sexta-feira, 1 de maio de 2020

Da Certeza

           "A única certeza que tenho é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmin. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto  e, no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler...reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir esta inquietação surda."

Cristina Taquelim, in Diário da Quarentena, Jornal Público, 18 de Abril de 2020.

"-O que é a liberdade nas circunstâncias que estamos a viver hoje?

           -Para nós, burgueses que podemos estar confinados, é simples: acordar, lavar corpo e  casa,  ler, discutir, pensar, contrapor, falar com os outros por todos os modos possíveis, dormir. Mas somos poucos. Para a imensa maioria não é nada. Nem nunca foi."

Jorge Silva Melo in "PVEC", Casa da Achada, Abril 2020.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Há vida em Marte?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Oráculo

o que aí vem?
o que vem lá?
quem saberá?

ninguém sabe onde está quem saberá

dizem que só deus sabe 
mas ninguém sabe de deus
onde andarará?

ninguém sabe o que deus sabe 
e ele disse saberá?

quem saberá 
o que aí vem e o que depois virá?

entre tantos enganos alguém acertará?

entre o que aí vem é o que vem lá

Luís Xarez, in "assim", Dezembro de 2019. 

Da Racionalidade

"A racionalidade é uma obrigação  que temos como espécie."

Carlos Fiolhais, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Abril 2020.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O “Ardina” Chega Sempre à Hora Certa


Não se avista ninguém nas ruas e, subitamente, há um homem que canta, mal e desafinado, é certo, mas canta, há outro que grita frases soltas e desconexas e há ainda quem distribua, sempre que pode, jornais aos amigos. Os jornais encontram-se agora sem compradores, a versão impressa vende muito pouco. E desde que o confinamento começou, aguentam-se os mais robustos financeiramente, os que já estavam instalados há mais tempo ou aqueles que sempre tiveram um grande grupo económico por detrás. Os jornalistas são pessoas que vivem de palavras, têm que comer, vivem com famílias ou necessitam de pagar as suas contas e encher o frigorífico. Os quiosques abrem a horas certas para que os leitores possam ler as notícias, tactear o virar das folhas, pressentir o cheiro a tinta do jornal impresso.
O “Ardina”, habituado à sua disciplina e hábitos matinais, valoriza os pequenos gestos e este tipo de coisas, já que dá a sua volta higiénica para fazer as suas compras diárias e manter os músculos activos, ao mesmo tempo que faz a radiografia matinal da cidade, acompanhado pela sua objectiva. Uma coisa é certa, ele parece conhecer de ginjeira as pessoas que gostam de ler, aqueles que, tal como ele, não passam um dia sem folhear as páginas de um jornal actual, ou mesmo antigo. Talvez, por isso, habituou-se recentemente a bater-lhes à porta, ou então, a deixar os periódicos e as revistas na caixa do correio. “Depois faremos contas!”, diz, despedindo-se com um sorriso nos lábios, como quem sabe das virtudes e dos vícios humanos, ou somente do simples e permanente prazer de ler um jornal. Este ardina não é um ardina qualquer, ao contrário dos ardinas tradicionais ele distribui os periódicos no seu carro, por iniciativa individual, por amizade, por mera atenção ao outro. Sem que ninguém lhe peça ou lhe faça alguma exigência. Este “ardina” é um amigo, um bom amigo, mas contas são contas!

Ananás "Smooth-Cayenne"


"-Onde alimenta a esperança no futuro nestes dias?

-Nos jovens. No céu, à noite. Nos livros."

Alberto Manguel, entrevista de Luís Ricardo Duarte, Jornal de Letras, 8 a 21 de Abril de 2020.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Estou profundamente humilhado

Estou profundamente humilhado
com o silêncio das acácias.
Porque permanecerão assim
estupidamente enigmáticas,
quando eu sei que elas escondem
o infinito das raízes?...
Graníticas, catedrais, transfiguradas,
embrulham-se na bruma 
e riem-se de mim perdidamente 
com seus cabelos verdes,
longos cabelos sensíveis,
simulando ao vento.
......................................
.....................................
Estou muito, muito magoado
com o silêncio das acácias. 

Heitor Aghá Silva, in "Nove Rumores do Mar"- antologia de poesia contemporânea, selecção de Eduardo Bettencourt Pinto.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Um Verso de Lluis Llhac

Compañeros, si buscáis las primaveras libres

Dois Poemas de Daniel Faria

Histórias do País de Helena

Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr do sol
E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar

Ítaca

O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos

in "Poesia", edição de Vera Vouga, Quasi edições, 2009.

Dessa Silente Artéria...

Uma espécie de anjo ferido na raiz

Examinemos também a escrita
O solo negro deixado pelo fogo
O mecanismo semelhante às queimadas
Deixando a terra arável na sua devastação.
Tudo isto serve para retomarmos a pedra onde está escrita
A palavra nova
A pedra onde corre o sangue.
Enquanto perguntas pelas dez palavras.
Põe a boca na palavra líquida
Examina o coração de carne em vez da escrita antiga
O verbo onde jorra a palavra incessante

Há dentro dela uma palavra nupcial

Daniel Faria, in Poesia, Quasi Edições, 2009.