e amor”, com a assinatura do Artwork e costura da Ana Polido, contém ainda no seu interior as pinturas a óleo por Joana Batista. Para já, o tema “Alaska”, poema de João Quadros, encontra-se em modo repeat: “tudo começa numa estrada que termina no Alaska”. Em escuta atenta!

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Há 30 anos!

 


Sob os que informam...

          "Durante muitos séculos, a informação era quase sempre oficial, isto é, partia de uma única origem, de um centro. O rei, ou o chefe máximo dos máximos de um país qualquer emitia a escrita informativa, uma escrita única, sem contraditório nem verificação. 
        Roland Barthes, num belo texto, lembra precisamente que o termo "escrita" estava historicamente ligada à escrita oficial, ou seja, às informações que vinham do centro do poder que, no limite, definia as leis. Leis, podemos dizer, vistas assim como informações -base, informações fixas, a que se tinha, e tem, de obedecer. E Barthes lembra que, para os outros, para os indivíduos, sobrava o "rascunho" - termo que definia a escrita individual dos cidadãos, a escrita que se podia rasurar, eliminar, alterar, etc., ao contrário da escrita oficial, que era intocável, era escrita na pedra -, por vezes literalmente, sempre simbolicamente." 

Gonçalo M. Tavares, in "Os Jornalistas", Revista Expresso, 22 de Março 2024. 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Haiku de Yosa Buson

 As chuvas de Maio: 
qualquer pequeno riacho 
fica a meter medo.


in Imagens Orientais, Assírio&Alvim, (tradução de Luísa Freire). Janeiro, 2003

Esperança

      "Quando olhamos e desprezamos Trump a partir da nossa perspectiva intelectual e progressista, classificando-o como estúpido, creio que os estúpidos somo nós. Porque não vemos que aquilo que se apresenta como vulgar também é uma estratégia muito eficaz. As pessoas comuns têm necessidades primárias que não são apenas alimentar-se ou vestir-se, mas que incluem a necessidade de segurança, consolo, compreensão que lhes vem de alguém que, ilusioriamente, lhes diz que as coisas são mais simples do que a complexidade da vida moderna, que sentem como opressora. Dizem-lhes que tudo se resolve a um só problema: há um inimigo, que vem de fora, que nos invade e que é preciso eliminar. Trump fê-lo com o muro. Mussolini fê-lo com os socialistas. Meloni e Salvini fazem-no com os imigrantes, respondendo com grande eficácia às necessidades das pessoas, às quais a esquerda deixou de ser capaz de dar uma resposta. Se os populistas conseguem alimentar com grande eficácia o medo, a esquerda já não consegue alimentar a esperança."

António Scurati, in Ipíslon, 17 de Novembro de 2023