sábado, 9 de abril de 2016
terça-feira, 5 de abril de 2016
Fazendo 105
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| Ler aqui: https://issuu.com/fazendofazendo |
Lídia Pombo afirma na mais recente edição do
FAZENDO (105 números, que orgulho!) que o aparecimento do Novo Grémio pelo
Teatro de Giz nasceu de um desejo: “um desejo de criar um espaço de partilha,
que fazia falta – quanta falta!”. E é também este FAZENDO desejante que nos faz tanta falta. Nesta edição de Abril do jornal, desenhado pela Raquel Vila Arisa, a paginação da Susana Salema e também do Tomás
Melo, conta com uma excelsa capa da autoria da Marina Ladreiro. Os temas
versam a actividade cultural existente no arquipélago, com textos ligados à
ciência, ao teatro, à música, ao cinema, à gastronomia, ao desenho, continuando
a insistir (e muito bem!) no seu Fazendinho, ainda que desta vez sem o já
habitual REBUS, para além de outros assuntos e temáticas. Dever-se-á,
entretanto, dedicar uma especial atenção ao artigo de João Venceslau,
conceituado crítico da nossa praça, a propósito das rotundas do além. Diz ele a determinada altura do seu pensamento avançado: "E assim nasceu uma rotunda, por causa de um poste, por causa da tomada de posse do senhor presidente." Será? Boas
iluminações!
À Grande e à Portuguesa
Gosto muito pouco dos meus
contemporâneos quando pensam em grande, de forma descomunal, mania das
grandezas, agindo depois de maneira desproporcional. Pensam e pensaram sempre muito alto, das
cidades às artes, pensam sempre desmedidos,
à patrão, como se costuma dizer. Cresci com estes meus contemporâneos a dar
cabo lentamente dum país à beira mar plantado, primeiro com mamarrachos, rotundas,
estádios de futebol, centros culturais e outros colossos de um país pobre, mas
com ideias arrancadas à força ao primeiro mundo e agora confundidos com as estatísticas realistas do terceiro-mundo. E assim calados e aluados, silenciosamente, nos penitenciamos.
Acobardamo-nos. E eu também sem o querer, porque fiquei afastado, também me sinto
culpado. Foram prédios à beira-mar fora
de escala, escolas de grande dimensão em que se misturam grandes com miúdos, edifícios
faraónicos, rotundas sem pompa nem circunstância, urbanidade sem calma nem
paciência, centros históricos arrasados e destruídos. Deste caldo cultural, gerado pelo novo-riquismo e o mau gosto, veio a prepotência, a arrogância,
a incultura. E, claro, muita, muita parolice. E fomos todos, sem excepção,
lentamente, perdendo a paciência. Prefiro,
por isso, ainda hoje os que correm devagarinho, os corredores de fundo em vez dos exibicionistas dos cem metros, ainda que muitas vezes pequenos, sem armar ao
pingarelho, discretos, fazedores do seu percurso habitual e natural, descansando, por vezes, até caírem para o lado. E não muitas vezes sem holofotes, sem apoios, patrocínios ou foguetes. Não desarmam, aguentam, levam a água ao seu moinho. É por estes que eu hoje me quero bater, estar ao lado, ser cúmplice. Aqueles que, cultivando e lavrando o seu pequeno terreno, dão sinais dos melhores frutos, de brotar a melhor flor. Ah...raios e coriscos. Corajosos. Dão sinais de um tempo outro por vir.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
A Miolo da Rua de Pedro Homem
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| Galeria Miolo na Rua de Pedro Homem |
Em Janeiro deste ano a Miolo inaugurou a sua primeira exposição de fotografia, e que é
o resultado do seu primeiro mês de existência e abertura ao público.
Aliás, quem descobriu, entretanto, o espaço passou de imediato a fazer parte da
exposição – ainda que de forma livre e espontânea vontade – pois bastava
deixar-se fotografar em lugar próprio, à entrada da galeria. A exposição
inaugural intitulou-se “Work in Progress” e mostrou a todos os que visitaram
aquele espaço e viram esta ideia e conceito em movimento, descobrindo assim as
diferentes fotografias expostas consoante a passagem dos dias, aproveitando
para de algum modo conhecer o seu interior e o que esta dupla fundadora tem
para “oferecer”.
Vitor
Marques e Mário Roberto pressentiram ser este o momento para combinar as
capacidades criativas de ambos e contemplarem a Miolo, enquanto editora, aliada
ao projecto Malavelha Photografia, que recuperará assim os primórdios da
revelação fotográfica, demonstrando o que o passado das imagens nos pode hoje
ainda oferecer. Esta ideia antiga foi posta em prática com um risco diminuto
por estes assumido, conscientes que estão que após a “Miolo” outras iniciativas
semelhantes irão ter lugar no "miolo" citadino.
Ao longo deste ano, a
Miolo tem já várias actividades agendadas, pretendendo, em primeiro lugar,
funcionar como espaço de galeria de fotografia e ilustração, seguindo-se à exposição de Paulo Prata, autores como Carlos Medeiros,
Luísa Aguiar, Ian Allaway entre outros, podendo ainda os visitantes da galeria
adquirir vários múltiplos de artes de artistas conhecidos da nossa praça –
Tomaz Borba Vieira, José Nuno da Câmara Pereira, França Machado, Pedro Cabrita Reis,
Alice Geirinhas, Inês Ribeiro, André Laranjinha ou simplesmente a Agenda Luz, de vários
criativos micaelenses, para o ano de 2016.
Ontem, escrito numa parede da cidade
O pintor inquieto sentia-se impotente a pintar o que quer que fosse. Saiu de casa a pensar que se juntasse todas as cores surgisse uma só cor que não tivesse visto ainda.
nunca se diz adeus
não dá melancolia, é uma saudade concreta, nada tem de
nostalgia, ninguém se esquece de nada, a memória arrasta viagens, credos,
angústias, glórias, a nossa fatia de vida lembra-se com força para marcar a
fogo uma alegria inatingível e próxima como a fúria da água, tão distante como
os passos numa órbita à descoberta de uma vocação
não estamos por ordem, apenas somos diferentes, há lixo da
época ouro hoje, deitam-se fora coisas discretas da altura que agora nos deixam
a pele em arrepio, fica o pavio duro e rígido, nem na morte (ou muito menos na
morte) alguém é abstacto e até já nos esteja destinado o futuro
nada é impossível ou verosímil quando vem ter connosco sem
pedir licença ou fazer cerimónia, e o amor, o amor, a essência mais perene,
dura o que durar, para além de nós se lhe aprouver, somos apenas uma personagem
– entre milhões – atentos ao momento exacto da nossa voz, somos líricos, somos
tenazes, devemos louvar esse legado e bem querer-lhe.
nenhuma palavra ou imagem é definitiva, nenhum testemunho
desaparece, nenhum gesto passa por aqui em vão, o tempo tudo regista e só os
homens dão por isso. O mais frequente é o mundo alarve que nos cerca, alimenta
e devora, não nos dar muita importância e um dia nos vir buscar quando já não
estivermos à espera
nunca se diz adeus
Joaquim Castro Caldas in “Mágoa das Pedras”, Deriva Editora.
Canção do Mar Aberto
Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.
Armando Côrtes-Rodrigues, in Planície
Inquieta.
sábado, 2 de abril de 2016
Santa Clara à Tardinha
Cai a luz sobre os teus olhos
estupidamente verdes enquanto
inalo maresias do último Março
canto Primaveras fortuitas por cumprir
assim o calor dos dias ampliados
encubro um disfarçado contentamento
e talvez realize festa a preceito
numa quase infelicidade arquitectada
Cai a luz sobre os teus olhos
estupidamente verdes enquanto
absorvo fogos deste celeste céu
calo todas as mágoas e as pedras
estorvos antigos por transpor
conquisto um aceno e isenção
e porventura me concentre
nessa mínima alegria possível
estupidamente verdes enquanto
inalo maresias do último Março
canto Primaveras fortuitas por cumprir
assim o calor dos dias ampliados
encubro um disfarçado contentamento
e talvez realize festa a preceito
numa quase infelicidade arquitectada
Cai a luz sobre os teus olhos
estupidamente verdes enquanto
absorvo fogos deste celeste céu
calo todas as mágoas e as pedras
estorvos antigos por transpor
conquisto um aceno e isenção
e porventura me concentre
nessa mínima alegria possível
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Não é Mentira, é Mesmo Verdade: uma Missiva de Janeiro Alves no Primeiro de Abril!
Caro Doutor
Mara,
Vejo que as
suas fontes de informação há muito passaram o prazo de validade, e actualmente
não passam de “lixo”. Temo que esteja a ser ludibriado pelas companhias e infectado
pelos andrajosos recantos que frequenta, já para não falar dos malefícios dos
vícios que não consegue largar. Todos estes factores levam-no a formular
cenários imaginários que em nada correspondem à minha realidade. Não fossem
estas cartas pessoais, e as minhas credenciais arderiam em fogo posto
premeditado, ainda que revestido de uma certa negligência atenuante. Não me
escuso porém a incluir-me na culpa gravosa destas inverdades, pois o facto de
não o pôr a par das minhas inquietações mais amiúde também contribui para essas
suas construções fantasiosas. Suas, e dos seus amigos.
Numa
situação normal, seria uma perca de tempo relatar-lhe o meu quotidiano actual
de forma detalhada, mas a circunstância assim o exige. Pois fique sabendo, Dr.
Mara, o que tenho feito nos últimos meses. Acordo por volta das 9 da manhã,
visto o fato de treino e vou ao café. Aproveito para ler a bola, enquanto bebo
um café acompanhado de um pastel de nata. Com o estômago já forrado, bebo duas ou
três minis enquanto discuto com o empregado os acontecimentos da última
jornada. De seguida vou ao mercado, e compro dois peixes, um para o almoço e
outro para o jantar. Às vezes dois bifes, um para o almoço e outro para o
jantar. Depois do almoço dedico-me a actividades lúdicas, tais como rever a
minha colecção de selos ou fotografias antigas, lavar o carro com a mangueira,
alimentar com os restos do almoço as minhas plantas carnívoras do jardim, ou
simplesmente ver vídeos do México 86. Ao fim da tarde nunca perco o Preço Certo
em Euros, e depois disso o habitual itinerário – novela, telejornal, jantar,
novela. À noite vou à tasca do Victor, que tem um bom bagaço das Beiras, e jogo
uma suecada com amigos. De seguida dirijo-me aos meus aposentos, visto o meu
pijama às riscas, e deito-me. Nunca adormeço antes de ler duas ou três páginas
do meu livro de auto-ajuda, e de engolir duas cápsulas de Cálcio Mais.
Como vê,
esse indivíduo dissertador de Alfama que se pavoneia pelos salões da
intelectualidade Lisboeta está longe de ser Janeiro Alves ou algo que se
pareça. É certo que tenho vindo a alterar os meus hábitos, mas lá terei as
minhas razões, e obviamente não lhas poderei transmitir, sob pena de se
esvaziar por completo a capa de incerteza que paira sobre a minha existência.
No que
respeita aos desinfectantes intestinais e paneleirices revigorantes,
aconselho-o a experimentar uma boa feijoada à Transmontana com vinho tinto da
Bairrada e vai ver o que é vigor e desinfecção! Uma limpeza. De qualquer forma,
sei que apesar destas mariquices de gengibre, o Doutor se trata bem. Gosta de
dar ao bigode, como se costuma dizer. E é por isso que lhe envio à parte, num
tupperware, os seus filetes de peixe favoritos, adquiridos no inigualável Pitéu
da Graça. Espero que aprecie.
Por fim, não
poderia deixar de referir que envidarei todos os esforços para estar presente
na inauguração da exposição da nossa muy amiga Miriam Manaia, pelo que se nos
encontrarmos, vêmo-nos concerteza. Apesar das suas obras mais emblemáticas e
por si referidas, vou propositadamente para admirar de fascínio e estupefacção
aquela que para mim é o ex-libris das
suas obras, o “avultado desejo de cobrição”. Há anos que a tento adquirir.
Quanto ao seu périplo pelas universidades do país, é uma óptima notícia, pois
enquanto andar ocupado com essas matérias não terá tempo para espalhar boatos
espalhafatosos e alarves sobre Janeiro Alves, que é como quem diz sobre a minha
pessoa.
Dito isto, e
porque a missiva já vai longa, sublinho que o meu caro amigo ainda vai a tempo
de reverter o processo de degradação da minha imagem pública além-mar. Não me
leve a mal por insistir nesta questão, mas será fundamental para a novidade que
lhe quero dar – Pretendo candidatar-me a Presidente da República Portuguesa.
Com elevada
estima e sentido de estado,
Janeiro
Alves
5 x Novalis
-“Os órgãos do
pensamento são as partes genitais da natureza.”
-“A vida é uma
doença do espírito, uma acção apaixonada.”
-“Os jornais são já
livros feitos em comum. “O escrever em comum” é um sintoma interessante que faz
prever um grande aperfeiçoamento na arte da escrita. Talvez um dia se escreva,
se pensa, se aja em massa. Comunas inteiras, países, empreenderão uma obra.”
-“Muita gente se
agarra à natureza porque, como meninos mimados, têm medo do pai e procuram
refúgio perto da mãe.”
-“Pode haver
momentos em que um abecedário nos parece poético.”
Frederico Lopoldo de
Hardenberg dito Novalis in
“Fragmentos” – Tradução de Mário
Cesariny.
quarta-feira, 30 de março de 2016
Carta Primaveril a Janeiro Alves
Caro amigo Janeiro Alves,
Espero que se encontre bem de saúde mental e física
agora que sei que decidiu voltar ao seu hábito de juventude de inalar rapé, uma
superficialidade francesa deixada pelos seus ascendentes da Bretanha e
que o amigo Janeiro nunca abandonou verdadeiramente.
Estou neste momento a escrever-lhe após um
abundante prato de chicharros e um jarro de chá de gengibre. Há dois dias fui
interceptado pela Brigada dos Costumes Morais onde me cofiscaram vários quilos
desse importante desifenctante intestinal e promotor de saúde revigorante. As
autoridades não permitem que me faça munir de tal substância em grandes
quantidades daí eu ter que me desfazer deste material com grande rapidez.
Por aqui, prepara-se o mês de Abril que irá
irromper com ventiladas e frescas novidades, algumas com sabor a renascimento e
outras à espera que algum transeunte desvairado lhes dê uma rápida estocada
final. Já não é novidade nenhuma que a nossa
amiga comum, Miriam Manaia, irá realizar uma grande exposição, reunindo uma parte
considerável da sua excelsa obra intitulada “Deslocamo-nos pelas Cores Incandescentes
do Desejo”. É uma exposição desmedida em perspectiva, pois não faltarão as suas
obras iniciais que a tornaram tão bem conhecida do grande público - “Cerveja
Depressão”, "A Existência Ameaçada Pelos Guarda-Sóis" e “Flecha Furiosa Arremessada”. Ultimamente e, dado que ela revela
alguma fadiga e impaciência, temos passeado junto do mar sempre com os moinhos por
perto. Temos conversado essencialmente sobre as recentes incidências do mundo moderno,
pelo qual terminámos sempre com os olhos marejados e abraçados em soluços
convulsos. Comunico-lhe também que partirei em breve num périplo pelas
universidades portuguesas com a seguinte preleção “Gentrificação: atração ou
repulsa?”, um tema por sinal bem quente e actual para um auditório há muito desinteressado destas
questões contemporâneas.
Sobre si, meu caro amigo, não tenho obtido qualquer
novidade, dado que apenas sei que se tem pavoneado pelos salões da intelectualidade
lisboeta com as obras de Santa-Rita Pintor, Amadeo de Souza Cardozo ou José
Júlio de Souza Pinto. Será que o meu amigo está mais interessado na teoria e
mundanidade das obras de arte do que a sua execução ou materialidade? Soube também que faz prelecções diárias num “Canto de Alfama”, onde disserta sobretudo sobre
a ausência e míngua do sentimento do amor num mundo pós-moderno e apocalíptico.
Despeço-me, aguardando as suas novidades que poderão surgir a qualquer momento
destes dias alargados.
Com estima e amizade,
Doutor
Mara
Acto Político
"A maior parte dos nossos gestos diários são políticos. O consumo, por exemplo, também pode ser um acto político."
Catarina Portas em entrevista a Carlos Vaz Marques, in Público, 27 de Março de 2016.
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