segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Deste verde tão verde...

Meu caro amigo,

                Escrevo para si, Janeiro Alves, em Novembro, mês de castanhas assadas e vinho novo. Recebi com júbilo a sua missiva no fim de tão melancólica estação, já que é no Outono da minha existência em que me encontro, consciente dessa descida do Everest desta humilde biografia que agora lhe dou conta. À semelhança de Manaia Júnior, o mais aventureiro dos Manos Manaias, tenho procurado afastar-me dos olhares públicos, refugiando-me no sossego do atlântico e do mar e outras águas menos turvas, essa fonte de riqueza espiritual e, obviamente sonora, dado que também Shubert foi seu epígono quando decidiu compor a obra musical “A Truta”`, à volta de um lago. 
        Recentemente e, dada as condições miseráveis da prolongada sanguessuga financeira a que estamos condenados, decidi evitar saborear bivalves, crustáceos e demais peixes do oceano, pois não vá uma brigada anti-ácidos gordos e Ómega 3 se encontrar por perto e me obrigar a devolver as carapaças e as espinhas. Li, portanto, com uma inconfessável e desmesurada jóia, a sua missiva dando conta desse improvável e sangrento encontro com Vivaldo Manaia. Que horror, essa matilha de Vivaldo, confirmando assim a lenda que já no berço este distinto Manaia estava rodeado de espécies canídeas em redor. Ainda bem que não houve danos de maior e que o meu caro amigo ainda se movimenta. Entretanto, sabia o meu bom amigo, que me encontro a visitar a mais digna literata e filósofa dos Manaias, a Miriam, que está de volta ao clã para se dedicar de punho firme e desmanchada certeza a escrever uma biografia póstuma da família. A Miriam continua delicada e esbelta, tendo eu descoberto há dias, enquanto lavava os meus alvos dentes, que ela tinha vedado o “lava-pés”, já que não gosta de partilhar a água da torneira com que lava as cartilagens dos seus membros com mais ninguém…esta Miriam é incrível!
      Tenciono, por isso, dar-lhe conta desta minha aventura pelas terras do chã, das folhas de tabaco e dos ananases com maior brevidade. 

Seu servo, Doutor Mara.

domingo, 24 de novembro de 2013

Didi adora posar...


     Didi adora posar para o seu amigo fotógrafo e encher as páginas do seu “book” com fotografias arrojadas, de grande pendor sensual, a roçar o  erotismo. As fotografias trazem sempre o cabelo ondulado e doirado de Didi e uma parte dele estende-se sobre o seu corpo delgado e fino, pontuado de linhas e curvas bem esclarecidas, acentuando a sua pele bem tratada, ainda que alguma rugas faciais denunciem já a passagem de Didi dos trinta e muitos, obrigando-a assim a alguns constrangimentos alimentares e ao cuidado exagerado com as combinações das roupas e dos seus vestidos com o tom de pele, apostando na delicadeza e suavidade das cores do baton nos lábios e as tonalidades certas de pó de arroz sobre as maçãs do rosto esgalgadas. O propósito de Didi é muito simples e eficaz. Didi quer muito que todos reparem nela e que cada vez que passe pelos representantes do sexo masculino, estes se dêem conta do que ela traz vestido e que a mirem de alto a baixo, como se de uma princesa inacessível se expusesse ali perante os seus lânguidos e lascivos olhares. O cuidado de Didi quando posa é tal que ela respira fundo quando ouve o click do seu amigo fotógrafo, em parte porque gosta de dar sinal do dever cumprido. O amigo fotógrafo de Didi também não deixa que nada lhe escape e, se vê que Didi está fora do plano, trata imediatamente de a admoestar ou avisar. E quer sempre muito que tudo fique como deve ficar, isto é, como ela aspira, para mais tarde recordar. A desventura de Didi é não poder usar todos os dias os seus óculos Paco Rabane, pois preenchem-lhe a cara mais do que é costume. O sol do lugar onde vive não ajuda e a invernia prolonga-se quase até à chegada do verão. Numa das fotos sensuais e audaciosas de Didi, ela está deitada sobre a areia numa praia deserta, com o mar ao fundo completamente desnudada ao cair da tarde, com o sol e a luz a desaparecer, sempre com o seu sorriso cândido e escondido, não tirando nunca os seus colares de mini bolinhas doiradas que se prolongam pelas costas. É impossível não pensar que Didi queira muito ser desejada pelo sexo oposto e que em parte o consegue dado que são muito poucos ou nenhuns que conseguem permanecer indiferentes à sensualidade do seu olhar doce e indolente. Falta saber se Didi quer ser amada pelos que vêem aquelas fotos no silêncio dos seus computadores, nos iphones da última geração, ou se ela gostaria que todas as noites alguém lhe narrasse estórias simples e verdadeiras, ou apenas alguém lhe desferisse o conto do bandido?  Nunca saberemos, Didi, certamente que não.  Por ora, é isso o que o olhar de Didi revela ainda que se apresente tão difuso, tão aéreo, porquanto tão sensual, não se sabendo ao certo se no momento da fotografia Didi está a olhar para o flash ou se para o público que passa naquele momento em que o seu amigo tira as fotografias. Didi sorri muito sem ser propriamente um sorriso inoportuno ou desproporcionado. Ela sabe que o resultado final nunca desilude, daí se expor tanto, chega  mesmo a mostrar-se de todas as formas e feitios, pois sabe que quanto mais pose tiver mais a sua imagem se alastra sobre todos os lugares onde ecoa o seu nome. Didi demonstra ser livre enquanto posa e essa liberdade ninguém a tira. Uma das fotos que  deu mais prazer a Didi e que ela narra a toda a gente ser a sua cara é aquela em que ela está em cima de um zebra completamente inclinada sobre o animal atenuando a leveza do seu peso sobre o seu dorso ao mesmo tempo que lhe afaga a crina. Didi, na verdade, adora posar ainda que todos saibamos que essa sua pose não tem fim, hora, dia, mês ou estação, pois alimenta-se de um oxigénio inesgotável. Didi tem consciência disso. Didi apenas desejaria posar. Cada vez mais.

sábado, 23 de novembro de 2013

Abre os Teus Olhos

Verrá la morte e avrá i tuoi ochi-
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, comme un vechio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi ochi
saranno una vanna parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Così li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello spechio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla

Cesare Pavese, Verrà la morte e avrà i tuoi occhi, Giulio Einaudi editore, Torino 1951

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sonata do Outono

Ingmar Bergman (1979)

O Silêncio Habitado da Mente


"Há algo para além da nossa mente que habita em silêncio na nossa mente. É o supremo mistério que ultrapassa o pensamento. Apoiai a vossa mente e o vosso corpo subtil nesse algo, e não o apoiais em nenhuma outra coisa."

Api

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma Missiva na Queda de Novembro.


Caro Doutor Mara,
         
     Espero que esta carta o encontre no máximo das suas capacidades físicas e mentais, e na habitual desordem provocada do seu pensamento futurista. Espero igualmente que o preço dos filetes de peixe esteja mais acessível do que da última vez, pois sei que é um verdadeiro apreciador.
       Para além de notas soltas da minha diária contemplação do maciço dos Alpes, e da permanente observação de fenómenos extra-planetários, nada teria para lhe contar, não fora a circunstância inesperada de me ter encontrado com Vivaldo Manaia, o mais Italiano dos Manaias, e que surpreendentemente reside muito perto do meu humilde habitáculo. O doutor Mara não imagina, nem lhe consigo descrever por palavras, a satisfação que foi poder conhecer o mais profícuo dos Manaias de S. Miguel, o mais internacional e consagrado elemento do clã, no seu habitat artificial. Tudo aconteceu numa tarde em que fotografava fenómenos espontâneos de situações que acontecem simultaneamente, numa rua movimentada de Milão, quando me deparo com um homem;
Gordo, de olhos castanhos, carão rechonchudo,
Mal servido de pés, também em altura,
Estragado de facha, pior de figura,
Nariz gordo no meio, olhar sisudo
         
        Ali estava Vivaldo Manaia, a antítese viva de Bocage, a apanhar o eléctrico nº 14 para o Duomo, com três cães, um grande, um pequeno e um outro que não era grande nem pequeno, e nem sei se seria um cão. Reconheci-o à distância a que se reconhecem os grandes homens, sem que eles nos reconheçam a nós.  Apressei-me para apanhar o mesmo eléctrico, e engendrava uma forma de poder registar aquele momento e conseguir algumas palavras do grande mestre Manaia. Sentei-me à frente do cão maior, que me fitava enquanto mostrava lateralmente a sua potente cremalheira pronta a afiar em caso de necessidade. Mantive-me calmo. Já com os olhos postos no chão conspurcado da carruagem, desprovido de argumentação, oiço: “Você não é o Janeiro Alves?”. Imagine, doutor Mara!
        Disse-me que me conhecia, mas que não podia dizer de onde nem porquê. Saímos e fomos beber uma garrafa de vinho Lombardo a um botequim da cidade, e discutir assuntos mundanos. Mas eis que no meio de divagações de menor relevância, o nosso ilustre Manaia me comunica que pretendia desvendar-me as linhas gerais do seu plano magistral, assunto de extrema importância para Portugal, um projecto de uma amplitude paranormal que iria definitivamente alterar o cenário nacional. Um plano para a crise, e portanto, para dizimar, com ou sem aspas, o velcro governativo que nos dirige. E nós sabemos do que os Manaias são capazes, doutor Mara, nós sabemos... Mas porque há momentos em que sucedem coisas indetectáveis em tempo útil, eis que a meio de um brinde, e em profunda ansiedade de querer saber mais, o cão que não era pequeno nem grande se atira a mim e me provoca ferimentos de alguma gravidade. Fui transportado para o hospital de urgência. O médico que me acordou no dia seguinte, esclareceu-me tudo. Fui atacado por um papagalo, uma espécie da floresta negra alemã, cruzamento entre um cão, um furão e uma cabra, e conhecido naquela zona alemã por comer galos inteiros à dentada. E assim terminou o meu triste encontro com Vivaldo Manaia.
       Mas a razão desta carta guardo-a para o fim. No bolso do meu casaco verde de veludo, ainda marcado de sangue e dentes caninos, encontrei um bilhete. “Caro Janeiro Alves, peço-lhe desculpa pelo sucedido. Saberá a breve trecho todos os detalhes do meu plano por intermédio do Doutor Mara...”
 Um fraterno abraço,
Janeiro Alves

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mergulho

Mergulhar talvez seja
um verbo aéreo, curvo, distraído,
ainda que com água no bico.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Da Pulcra Existência

          A faca que corta dá golpe sem dor…descobrir prováveis hipóteses e mesmo assim não detectar seja o que for. Ter o receptor pronto, iniciar o caminho das trevas, mover todos os propósitos e nada alcançar. Ter a sensibilidade pronta para captar a mais provável das suspeitas e admitir que o que vier a seguir é uma mera possibilidade. Esta é a circunstância de nada conseguir saber, ter a cabeça a prémio, juntar peça por peça e lentamente desconfiar do que foi feito. Vivemos ambos sobre ruínas e em breve também este tempo findará. Por isso há cada vez mais desmoronamentos, sobressaltos, mais devastação em redor. Reconhecemo-nos, no entanto, nessa dimensão da esperança, a tensão do encontro, a surpresa da coincidência ou da pulcritude simples. Convém, portanto, manter a curiosidade, a leveza e o desapego, desprovidos de cobiças e apegos vãos. Se no final de um dia, soubermos pronunciar as palavras que em nós pulsam com maior veemência, talvez encontremos aquilo que nos descerra e nos prende, aquilo que nos liga e deslaça, aquilo nos dá vida e nos mata.

Um olhar...

Marine Vacht actriz de "Jeune et Jolie" de
François Ozon (no papel de Isabelle).

Flor no Pântano, Luz nas Catacumbas.


         "Flor no pântano, luz nas catacumbas" escreveu Vitorino Nemésio sobre a obra de Raul Brandão. Curiosa expressão ouvida pelo boca do doutor Machado Pires, especialista na obra do escritor da foz do Douro e que não se importa, até concorda ser boa ideia, este ter escrito sempre o mesmo livro. Brandão e Nemésio viajaram - ainda que por motivos diferentes- tal como travaram conhecimento na viagem que deu origem ao livro "As Ilhas Desconhecidas". Brandão tinha 52 anos e Nemésio 22. Desconfia-se assim que o "Corsário das Ilhas" terá nascido dessa vontade diarística. O que é certo é que, tanto um como outro, escreveram essencialmente sobre a passagem do tempo. E o que escreveram é, ainda hoje, tão relevante de ler.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Mão no Arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

 É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


Ruy Belo

sábado, 9 de novembro de 2013

“Menina”- Márcia Santos e Samuel Úria


Imagem retirada daqui:www.som-directo.com 
É mais uma parceria luminosa e bem-aventurada esta de Márcia com Samuel Úria para a interpretação do tema “Menina”, segundo single do álbum “Casulo”(Maio de 2013). Os cantores assinam a composição da música e da letra desta canção que tem harmonia, melodia e uma alma que transborda, sobressaindo assim o texto da  letra que contém finura e um delicioso requinte poético, acrescentando-lhe a tensão necessária com a entrada em cena de Samuel Úria, numa exaltação de vozes aventureiras e apaixonadas, em tributo digno e verdadeiro à língua de Alexandre O´Neill. A pele musical de Márcia já vem desde os seus 13 anos e é de transporte para uma iminente dança imprevista e louca, numa luta sem medos, que esta cantora e Samuel Úria anunciam o desejo de querer dançar a quatro pernas e ventos, evidenciando uma vontade emancipatória de nos movermos, soltemos…sem receios ou complexos: “Desfaz o Nó/ destrava o pé/ desmancha a traça e avança./Chocalha o chão,/esquece os que estão,/rasga o marasmo em ti mesma./Vê corações,/ na cara que pões,/ vira do avesso esse enguiço./ Desamordaça a dança pra te convencer./O teu coração/ sem querer dispara/força e simpatia ao Ser que te vê dançar./O teu coração ainda pára,/ forçando a apatia p'lo medo de dançar.” Parabéns à dupla!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Regresso do Fazendo


Ilustração de Luís Silva para o Fazendo nº57
O Fazendo(https://issuu.com/fazendofazendo) é o jornal que eu adoraria ter  feito e fundado quando tinha vinte anos. Com essa proveta idade, aquilo que consegui foi editar um fanzine intitulado Espanta-Pardais e que, com a colaboração de vários amigos e amigas, fui também responsável pela maioria dos textos, grafismo e venda deste. A aventura persistiu durante dois anos e seis números, todos eles suportados pela algibeira piscícola da minha afável e inesquecível avó, que raramente viu cobrir este investimento financeiro ao seu neto dado às poesias, filmes e afins. O fanzine era vendido essencialmente de mão em mão e não me lembro de nenhum quiosque ou café recusar a venda do Espanta-Pardais, no entanto na minha mente não há qualquer recolha de qualquer verba dos fanzines lá deixados. Quando descobri um designer gráfico e a possibilidade de realizar um grafismo, mais cuidado e mais atractivo, decidi apelar a apoios públicos e ao Pelouro da Juventude local, mas este não viu qualquer interesse em custear aquele objecto editorial, provavelmente porque a sua tiragem rondava os cem exemplares. De qualquer modo, passadas duas décadas sobre tal desiderato, é com tamanho júbilo que olho para aquelas edições e aqueles nomes de pessoas das mais diversas áreas que escreveram e colaboraram naquela pequena façanha, reencontrando por ali o mesmo gosto, paixão, dedicação e a mesma generosidade que reencontro agora nas páginas deste jornal feito no gerúndio. À semelhança daqueles dias, também ninguém ganha qualquer euro por escrever ou paginar este boletim cultural que tem funcionado como barómetro e boletim cultural das ilhas do Triângulo, contando com os contributos de gente de todos os lados, credos ou classe social. Por isso, tenho a profunda convicção que os contributos particulares irão devolver o Fazendo ao espaço que este soube alegremente criar, isto é, à fruição e leitura de cada um: (https://issuu.com/fazendofazendo)