domingo, 23 de novembro de 2025

Do Abrigo

   "Talvez o problema seja confundirmos segurança com hostilidade. Queremos cidades aparentemente perfeitas, mas a humanidade é desarrumada por natureza. Faz barulho, ocupa espaço, cheira a sopa e cigarro. Uma cidade que não tolera isso é uma cidade que deixou de ser casa."
 Catarina Valadão, in "A Cidade que não sabe ser um abrigo", Açoriano Oriental, 22 de Novembro, 2025. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Filipe Furtado: As Primaveras Outonais!

  “Como Se Matam Primaveras” é o título do novo trabalho musical de Filipe Furtado Trio, três anos depois de “Prelúdio”, álbum debutante. Este novo trabalho anuncia uma transição gradual da guitarra para o piano, onde Filipe Furtado partilha o palco com os músicos Paulo Silva (bateria) e ao Filipe Fidalgo (saxofone). 
       Desta feita a solo, o músico açoriano prepara-se para voltar a casa em Dezembro e tocar num concerto ilustrado no FLOP – Mercado da Banda Desenhada e do Fanzine, no próximo dia 6 de Dezembro, na Biblioteca Arquivo Municipal, em Ponta Delgada. Entretanto, a Douta Melancolia conversou com ele para atestar o seu estado musical.

Douta Melancolia: “Como se Matam Primaveras” é o teu novo álbum editado no fim de Maio. Como é que foi o processo até chegares à edição?
Filipe Furtado: Quando o Prelúdio sai a público, com as demoras inerentes a um primeiro lançamento, já estava noutra fase de pensar a minha linguagem e a minha composição e já a iniciar o processo de fazer novas canções, de continuar a compor material novo. Depois foi começar a trabalhar esses temas com o restante trio, integrar alguns nos repertórios ao vivo, de forma a muscular essas composições, perceber que caminhos poderiam seguir. Nas questões pragmáticas de gravações, mistura e masterização levamos quase dois anos a terminar o álbum.
DM: O que é que estás a preparar para os concertos ao vivo?
FF: Os concertos ao vivo são onde a magia acontece. Todos os concertos são diferentes, principalmente, onde pode haver mais improvisação. Tento sempre pensar como posso fazer as coisas melhor ou de forma diferente, muitos vezes ajustando também ao estado de espírito com que subimos a palco. Alguns poemas do álbum ganham um outra vida em palco, trocamos as sonoplastias e os floreados minimalistas por uma nova vida harmónica e melódica, de forma espontânea que nós os três seguimos intuitivamente. 
DM: Quais são os motores essenciais à criação/processo criativo das novas músicas?
FF: Penso que, em primeiro lugar, essa transição gradual da guitarra para o piano. Sentia que a guitarra, o meu primeiro instrumento, já não me permitia percorrer os caminhos que começava a imaginar para a música que queria fazer/escrever. O tempo também é um factor de mudança grande. O "Prelúdio" havia sido o primeiro álbum, inevitavelmente para mim um compêndio com as primeiras experiências a compor, a escrever, a musicar poemas e, ainda para mais, já desfasado no tempo. Um segundo álbum já vem com outra maturidade, menos desconhecimento sobre todo o processo de gravar um álbum, vem com essas outras referências que passara a escutar com outra atenção. Vem, certamente, muito da experiência em palco que fui adquirindo e desenvolvendo com o Paulo e com o Fidalgo enquanto trio. Em função dessa possível maturidade também uma escrita que também transmita maior pensamento e questionamento político e filosófico. Claro, a tentativa de abordar a música próxima de linguagens do cinema ou da fotografia. Interessa-me muito essa ideia de viagem, da viagem que esses formatos nos permitem também pela nostalgia, pela melancolia, porum contexto do tempo e espaço. Foi propositado todo o processo fotográfico analógico para as capas de singles e do álbum "Como Se Matam Primaveras". Os livros são sempre uma foto importante para imaginar e dar corpo a canções. A "Ada" é uma leitura musical sobre um romance de Vladimir Nabokov com o mesmo título, por exemplo, um dos escritores que lia ainda nos tempos das aulas de literatura russa na Faculdade de Letras de Coimbra.     
DM: Este disco dá continuidade ao “Prelúdio”?
FF: Acho que o único elo de ligação é ao single do "Prelúdio", a canção "Uma Coisa Linda de Morrer", que havia sido a última a integrar o alinhamento do primeiro álbum e já representava uma transição para o piano, para os teclados. Entre nesses novos horizontes instrumentais e cinematográficos que começava a procurar. Há um afastamento óbvio da guitarra, até dessa influência muito grande do cancioneiro do Brasil, da Bossa Nova. Estava a voltar a querer abraçar o jazz, pelo menos nas suas formas contemporâneas menos verticais, mais abrangentes. Comecei a ouvir muito a cena UK Jazz, que é uma mistura muito grande e muito versátil. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Tira o Disco e Toca ao Vivo

A Indústria Musical em Portugal
João Gobern

     A pequena indústria musical portuguesa  mudou muito nas últimas décadas, parece ser esse o diagnóstico  feito pelo jornalista João Gobern. A começar pela ideia de que "antes faziam-se concertos para vender discos. Agora editam-se dicos para conseguir concertos.". A difusão das bandas e dos seus trabahos é a norma visível num tempo em que as plataformas electrónicas de divulgação jogam um papel fundamental no acesso do público às bandas com mais audiência, que depois podem ou não realizar concertos. A edição deste ensaio do antigo director do semanário musical Se7e pertence à Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Do Estudo

 Estudo sugere que primeiro beijo pode ter surgido há 21 milhões de anos
in Jornal Expresso, Lusa. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Ceausescu...até Brejnev

Surda de Eva Libertad

Surda de Eva Libertad, 2025 

 Esta película põe em causa o nosso sentimento básico de vivermos de acordo com a dita normalidade. Àngela é surda e vive uma vida feliz com Héctor, o seu companheiro. Entretanto, eis que chega um novo membro à família e tudo se altera. Eva Libertad consegue dar-nos essa dimensão de inadequação do personagem principal, torna-nos cúmplices desse desconforto ao jogar com o som e o silêncio, a incomidade de quem pouco ou nada escuta. Trata-se de "outro mundo" a precisar de compreensão, quem sabe, outro olhar e, porque não, outro sentir. 

Bestiário dos Rios

BD de Filipe Felizardo
Coletivo Guarda Rios 
   Como podemos conhecer as novas espécies que se encontram nos nossos rios? O Coletivo Guarda Rios fomenta acções artísticas participadas, apelando ao envolvimento das comunidades - caminhadas, dinâmicas de grupo, jogos, desenhos, instalações na paisagem - e que para isso junta gente das artes plásticas, tecnologia, arquitectura, ecologia e outros interessados. Recentemente estiveram nos Açores, na Ilha de São Miguel, na Bienal do Walk&Talk onde apresentaram, conjuntamente com a comunidade escolar da Ribeira Grande, um projecto junto das quedas de água e ribeiras.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Um Poema de Gastão Cruz

 Where are the songs of Spring? Ay, Wheree
are they?
Think not of them, thou hast thy music too.

Keats, To Autumn

Não penses nas canções da Primavera que
duraram o tempo que deviam
é do Outono o som destas planícies
destes corpos talvez demasiado
consumidos

Ouve os frutos da música é o tempo
de nebulosos frutos 
cede às livres tempestades
do vento à 
alegria que te magoa os lábios 

Não penses nas canções da Primavera na
beleza que morre
no veneno da terra
consumirás ainda a parte do meu corpo
mais tardia

A beleza que deve então
morrer 
dentro da alegria escolherá 
ruína terra som melancolia

in "Os Poemas - 1960-2006", Assírio &Alvim.

O Sítio Inverso

Um sítio 
onde o mar corre prós rios
onde a luz que há de dia 
é de noite que alumia

e o verão é a estação dos frios

Um sitio 
Onde as coisas que há de pé 
Estão sentadas 
E onde o vento ao soprar 
deixa as coisas mais paradas

Um sítio branco
um sítio tal que o deserto aqui
é floresta tropical 
e o lume é gelo 
e a montanha vale

Um sítio roxo
um sítio que é o inverso dos lugares 
aqui o são é coxo
e o cego rasga os mares

Inventar um sítio assim:
fazê-lo de tão sábios traços
que ao supores fugir de mim
me venhas cair nos braços
.

João Habitualmente, in  Poemas em Peças - Quase Dito, Fevereiro de 2014. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Era uma vez uma Capital da Cultura...

       Não havia apenas mais filmes para ver na tela grande, peças de teatro para fruir, bons concertos de música para assistir, mas também muito mais gente envolvida nas ditas actividades culturais, mais gente capacitada para realizar peças de teatro e estar em palco, outras ainda que pudessem arriscar realizar filmes, interpretar papéis no cinema português e estrangeiro, mais juventude a tocar nas filarmónicas, pessoas mais capacitadas para organizar e promover actividades culturais. Sim, é verdade, mais espectadores emancipados, críticos e intervenientes do espaço público, impulsionadores de eventos exigentes, reflexivos, aglutinadores, divertidos, etc. Enfim, que possa ser um momento de partilha e reunião, uma possibilidade de mobilizar e convocar a esperança...

Verso dos Divine Comedy

 The heart is a lonely hunter 

domingo, 16 de novembro de 2025

O Homem de Argila de Anaïs Tellenne

O Homem de Argila, 2023
   Dois  actores surpreendentes, Raphael Théry e Emmanuelle Devos, um cenário bucólico, esteticamente imponente, compõe este instigante filme da  Anaïs Tellenne. O tema gira em torno da arte e os limites do artista na sua relação com o objecto da sua arte, o seu modelo, a sua paisagem. Até que ponto podemos usar o objecto da nossa arte e logo abandoná-lo quando este se encontra concluído? Anaïs Tellenne filma com sensibilidade, sabe esculpir esta narrativa com foros de fantástico mas que é sobretudo um hino à arte, à poesia visual e à criatividade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Espera-me

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos 
Eu regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Caminho, 1958.