O
Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas - está situado na cidade da
Ribeira Grande e encontra-se em funcionamento há seis anos. No passado dia 23
de Outubro inaugurou-se ali uma exposição intitulada “Se podes olhar, vê. Se
podes ver, repara”, do artista açoriano João Amado - aberta ao público até ao
dia 16 de Janeiro. O criativo esclarece, através das suas 36 colagens em madeira,
a razão porque se tornou um “colagista” ascendente em tão curto espaço de
tempo, fazendo das suas “narrativas policromáticas” os elementos pictóricos
essenciais da sua composição plástica. O seu modus operandi caracteriza-se
pelo seu arreigado trabalho de bisturi, cirúrgico, revelador de processos
ousados de figuração misturados com signos e símbolos da natureza primordial.
Um momento de felicidade partilhamos nesta sua primeira exposição. No interior
do Arquipélago constam ainda diversos lugares expositivos, no espaço central
está patente “Lugares de Fractura” de Maria José Cavaco e noutro dos espaços inferiores, e em forma de pequenos estúdios, encontra-se a colectiva “Quatro Quatro”. Uma clara ideia de
exposição criativa que lançou para exposição 20 artistas num ciclo expositivo
de 4 artistas X 5 momentos de exposição (cada 4 artistas convidavam 4 artistas
para o momento seguinte). O resultado, uma diversidade e riqueza de propostas
artísticas expostas num hino à camaradagem e companheirismo. Ainda no mês de Outubro foi
possível assistir à apresentação de mais uma edição do “Fuso-Insular”, evento
marcado pela perspetiva divulgadora e formadora da videoarte, sendo o
Arquipélago o centro de apresentação e visualização de seis propostas de
videoarte pelos formandos de Susana de Sousa Dias, com a acompanhamento de
André Laranjinha. Durante o evento, assistimos aos filmes “Natureza Morta” (2005)
e “48”, (2008), de Susana de Sousa Dias, nesse encontro duro e arriscado com a
memória coletiva do passado ditatorial, assente essencialmente nas fotografias
do arquivo da PIDE guardadas na Torre do Tombo e demais registos fílmicos de
arquivo ou mesmo pessoais. Pena apenas por ambos os filmes terem sido mostrados
na mesma altura, todavia o facto não retirasse o vigor presente nas imagens e
narrativas explicitadas. As sextas-feiras tem vindo também a ser ocupadas pelos
novos sons e ritmos propostos pela recém-criada editora de nome singular: Marca
Pistola! Desde o concerto de “PS.Lucas” - um encontro com a guitarra
deambulante e melancólica de Pedro Lucas, ou a bateria amplificada e potente de
Ricardo Martins, até à apresentação do novo disco dos ribeiragrandenses WE SEA,
no fim deste mês - abriu-se a contenda das novas sonoridades também neste
local. Para além de tudo isso, ressalte-se ainda a marca arquitectónica deste
edifício que merece uma visita pela força da sua memória, pela sua beleza e
harmonia estética, pela sólida imponência das suas linhas de desenho, hoje
pontuada por uma intervenção contemporânea de estrutura sóbria com os seus
diferentes dispositivos codificados e bem definidos.
Por fim e, agora que este espaço parece, finalmente, aberto à
comunidade artística local e, não só, seria de bom tom receber diferentes tipos
e modalidades da arte contemporânea presentes nas restantes ilhas do
Arquipélago, bem como de Portugal Continental, tal como continuar esse esforço
de formação e convivialidade entre os artistas locais e os que se encontram em
residência. Sugere-se, por isso, a valorização da sua biblioteca cada vez mais
renovada e especializada, o provimento de um serviço educativo dinâmico e
inclusivo e uma programação dinâmica, diversa e abrangente.
Estamos,
pois, na presença de um espaço pluridisciplinar que tem sido capaz de se
reinventar, finalmente, exercitando as suas múltiplas valências e propenso à
ocorrência de diversa e prolífica atividade artística contemporânea. Certa
também, é a proximidade e integração do edifício com o mar e a luz da cidade, a
necessitar, por isso, de fazer parte do mapa diário de todos habitantes
insulares, permanentes e nómadas.
Belo texto, doutor. Elegante e esclarecedor. Depois de o ler apetece sair de casa e ir até ao Arquipélago.
ResponderEliminarCumprimentos.
É acompanhar o horário de abertura e estar atento à programação. Cumprimentos.
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