domingo, 28 de outubro de 2018

Castello Branco: O Peso do Meu Coração

Você não é
Quem você pensa que é
Você não tem
Quem você pensa que tem

Pra entender o amor
Faça um trato com a fé
Diz que o céu, quando quer
Força o braço que for
E abrir o mar aí
E abrir o mar, aí

Pra entender o amor
Faça um trato com a fé
Diz que o céu, quando quer
Força o braço que for
E abrir o mar aí

Fica mais leve
O peso do meu coração
Fica mais leve
O peso do meu coração

álbum "Sintoma" de 2017.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A Mala sem Fundo de Vivien Meyer

Caminhamos lado a lado 
ao quarto daquela residência
despertos pela guita e o deleite
do que ambos lograríamos pronunciar
promessas de enigmas a horizonte
contidas pelo fresco hálito da semelhança  
anseios num desejo em torvelinho
sopro imprevisível que alevanta moinhos
demais estruturas assentes em antigos pilastres 
o desatino de espelhos por revelar
já sem o temor da fornalha iminente.

Antes que o Retiro se Assome

Despedimo-nos daquele ensaio imprevisto,
o cabelo molhado por entre as folhas do jornal,
o ar distante a deslocar-se a oriente,
análogo à fuga dos garajaus no anil do céu,
aportamos ali, acanhados em permanecer,
sem garantias dum destino radiante,
o mal que nos fazem os pingos da chuva, dizes,
somente a mortalha, o espiar do sol,
agonia das nuvens, ventosas, inquietas,
vão connosco, sem rota, à deriva,
de olhos bem fechados,
antes que o retiro se assome.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

No Sorriso Louco das Mães de Herberto Helder

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.

Pequeno excerto de do poema «Fonte», de Herberto Helder, publicado em A Colher na Boca, 1961.

domingo, 21 de outubro de 2018

FALTA: Vem aí o nº1


Parte Poética

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar 
Concluindo, só pelas duas da manhã,
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma. 

José Miguel Silva, in "Últimos Poemas", 2017. 

sábado, 20 de outubro de 2018

Da Escrita

"Isabel Lucas: Os Cus de Judas é publicado logo depois de Memória de Elefante. Pela primeira vez aprofunda o tema da guerra.
António Lobo Antunes: É difícil falar de guerra. Não sei se a guerra era tanto o tema quanto o espanto daquele rapaz que teve uma infância agradável. Os meus pais não eram ricos, não havia semanadas; se queríamos dinheiro, tínhamos de o ganhar. O meu pai ganhava pouco. Era o desespero da minha mãe, porque ia para o consultório e, em vez de levar dinheiro aos doentes, levava-os para casa. Não era capaz de levar dinheiro às pessoas porque estavam doentes. E nós éramos seis filhos. Tínhamos uma casa grande que o meu avô, pai do meu pai, tinha comprado. Ele era rico. Chamava-se António Lobo Antunes e eu adorava-o. Quando soube que eu escrevia, tinha eu 8 ou 9 anos, chamou-me e perguntou-me: “Ouve lá, tu és paneleiro?” Eu não sabia o que era paneleiro. E fui perguntar e a explicação deixou-me ainda mais aflito."

Excerto da entrevista de Isabel Lucas a António Lobo Antunes, Ípsilon, 19 de Outubro de 2018.

...

Só tu 
sabes sorrir 
na vertical.

Jorge Sousa Braga in de Fogo Sobre Fogo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Réplica a Janeiro Alves ao Cair da Folha Outonal

Caro Janeiro Alves,

É de madrugada e estava eu já com um pé na porta quando recebi um telefonema que alterou os meus planos.  Encontrava-me assim com duas latas de atum da corretora na mão quando recebi esse inusitado convite que travou a minha ida ao seu encontro: serei júri da maior prova de vinhos do mundo a realizar este fim de semana na marina de Cannes. Somos apenas cinco provadores, um de cada continente, por isso não devo nem posso faltar. É um reconhecimento tardio, mas que julgo vir no momento certo.
Tencionava, por isso, visitá-lo com urgência, mesmo que não autorizem visitas, já que soube, entretanto, que o meu amigo Janeiro não se encontra na plenitude das suas capacidades, o alerta foi dado pela antiga companheira do meu tio, a sueca Vicky Malastrom, confirmando o estado grave e alterado da sua personalidade. Ela enviou-me a tradução singela do poema contido na sua última missiva:“Ajude-me, salve-me desta tragédia!”. Depreendo deste modo que corre perigo, amigo Janeiro Alves. A loucura quando chega é para todos.
E, talvez por isso, transportaria comigo alguma literatura humorística-satírica com o intuito de trazê-lo de volta à realidade. Estou certo que o meu amigo tem levado uma vida com demasiada seriedade, sempre pronto a evidenciar o sacrifício dos dias laboriosos, o longo calvário em que se tornou a sua existência, demonstrando pouca tolerância e propensão para o ócio. E olhe, com toda a garantia do que lhe digo, os mangas de alpaca não tarda irão tomar conta disto.
Enquanto lhe escrevo esta missiva e atiro mais um par de meias grossas para a mala dourada deste enólogo certificado internacionalmente, avisto as açucenas – “a menina vai à escola” – que despontam no meu sublime jardim. Terei, assim, que abandonar por agora os meus estudos relacionados com a botânica ou a higrometria insular tal como essa visita à casa de restabelecimento mental em que se encontra. Espero, por instantes, que esta carta o encontre coberto das mais nobres vestes e calçado com os seus sapatos italianos de cetim afivelados, continue a ouvir concertos de clarim e harpa para coro de pássaros exóticos. Ou que as ninfas e ninfetas lhe continuem a fornecer directamente à sua boca os mais frescos frutos do bosque sussurrando palavras de bonomia aos seus ouvidos bem como esses fontanários de água celestial permaneçam a jorrar como tónico capilar para o cabelo que lhe voltou a medrar aos gorgolhões.
Amigo Janeiro Alves, não tardará muito para que, após o desaguar de vapores etílicos no meu circuito venal, o acompanhe nos corredores dessa casa magistral povoada de folia.
Seu estimado e maravilhoso amigo,

Doutor Mara

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

"Fernando Lemos - Como, não é retrato?" de Jorge Silva Melo

Retrato de Alexandre O´Neill por Fernando Lemos 

    


     "O desejo é a cura do que nos falta. Você só deseja curar aquilo que te está faltando."

Fernando Lemos

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Medeiros/Lucas: Falta um Mês

            
Medeiros/Lucas na Igreja da Mãe de Deus
Pontes I (Março 2017)
(Fotografia de Carlos Olyveira)
             
             

           Já passaram quatro anos desde o primeiro concerto desta dupla, organizado então pelo produtor, João da Ponte, na extinta Tascà da rua de Lisboa, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. À altura deram um concerto para apenas duas dezenas de amigos, tendo servido para  alavancar este apaixonante projecto que conta já com três álbuns gravados: “Mar Aberto”, “Terra do Corpo” e “Sol de Março”. A novidade dos últimos dois discos trouxe também as letras do escritor micaelense: João Pedro Porto. Na memória ainda pairam os concertos na abertura do Tremor 2016, no Museu do Trabalho das Capelas, e aquele que abrilhantou a primeira edição do “Pontes – Gramáticas da Criação”, em Abril de 2017, onde estes tocaram na Igreja da Mãe de Deus. O novo regresso está marcado para o dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense, inserido no evento literário: "Arquipélago de Escritores". Falta exactamente um mês e, por aqui, há já quem aguarde com ansiedade o regresso destes príncipes do atlântico.