segunda-feira, 4 de abril de 2016

nunca se diz adeus

não dá melancolia, é uma saudade concreta, nada tem de nostalgia, ninguém se esquece de nada, a memória arrasta viagens, credos, angústias, glórias, a nossa fatia de vida lembra-se com força para marcar a fogo uma alegria inatingível e próxima como a fúria da água, tão distante como os passos numa órbita à descoberta de uma vocação

não estamos por ordem, apenas somos diferentes, há lixo da época ouro hoje, deitam-se fora coisas discretas da altura que agora nos deixam a pele em arrepio, fica o pavio duro e rígido, nem na morte (ou muito menos na morte) alguém é abstacto e até já nos esteja destinado o futuro

nada é impossível ou verosímil quando vem ter connosco sem pedir licença ou fazer cerimónia, e o amor, o amor, a essência mais perene, dura o que durar, para além de nós se lhe aprouver, somos apenas uma personagem – entre milhões – atentos ao momento exacto da nossa voz, somos líricos, somos tenazes, devemos louvar esse legado e bem querer-lhe.

nenhuma palavra ou imagem é definitiva, nenhum testemunho desaparece, nenhum gesto passa por aqui em vão, o tempo tudo regista e só os homens dão por isso. O mais frequente é o mundo alarve que nos cerca, alimenta e devora, não nos dar muita importância e um dia nos vir buscar quando já não estivermos à espera

nunca se diz adeus

Joaquim Castro Caldas in “Mágoa das Pedras”, Deriva Editora.

Canção do Mar Aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.

Armando Côrtes-Rodrigues, in Planície Inquieta.

sábado, 2 de abril de 2016

Santa Clara à Tardinha

Cai a luz sobre os teus olhos
estupidamente verdes enquanto
inalo maresias do último Março
canto Primaveras fortuitas por cumprir
assim o calor dos dias ampliados
encubro um disfarçado contentamento
e talvez realize festa a preceito
numa quase infelicidade arquitectada

Cai a luz sobre os teus olhos

estupidamente verdes enquanto
absorvo fogos deste celeste céu
calo todas as mágoas e as pedras
estorvos antigos por transpor
conquisto um aceno e isenção  
e porventura me concentre
nessa mínima alegria possível

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Não é Mentira, é Mesmo Verdade: uma Missiva de Janeiro Alves no Primeiro de Abril!

Caro Doutor Mara,

Vejo que as suas fontes de informação há muito passaram o prazo de validade, e actualmente não passam de “lixo”. Temo que esteja a ser ludibriado pelas companhias e infectado pelos andrajosos recantos que frequenta, já para não falar dos malefícios dos vícios que não consegue largar. Todos estes factores levam-no a formular cenários imaginários que em nada correspondem à minha realidade. Não fossem estas cartas pessoais, e as minhas credenciais arderiam em fogo posto premeditado, ainda que revestido de uma certa negligência atenuante. Não me escuso porém a incluir-me na culpa gravosa destas inverdades, pois o facto de não o pôr a par das minhas inquietações mais amiúde também contribui para essas suas construções fantasiosas. Suas, e dos seus amigos.
Numa situação normal, seria uma perca de tempo relatar-lhe o meu quotidiano actual de forma detalhada, mas a circunstância assim o exige. Pois fique sabendo, Dr. Mara, o que tenho feito nos últimos meses. Acordo por volta das 9 da manhã, visto o fato de treino e vou ao café. Aproveito para ler a bola, enquanto bebo um café acompanhado de um pastel de nata. Com o estômago já forrado, bebo duas ou três minis enquanto discuto com o empregado os acontecimentos da última jornada. De seguida vou ao mercado, e compro dois peixes, um para o almoço e outro para o jantar. Às vezes dois bifes, um para o almoço e outro para o jantar. Depois do almoço dedico-me a actividades lúdicas, tais como rever a minha colecção de selos ou fotografias antigas, lavar o carro com a mangueira, alimentar com os restos do almoço as minhas plantas carnívoras do jardim, ou simplesmente ver vídeos do México 86. Ao fim da tarde nunca perco o Preço Certo em Euros, e depois disso o habitual itinerário – novela, telejornal, jantar, novela. À noite vou à tasca do Victor, que tem um bom bagaço das Beiras, e jogo uma suecada com amigos. De seguida dirijo-me aos meus aposentos, visto o meu pijama às riscas, e deito-me. Nunca adormeço antes de ler duas ou três páginas do meu livro de auto-ajuda, e de engolir duas cápsulas de Cálcio Mais.
Como vê, esse indivíduo dissertador de Alfama que se pavoneia pelos salões da intelectualidade Lisboeta está longe de ser Janeiro Alves ou algo que se pareça. É certo que tenho vindo a alterar os meus hábitos, mas lá terei as minhas razões, e obviamente não lhas poderei transmitir, sob pena de se esvaziar por completo a capa de incerteza que paira sobre a minha existência.
No que respeita aos desinfectantes intestinais e paneleirices revigorantes, aconselho-o a experimentar uma boa feijoada à Transmontana com vinho tinto da Bairrada e vai ver o que é vigor e desinfecção! Uma limpeza. De qualquer forma, sei que apesar destas mariquices de gengibre, o Doutor se trata bem. Gosta de dar ao bigode, como se costuma dizer. E é por isso que lhe envio à parte, num tupperware, os seus filetes de peixe favoritos, adquiridos no inigualável Pitéu da Graça. Espero que aprecie.
Por fim, não poderia deixar de referir que envidarei todos os esforços para estar presente na inauguração da exposição da nossa muy amiga Miriam Manaia, pelo que se nos encontrarmos, vêmo-nos concerteza. Apesar das suas obras mais emblemáticas e por si referidas, vou propositadamente para admirar de fascínio e estupefacção aquela que para mim é o ex-libris das suas obras, o “avultado desejo de cobrição”. Há anos que a tento adquirir. Quanto ao seu périplo pelas universidades do país, é uma óptima notícia, pois enquanto andar ocupado com essas matérias não terá tempo para espalhar boatos espalhafatosos e alarves sobre Janeiro Alves, que é como quem diz sobre a minha pessoa.
Dito isto, e porque a missiva já vai longa, sublinho que o meu caro amigo ainda vai a tempo de reverter o processo de degradação da minha imagem pública além-mar. Não me leve a mal por insistir nesta questão, mas será fundamental para a novidade que lhe quero dar – Pretendo candidatar-me a Presidente da República Portuguesa.
Com elevada estima e sentido de estado,
Janeiro Alves

5 x Novalis

-“Os órgãos do pensamento são as partes genitais da natureza.”
-“A vida é uma doença do espírito, uma acção apaixonada.”
-“Os jornais são já livros feitos em comum. “O escrever em comum” é um sintoma interessante que faz prever um grande aperfeiçoamento na arte da escrita. Talvez um dia se escreva, se pensa, se aja em massa. Comunas inteiras, países, empreenderão uma obra.”
-“Muita gente se agarra à natureza porque, como meninos mimados, têm medo do pai e procuram refúgio perto da mãe.”
-“Pode haver momentos em que um abecedário nos parece poético.”

Frederico Lopoldo de Hardenberg dito Novalis in “Fragmentos” – Tradução de Mário Cesariny.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Carta Primaveril a Janeiro Alves

Caro amigo Janeiro Alves,

Espero que se encontre bem de saúde mental e física agora que sei que decidiu voltar ao seu hábito de juventude de inalar rapé, uma superficialidade francesa deixada pelos seus ascendentes da Bretanha e que o amigo Janeiro nunca abandonou verdadeiramente.
Estou neste momento a escrever-lhe após um abundante prato de chicharros e um jarro de chá de gengibre. Há dois dias fui interceptado pela Brigada dos Costumes Morais onde me cofiscaram vários quilos desse importante desifenctante intestinal e promotor de saúde revigorante. As autoridades não permitem que me faça munir de tal substância em grandes quantidades daí eu ter que me desfazer deste material com grande rapidez.
Por aqui, prepara-se o mês de Abril que irá irromper com ventiladas e frescas novidades, algumas com sabor a renascimento e outras à espera que algum transeunte desvairado lhes dê uma rápida estocada final.  Já não é novidade nenhuma que a nossa amiga comum, Miriam Manaia, irá realizar uma grande exposição, reunindo uma parte considerável da sua excelsa obra intitulada “Deslocamo-nos pelas Cores Incandescentes do Desejo”. É uma exposição desmedida em perspectiva, pois não faltarão as suas obras iniciais que a tornaram tão bem conhecida do grande público - “Cerveja Depressão”, "A Existência Ameaçada Pelos Guarda-Sóis" e “Flecha Furiosa Arremessada”. Ultimamente e, dado que ela revela alguma fadiga e impaciência, temos passeado junto do mar sempre com os moinhos por perto. Temos conversado essencialmente sobre as recentes incidências do mundo moderno, pelo qual terminámos sempre com os olhos marejados e abraçados em soluços convulsos. Comunico-lhe também que partirei em breve num périplo pelas universidades portuguesas com a seguinte preleção “Gentrificação: atração ou repulsa?”, um tema por sinal bem quente e actual para um auditório há muito desinteressado destas questões contemporâneas.
Sobre si, meu caro amigo, não tenho obtido qualquer novidade, dado que apenas sei que se tem pavoneado pelos salões da intelectualidade lisboeta com as obras de Santa-Rita Pintor, Amadeo de Souza Cardozo ou José Júlio de Souza Pinto. Será que o meu amigo está mais interessado na teoria e mundanidade das obras de arte do que a sua execução ou materialidade? Soube também que faz prelecções diárias num “Canto de Alfama”, onde disserta sobretudo sobre a ausência e míngua do sentimento do amor num mundo pós-moderno e apocalíptico.
Despeço-me, aguardando as suas novidades que poderão surgir a qualquer momento destes dias alargados.
Com estima e amizade,
Doutor Mara

Um ano de Grémio

Clicar no cartaz do Gonçalo Cabaça

Acto Político

"A maior parte dos nossos gestos diários são políticos. O consumo, por exemplo, também pode ser um acto político."

Catarina Portas em entrevista a Carlos Vaz Marques, in Público, 27 de Março de 2016.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Páscoa

        "A Páscoa era a principal festa religiosa dos judeus, instituída em comemoração da sua libertação do jugo egípcio. De entre as diferentes celebrações memoriais avultam as de índole alimentar. A ceia pascal obedecia a ementa obrigatória: o cordeiro ritual, sem defeito, macho e de um ano (absque macula, masculus, annicullus - Éxodo, XII,5), assado inteiro e sem quebradura de ossos, acompanhado de ervas amargas e pão ázimo, simbolizando respectivamente, os primogénitos mortos, a amargura a escravidão e a pressa (que nem deu tempo à fermentação) na saída do Egipto. Complementados por caldos de maçãs, amêndoas, figos e outros frutos cozidos em vinho, tudo alegórico ao éxodo, e comido de pé e de bordão em punho e atitude de quem está para iniciar uma viagem.(...)"
José Quitério in Livro de Bem Comer Assírio & Alvim

3 x Novalis

-"A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."
-"Todo o objecto amado é o centro de um paraíso."
-"O mar é uma essência líquida de rapariga."

terça-feira, 22 de março de 2016

Chegada

"Penso que o motivo por que nos interessamos por determinadas pessoas ou por certos temas, e não por outros, é, muito provavelmente, da ordem do inconsciente. Chegamos às coisas ou são as coisas que chegam a nós?"
 Manuela Fleming

Ontem, escrito numa parede da cidade

O filósofo das sapatilhas não sabia como dominar o medo das alturas. Até que um dia adormeceu a pensar em nuvens.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Música Omnipresente do Terceiro Tremor

"Paus" no Coliseu Micaelense - Fotografia de Joana Camilo
“Estás em todas” foi a expressão mais ouvida durante o dia de sábado, o "prato principal" desta terceira edição do Tremor. E, como de facto, não se podia estar mesmo em todas – foram quarenta concertos de quinze em quinze minutos – fez-se os (im)possíveis para percorrer os vários lugares por onde esta maratona musical teve lugar.
A festa da música começou com uma curta audição de Luís Senra na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, onde decorreu o Mini-Tremor, com muita pequenada presente entretida com os sons do saxofone e os desenhos de Yves Decoster. O momento musical convidava no entanto a partir para outras paragens sem antes apreciar a obra de Tomás de Borba Vieira, presente na escadaria da respectiva escola. À chegada à Rua d´Agoa 50, o ambiente começava a aquecer com os “Rapeciâz”, os músicos encontravam-se no local e convidaram o público a entrar para a respectiva sala, cumprindo assim de forma improvisada, dissonante e, por vezes, harmónica, os preparos sonoros desta actuação. A pulcritude daquela casa e o concerto do trio (acompanhados pelo “performer” João Malaquias) proporcionaram uma viagem criativa e planante. Com regresso marcado ao planeta terra, lá fomos à galeria Fonseca e Macedo, apreciar e sentir os noruegueses “Sturle Dagsland” que, para além de uma performance intensa e evocativa das florestas do norte da Europa, demonstraram um apetite voraz pelos kiwis locais. Depois, partida para o auditório Luís de Camões para ouvir os “Kobayan”, agrupamento possuidor de uma segurança e tranquilidade em palco, aquecendo o público que se ia acumulando pelos diferentes abalos musicais espalhados pela cidade. O dia estava quente, pré-primaveril, e as ruas de Ponta Delgada enchiam-se de gente com pessoas a acumularem-se na recepção do Louvre Michaelense, descobrindo assim a área do primeiro andar e assim escutar a “Sara Fontán”, uma virtuosa do violino em pleno devaneio intimo e auspicioso pelo mundo das bandas sonoras para filmes reais ou inexistentes. Um pouco mais acima, na Rua de Pedro Homem, a Galeria/Editora Miolo esperava por nós para assistirmos aos “Diários Visuais” do fotógrafo António Júlio Duarte, pequenos registos livres de um festival que se realiza por entre vacas a pastar, piscinas termais e a imponência do verde.
Entretanto, o Solar da Graça encontrava-se deliciado a ouvir Julianna Barwick, com a madeira a servir de suporte e vibração numa convocação de música etérea e sombria. Apertados com a escassez do tempo, nova partida para a Igreja do Colégio, pois era lá que se encontrava em cena o “Filho da Mãe”, um guitarrista exímio e merecedor de um espaço e assistência a condizer, motivado com a solenidade devida daquele lugar. Sem dúvida, um momento propício para escutarmos os temas deste autor seguidor da tradição musical portuguesa, ainda que, com variações e sonoridade nas cordas muito próximas da kora africana. Foi, sem dúvida, um momento especial deste Tremor, não descurando a contemplação e a beleza da igreja.
A noite musical abriu com uma passagem pelo som dos “HHY and Macumbas” que subiram ao palco do Ateneu Comercial, num concerto de música bem animada e recheada de salero. Alguns metros à frente, novamente no bonito Solar da Graça, o rock soou muito alto com os decibéis no máximo, pois estavam em palco os canadianos Black Mountain”. Seguir-se-ia os “Bitichin Bajas e Bonnie Prince Billy”, no Auditório Camões, um concerto a abarrotar de gente, ainda que se desconfie que deveria ter sido noutra ocasião o momento para escutar este narrador contemporâneo e a sua desmesurada melancolia. “Keep on Keeping on” debitava o cantor ao público que resistiu até ao final, e assim se prosseguiu em romaria, apaziguados e sedentos de mais música.
Por último, uma passagem pela Tascà onde se encontrava o Dj Fábio "Quesadilla", animador que virou o Tremor do avesso, jorrando danças e folias para dentro daquela antiga taberna, permitindo apenas um derradeiro fulgor no Coliseu Micaelense. Na sala de espectáculos mais antiga do arquipélago, esperava-nos os divertidos e festivos, “Capitão Fausto”, mas viria a ser a banda "Paus", o que de melhor se viu e ouviu durante a noite. Aquelas duas baterias, sintetizador e guitarra, num cenário tribal e de bruma, levaram ao delírio a assistência presente e, aquilo que viria a seguir, já só serviu para cumprir o programa anunciado, o que, voltando à expressão inicial, seria de todo impossível ir a todas, ainda que houvesse vontade. Passada a festa e o abalo musical e, sabendo agora que já estamos todos a ressacar, o que não é bom sinal, conviria deste modo agradecer à organização e esperar que estas réplicas musicais se repetissem com mais frequência e se pudessem estender durante o ano inteiro.