Percebam que a alma não tem uma só cor
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
O Mergulho de Rui Machado
"Parte do movimento e da urgência dos sentidos.
A urgência, porém, consome tudo: consome a vida.
Arrasta-nos para a solidão.
Se for urgente, estamos sós. Que dizer, realmente sozinhos, com as janelas da cabeça fechadas, as portas fechadas, ou nem sequer ter portas nem janelas. Ser-se um espécie de muro do mundo: a última barreira.
A cidade estava deserta.
Chovia________ mas na verdade havia um grande encanto nisso, porque ele nem sempre imaginara uma visão assim: a visão duma cidade de cara lavada sem o afã da multidão nem o corrupio dos automóveis.
Apenas as praças, as ruas, as casas, os jardins, os pequenos recantos.
A vida pacata no interior destas casas de bairro, agora duplicadas no chão alagado_________
É claro um pouco de atenção nos levaria a entrever toda a espécie de ruídos característicos de uma pequena urbe portuária, como a roda-viva do trânsito alvitrando ao longe a delicada manobra dos cargueiros, tanto a entrar como a sair do molhe. Mas a todos se sobrepunha esta permanência, este vazio______ perante o qual sentiu o chamamento da solidão interior."
in Portugália Editora, Janeiro de 2009
sábado, 16 de setembro de 2023
A Natureza da Ausência*
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Da Mesma Substância de Rui Lage
ao Manuel António Pina
isso que assobia nos meninos de bairro,
racionada farinha da primavera
siderado papel sem tintas de morte
amadurando no amor
(e o amor ciente disso),
isso
que lia como notícias da fome em África
racionada farinha da primavera
siderado papel sem tintas de morte
amadurando no amor
(e o amor ciente disso),
isso
que lia como notícias da fome em África
Meia maçã tão só seguiu a lei de Newton
tomou para si a larva outra metade
e cinge a gigante vermelha, num rapto,
o caroço mesmo da branca anã
As fivelas que mastigo
contra o céu da boca,
as espaldas do olhar
esmoendo-se em pó
como se respirasse contra a evidência
de alguém que tropeça
num fio de oxigénio.
in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004.
terça-feira, 12 de setembro de 2023
A Natureza da Ausência*
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Dos Alfarrabistas
"Como cliente de alfarrabistas e livros usados, interessam-me, contudo as marcas do leitor comum. Se um livro tem um autógrafo do autor, interrogo-me em que circunstância o terá o leitor recolhido; se num livro de poemas há um verso sublinhado, releio-o atentamente para lhe tentar discernir a importância - e espanto-me com os pontos de exclamação, questiono os de interrogação, demoro-me a compreender a sinalética variada, os asteriscos, as reticências, os parêntesis curvos e recto.
As livrarias alfarrabistas são os pulmões culturais da cidade por onde respiram os escritores, mas também os seus leitores."
Fátima Vieira in "As livrarias alfarrabistas são os pulmões culturais da cidade", Público, 11 de Setembro de 2023.
A Natureza da Ausência*
sábado, 9 de setembro de 2023
À memória de Stéphane Hessel
Foi por esta altura, há mais de trinta anos, no Festival de Cinema da Figueira da Foz e, através do filme, "Der Diplomat", de Antje Starost e Hans Helmut Grotjahn, que conheci a figura de Stéphane Hessel.
Quem foi Stéphane Hessel? Nascido na Alemanha, em 1917, naturalizou-se francês em 1937, tornando-se embaixador e diplomata ao longo da sua existência, pertencendo à resistência francesa e foi agente do Bureau Central et Renseignements et d´Action, os serviços de inteligência francesa. Acabei, por isso, de encontrar um livro da Planeta Editora de uma entrevista de Stéphane Hessel por Gilles Vanderpooten. Trata-se dum libelo propositivo sobre o futuro das sociedades em que vivemos, uma reflexão viva sobre os direitos humanos e o estado do mundo. À altura, 2011, não tinha havido uma pandemia nem existia uma guerra às portas da Europa, mas vale a pena pensarmos com alguém que esteve sempre na defesa da dignidade e liberdades humanas.
sexta-feira, 8 de setembro de 2023
Dormir Vestido de João Luís Barreto Guimarães
Despede-te
todos os dias de cada coisa
que amas ( a vida é um veneno que
só se toma
uma vez). Descansa os olhos no mundo
(a dor
assinala o centro)
há uma flecha em viagem com o nome
de cada um. É como
apanhar boleia no guarda-chuva de alguém
(deves pagar a viagem exigindo
segurá-lo). Ou
como dormir vestido (estar sempre
pronto a partir ) levando
em ti o
que aprendeste na universidade
do interior.
todos os dias de cada coisa
que amas ( a vida é um veneno que
só se toma
uma vez). Descansa os olhos no mundo
(a dor
assinala o centro)
há uma flecha em viagem com o nome
de cada um. É como
apanhar boleia no guarda-chuva de alguém
(deves pagar a viagem exigindo
segurá-lo). Ou
como dormir vestido (estar sempre
pronto a partir ) levando
em ti o
que aprendeste na universidade
do interior.
in Aberto Todos os Dias, Quetzal Editores, Janeiro de 2023.
A Natureza da Ausência*
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
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