segunda-feira, 24 de março de 2025

domingo, 23 de março de 2025

O Limite de Elio Pecora

 Ficar aqui, nas estações que mudam,
é a norma comum: o dom extremo e a saída,
A quem galgou o limiar não é dado voltar:
talvez tão só no sonho diga palavras soltas
demasiado parecidas com estas dos nossos percursos.
E seguimos absortos, às vezes surpresos,
cada espera é um jogo,
cada dúvida o encalhar de uma deriva,
e damos números aos dias,
pés aos desejos,
confins ao vaguear
-desprovidos de mapas, desconhecendo o porto.


in Poemas Escolhidos, tradução de Simonneta Neto, Quasi Edições, 2008

Verso de Filipe Furtado

 E se houvesse amanhã era um sol mais lindo

sábado, 22 de março de 2025

...

Mais do que uma vez 
atravessei a Primavera 
com os olhos fechados 

Jorge Sousa Braga, in O Poeta Nu (Poesia Reunida) Assírio&Alvim,2007

No Meu País de Sebastião Alba

No meu país
dardejado de sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia
Nossos lábios
a um metro e setenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses
No entanto
à flor do possível
geografia
um frémito cinde
as estações do ano

A Constante Cosmológica do Amor

 A flor que pela Primavera se abre para logo fenecer 
o olho múltiplo da mosca pousado nas tripas
do soldado escentrado por uma mina
a estrada que saindo de Azambuja passa em Vale do Paraíso
a fome do leão no pescoço da gazela
um berçário de estrelas na nebulosa de Andrómeda 
as juras dos namorados numa ponte de Paris 
o poema quase perfeito que escrevi num dia de sol
-tudo o que existe pelo amor de existir 
e une fenómenos com cauda de cometa
é da ordem dos segredos e pertence à classe do silêncio

Inútil procurar a fonte dessa evidência numa metáfora

Paulo Ramalho, in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024. 

Artistas na Fábrica

     

       "Os miúdos eram enrugados, eram enrugados como eu hoje...Miúdos muito enrugados...Porque eles faziam também a desenforma. A desenforma tirava-lhes a água do corpo, desidratavam...Gostei muito daqueles miúdos..."

Tereza Arriaga, 2005

       in "Artistas na Fábrica",  exposição patente no M(i)mo – Museu da Imagem em Movimento, em Leiria, aberta ao público até ao final de Junho deste ano. 

*Elas estão presentes aqui e agora

           "Trabalho": Dá prioridade a uma iconografia feminina marcada pela expressão do esforço ou pelo desgaste que tal esforço produz: este núcleo não esconde a relação da mulher com a maternidade, incluindo ainda o raro registo das vítimas do trabalho infantil que Tereza Arriaga (1915-2013) desenvolveu na Marinha Grande em 1945, com retratos dos meninos operários da indústria vidreira." 

          in"Onde Estão Elas? - Mulheres Artistas no Museu do Neorealismo", *artigo de José Luís Porfírio, Revista Expresso, dia 21 de Março de 2024. 

sábado, 15 de março de 2025

Um de Paulo Ramalho

Tenho pressa 
de viver 
até  morrer
porque 
nunca mais existirá
um outro eu
com tanto
que fazer.

in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024. 

É daqui a pouco...em Lisboa!

Auto Ajuda de Alberto Ai
Lançamento no espaço O Limbo
Lisboa 
(16h30)
    É a estreia nas lides editoriais de Alberto Ai, um conhecido escriba da nossa ágora virtual, ele que é tão próximo espiritualmente de Janeiro Alves, colaborador deste espaço de reflexão. O livro dá pelo nome de Auto-Ajuda e é, quase de certeza, uma narrativa que nos ajuda a ler o nosso mundo interior e que nos ensina a lidar com a realidade em redor. Alberto é, sem dúvida, Ai, já que não nasceu Ui, dado que este não pretende de modo algum assustar quem quiser mergulhar na sua obra debutante. É pois, um relato da vida contemporânea para ler de um só fôlego e, mesmo em modo apneia, dada as profundezas possíveis de atingir. Uns bons ais de leitura!

quinta-feira, 13 de março de 2025

Do Legado

 Herdar é humano.
Millôr Fernandes 

Do Extractivismo

“Este exercício de deslocar-nos para o lugar do outro, recorda-nos que nós, mamíferos humanos, pesamos “mais na biomassa do que todas as baleias azuis gigantes juntas”. E que a nossa ocupação extractivista, permeada por edificações e objetos de uso único, contribui para a “lenta desaparição da vida. Falar disto também é falar de alterações climáticas.” No núcleo da crise do clima está o declínio da biodiversidade, impulsionado por uma economia fóssil que se auto-sustenta através do consumo contínuo.”

in “No Vocabulário do Clima”, os artistas são tão vitais como os cientistas, in Público, fevereiro, 2025.