segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Não é Tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despe

vai perdendo o nosso número de telefone.

José Miguel Silva 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Ontem, escrito numa parede da cidade

Oxidada esta!

Gráfico

I
Curva dos espaços, curva das baías,
Vida que não é vida com os gestos inúteis,
Quem me consolará do meu corpo sepultado?


II
Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.


III
A mulher branca que a noite traz no ventre
Veio à tona das águas e morreu.


IV
Chego à praia e vejo que sou eu
O dia branco.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, pág.25, Editorial Caminho. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Palindromar

Rever

Acordar Tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Da Neura

“O universo humano é uma associação frágil de natura e cultura. A vontade de tudo controlar, a obsessão da lei, de tudo regulamentar, de uma vez para sempre, a perda de sentido de humor, do dever sem prazer, tornam a vida uma neura.”
Frei Bento Domingues in Público.

Palindromar

Reler


*in ípsis verbis de Bagão Félix, jornal Público