A capa azul celeste
anuncia “Música Açoreana”, inclui Música e Sons das Festas do Senhor Santo
Cristo, álbum gravado pela Stanton Productions, New Jersey, em 1976, pela mão
de John Carey. Um disco completamente
desconhecido para ouvir com a ajuda da agulha em forma de descoberta e com elevada curiosidade dado o
passar do tempo e da memória. Entretanto, a data histórica deste disco desperta
e aguça a vontade de querer conhecer e saber quais razões que se encontram por
detrás deste. É certamente mais um disco de recolha de música açoriana por
gente culta e interessada, com a particularidade de uma capa azul celestial e a
imagem de um poderoso milhafre de asas caídas e com as estrelas das nove ilhas açorianas
na capa. Este objecto é revelador de alguma pomposidade na altura da gravação a
que, segundo os autores, contribuíram para ele centenas de músicos e cantores açorianos. Gravado e produzido
por John Carey, inclui no lado um os respectivos temas do Cancioneiro açoriano
já conhecidos: “Pézinho”, “Fado Fadista”, “Bairro Alto”, “Chamarrita” e as mais que
conhecidas e festivas “Cantigas ao Desafio”. O que permite abrir a uma maior
curiosidade é a inclusão no lado dois de uma mistura de sons que inclui a Folia
do Maranhão, sons de pássaros na montanha de São Miguel, bandas de música em coretos, fogo
de artificio, coros religiosos e bandas de música no Domingo da Festa. Enfim, meia hora de experiências sonoras em território açoriano. Música e sons para ouvir num gira-discos perto de nós.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
50 anos de "Persona" de Ingmar Bergman
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| "Persona" Filme de Ingmar Bergman(1966) |
Ingmar Bergman
realizou “Persona”, em 1966. Em português ficaria conhecido por “Máscara”, nome
bem elucidativo de um argumento que se vai revelando por camadas, que
se vai descobrindo à medida que se desenrola o fio desta trama
psicológica. Liv Ullmann é “Alma”e Bibi Andersson é "Elisabeth Vogler". A actriz
encontra-se em silêncio profundo, facto originado a meio da sua actuação na
peça “Elektra”, de Sófocles, acontecimento que a leva a isolar-se dos outros, em profunda
apatia e solidão. A enfermeira vai lentamente tornar-se cúmplice da actriz, expondo-se,
também ela à fragilidade e à força do inconsciente. Ingmar Bergman contou, à
semelhança de muitos dos seus outros filmes, com a mestria da fotografia de Sven Nykvist.
Cinquenta anos depois, “Persona” permanece como um marco fundamental da
carreira do realizador sueco.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Raul Brandão e Domingos Rebelo: Pintores da Luz e da Cor
![]() |
| Ilustração de Mário Roberto |
Por aqui, na Ilha de São Miguel,
Domingos Rebelo, dedicava-se de corpo e alma aos pincéis, forçando as linhas e
os traços ao entardecer, tingindo telas pela noite dentro. Asceta e com o corpo
exausto de tanto colorir rostos, delinear pessoas, abarcar a vida que discorria
à sua frente, regressou a Lisboa alguns anos mais tarde. À semelhança de Raul
Brandão, gostava de ser cúmplice da paisagem açoriana e da luz que o rodeava,
ambos sustentavam um especial apego pela terra que pisavam, exaltando
profissões e todos aqueles que nelas trabalhavam. Eram, sobretudo, crentes de
uma força maior, possuíam, por isso, fé nos homens e na vida. Foram incansáveis
viajantes, contemplaram o mundo físico, trabalhadores tenazes e observadores
inquietos da vida dos outros ao mesmo tempo que intervinham no tempo e na
sociedade que lhes calhou em sorte viver. Ambos necessitavam confirmar a leveza
e a urgência da arte. Eram cultos, exigentes, e herdeiros de uma tradição
humanista. Cada um à sua maneira, forjou um imaginário, cumpriu um sonho,
arriscou ir mais além na missão de viver uma renascença, alcançar um sentimento
de pertença, acrescentar um fulgor novo. Domingos Rebelo, jovem, e, Raul
Brandão, maduro, cobriram de luz e de cor um país e ilhas que sempre se
quiseram sombrios, toscos, pesados. A idade tinha vinte e quatro anos a separá-los. No primeiro quartel do século passado ninguém melhor do que
eles soube “pintar” as paisagens humana
e natural do continente e das ilhas. Devemos aos dois essa evocação e o
sentimento vital do gigantesco legado que nos deixaram. Agradecidos,
continuaremos!
Torna-Viagem
Vem guardar nestas rimas meu canto vadio
Minha galera de sonhos, de inquietações
Viageiro num
fado oculto e sombrio
Torna-viagem,
regressos, desilusõesTorna-viagem, no mar das canções
Se as
palavras se cansam no tempo
Este fogo
não deixa de arderSe as canções incendeiam a praia
Esta noite não hei-de morrer
Vem guardar
o silêncio na cinza do tempo
Vem esquecer
ventanias e vendavaisVem bailar o veludo na noite fagueira
Serei o barco e tu hás-de ser o cais
Serei o barco, tu serás o cais
Se as
palavras se cansam no tempo
Este fogo
não deixa de arderSe as canções incendeiam a praia
Esta noite não hei-de morrer
Textos Zeca Medeiros, Desenhos: Alberto Péssimo ( Março, 2006)
Uma Experiência com Riscos
"Quando escrevo falo da minha experiência porque é o material que tenho. Unamuno dizia que falava dele porque era o que tinha mais à mão. O me interessa é converter a minha experiência numa experiência de todos os leitores. Isso tem riscos, mas quem não quer correr riscos não é escritor."
Javier Cercas
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
"Contigo aprendi coisas tão simples como"
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente.
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente.
Ruy Belo
44
Mas de onde vem esta manhã que, apesar de tudo,
não nos abandona? Somos privilegiados.
O mar é mais catastrófico na televisão
e nos sítios onde felizmente não estamos.
A terra treme debaixo dos outros
e o sol mantém uma imoralidade média e
(neutra
sobre grandes assassinatos. Homens
enterram corpos em quintas privadas onde
plantas robustas nascem com doenças imperceptíveis.
não nos abandona? Somos privilegiados.
O mar é mais catastrófico na televisão
e nos sítios onde felizmente não estamos.
A terra treme debaixo dos outros
e o sol mantém uma imoralidade média e
(neutra
sobre grandes assassinatos. Homens
enterram corpos em quintas privadas onde
plantas robustas nascem com doenças imperceptíveis.
Gonçalo M.Tavares, in "Uma Viagem à Índia".
Caminhos
Caminhos por
entre prados
Dos quais
não sabe ninguém
Nem sequer
onde começam
Nem onde vão
dar também
Caminhos
sempre isolados
Abertos num
simples traço
Só tendo em
frente o tempo
E o puro
espaço…
Rainer Maria Rilke (Tradução de
Armando Côrtes Rodrigues, que aproveitou para dedicar ao seu amigo, Domingos
Rebelo, pintor micaelense que fixou residência em Lisboa, em 1942).
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Éden
"A melhor
homenagem que podemos fazer ao espírito d`As
Ilhas Desconhecidas é preservar a
paisagem, protegê-la do betão e de infra-estruturas desnecessárias. As
companhias de baixo custo poderão revolucionar o mercado da aviação, trazer
mais turistas, mas não creio que o arquipélago passe a ser um destino de
massas. A falta da luz e do Sol de outras latitudes dão-lhe alguma protecção, contudo
não há isenção de riscos. Acredito que o turismo nos Açores será sempre
destinado a diferentes nichos de amantes da natureza, a viajantes sem pressa e
pacientes perante os humores atmosféricos. Espero que As Ilhas Desconhecidas nunca venham a
ser lidas pelas futuras gerações como um lamento por um éden que se perdeu."
Paulo Lisboa, in "Nos
Açores, com Raul Brandão no século XXI"- Boletim Cultural Fazendo nº97.
Os Dias Fevereiros que se Anunciam
Janeiro, enquanto mês inicial de um novo ano,
promete sempre muito mais do que aquilo que cumpre e, talvez por isso, parece
demorar uma eternidade até cumprir as suas demandas e promessas. Por vezes,
traz com ele algumas surpresas, inquietudes e demais devaneios meteorológicos,
sendo assim incumbido de enxugar de forma irrepreensível os nossos cabides e existências.
Janeiro passou entretanto, despedindo-se de forma líquida e cordial, arriscando
novos desenvolvimentos no ano impar que ainda demorará a chegar, deixando
certamente um lastro de indescritível e húmida saudade. Venha, portanto, Fevereiro, esse
mês que nem damos por ele, de tão curto que é, e que quase nos deixamos
enternecer pelo seu particular nome volátil e diminutos dias. Como desafio, devia ser
possível esboçar um pequeno diário passado todo ele neste mês diminuído e, se
possível, explicitando a rapidez da sua passagem, o estado cronicamente frio da
sua temperatura, os dias curíssimos e a escassez da luz e de brilho. Um quase mês por completar. É por isso
tempo de procurar canções ou poemas que falem da alegria e melancolia de Fevereiro e é tempo agora de anunciar por aqui os versos
de “Caligrafia”, dedicados a este mês num outro calendário existencial: "Numa manhã de Fevereiro/Apaixonei-me pela tua caligrafia/Daí em diante
fiquei a saber/Este é o mês em que se sofre menos.”
sábado, 30 de janeiro de 2016
Saída
temos na terra um dizer
Que é diferente do de fora
Temos as vogais bem cheias
Encanadas pelo vento
Do tempo que se demora
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo
vem à ilha
Só para ver o que ela tem
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo
vem à ilha
Só para ver o que ela tem
Quatro tempos num só dia
Cada minuto são cem
vem à ilha
Talvez fiques mais um dia
Porque o avião não vem
Temos as vogais bem cheias
Encanadas pelo vento
Do tempo que se demora
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo
vem à ilha
Só para ver o que ela tem
nesta terra temos tempo para gastar
Nesta terra temos tempo
Nesta terra vemos o tempo passar
Nesta terra somos tempo
vem à ilha
Só para ver o que ela tem
Quatro tempos num só dia
Cada minuto são cem
vem à ilha
Talvez fiques mais um dia
Porque o avião não vem
música dos Bandarra (Letra: Miguel Machete), in álbum Bicho do Diabo, 2012.
O Mapa da Minha Experiência
"Quando fiz 50 anos, deixei de contar os lugares em que tinha vivido.
Às vezes por poucas semanas, às vezes durante uma década ou mais, o mapa mundo
consistiu, para mim, não na sua convencional representação num globo, como o
que tinha na minha mesa de cabeceira quando era criança, mas numa cartografia
pessoal em que as maiores massas de terra eram os lugares em que eu passava períodos
maiores, e as ilhas os locais de passagem mais curta. Tal como o modelo do eu
concebido por fisiologistas em que o tamanho de cada traço corresponde à
importância que lhe atribuímos na nossa cabeça, o meu modelo do mundo é o mapa
da minha experiência."
Alberto Manguel
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
À Procura da Biblioteca Ideal
As bibliotecas
são, por vezes, lugares demasiado solenes, cerimoniosos e, porventura, ainda
bem. Uma biblioteca é uma casa de cultura viva, guardiã máxima do saber e da
memória e, porque não dizê-lo, ponto de descoberta de mundos novos, espaço,
portanto, de vários encontros entre quem lê e quem escreve, impulsionador da
troca de saberes e de experiências e, quem sabe, um lugar propício ao
aparecimento de novas vozes literárias, podendo estas ir de encontro ou não ao
que sentimos e queremos deste mundo em que vivemos. Esperemos, entretanto, que
novas utopias brotem.
A memória
de infância que guardo de uma Biblioteca não é a melhor. Estou ainda a ver uma
senhora bibliotecária numa minúscula sala com livros, ali com os seus cabelos
brancos encaracolados, o rosto duro e fechado, os seus olhos negros enfiados
pelos óculos de vidro de garrafa, a instigar terror quando os livros passavam o
prazo de entrega. Era vê-la aos berros a ver se envergonhava os faltosos, a
controlar a ficha dos incumpridores e a verificar o estado dos livros um a um
(maioritariamente, banda desenhada), chegando mesmo a ruborizar tudo e todos,
só para que víssemos o sacrilégio que tínhamos acabado de cometer, fosse aquilo
que fosse. Devo ter demorado alguns anos até voltar a entrar numa biblioteca
pública.
Os anos
passaram e, à volta das cidades portuguesas, as novas bibliotecas abriram-se aos novos tempos e
diversificaram a sua actividade, imprimindo diferentes funcionalidades, deixando
assim de ser exclusivamente depósitos de livros ou consulta de documentos, para
ser também lugares de estudo ou pesquisas de livros, deslocando espaços para a fruição
e prazer associado à leitura, tais como salas
dedicadas à Hemeroteca (material periódico) ou videoteca (cinema e
documentários), para além de outras salas dedicadas às crianças, com leituras de histórias e
conto infantis, preparando assim novos e futuros leitores! As bibliotecas
poderiam ter também um espaço consagrado ao absoluto silêncio, à leitura e introspecção
pura, onde nem sequer fosse possível ouvir a voz humana.
Ultimamente,
partilho com frequência e com muitos outros a Biblioteca Municipal e Arquivo de
Ponta Delgada, em São Miguel, apreciando deste modo a beleza e largueza do seu edifício,
trata-se de um projecto de recuperação do antigo Colégio Jesuíta, contém no seu
interior diferentes espaços, sendo visitada diariamente por centenas de
estudantes e investigadores, possui pátios exteriores muito bonitos (um deles, conta
com uma escultura do João Cutileiro). Proporciona também um agradável serviço de
bar, com uma gastronomia cuidada e diversificada e um serviço de empréstimo de livros vasto e bastante
actualizado, pois como diria o físico, Carlos Fiolhais, “investir em belos
livros é investir na beleza e a beleza é sempre consoladora”. Consolemo-nos, pois!
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