quinta-feira, 9 de maio de 2024
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Abril Continua?
“Abril
não é o mês mais cruel, como dizia T.S. Elliot. Bem pelo contrário, é o melhor.
Pelo menos para nós. Também mistura memórias e desejos, como dizia o original.
Mas não faz germinar lilases: aqui, Abril é anuncio de jacarandás. E dos
cravos.
Começa
segunda-feira. Seguir-se um ano durante qual tudo se dirá, da cruel verdade ao
cómico dislate. Seminários, livros, programas de televisão, filmes, romarias,
investigações e evocações, nada faltará. Se forem poucas as liturgias e raros
os reflexos condicionados, talvez dentro de um ano, saibamos mais sobre nós
próprios.
Talvez sejamos capazes de perceber melhor por que razões a ditadura durou tanto tempo, por que motivos os portugueses deixaram que assim acontecesse. Ou antes, por que não foram capazes de melhor resistir e mais combater. Talvez sejamos capazes de saber melhor por que os portugueses ainda são mais desiguais, pobres, analfabetos e resignados do que outros na Europa. E pode também ser que venham mais argumentos que nos permitam compreender melhor as razões pelas quais, no grande continente que é a Europa, este povo pequeno, pobre e marginal resistiu, sobreviveu e insistiu na sua independência.
Se o meio centenário de Abril não for simplesmente, mesmo em nome da liberdade, a consagração dos actuais interesses, o respeito pela vassalagem e um festival de vingança e de intolerância, talvez as festas tenham valido a pena. Abril não merece louvaminhas, muito menos represálias e desforras. Abril merece liberdade, tolerância e inteligência.
Talvez sejamos capazes de perceber melhor por que razões a ditadura durou tanto tempo, por que motivos os portugueses deixaram que assim acontecesse. Ou antes, por que não foram capazes de melhor resistir e mais combater. Talvez sejamos capazes de saber melhor por que os portugueses ainda são mais desiguais, pobres, analfabetos e resignados do que outros na Europa. E pode também ser que venham mais argumentos que nos permitam compreender melhor as razões pelas quais, no grande continente que é a Europa, este povo pequeno, pobre e marginal resistiu, sobreviveu e insistiu na sua independência.
Se o meio centenário de Abril não for simplesmente, mesmo em nome da liberdade, a consagração dos actuais interesses, o respeito pela vassalagem e um festival de vingança e de intolerância, talvez as festas tenham valido a pena. Abril não merece louvaminhas, muito menos represálias e desforras. Abril merece liberdade, tolerância e inteligência.
António
Barreto, in Público,
30 de Março de 2024.
sábado, 27 de abril de 2024
Volto Sempre ao Café Central
Volto sempre ao Café Central, ao da Ribeira
Grande. As chávenas já não trazem a desenhada letra
Grande. As chávenas já não trazem a desenhada letra
Café Central
anunciam somente a marca do fornecedor, creio
que nunca bebi por uma dessas chávenas antigas. As cadeiras,
pesadas, no confronto da madeira e do aro de ferro que
lhes dá forma. (Passo os olhos pelo Açoriano Oriental, mais
manso nas suas invectivas.)
Na última prateleira da vitrine, altivas, as três últimas bandeiras
a banca, a azul e branca
em pleno coroadas, a republicana
(em desespero de cor, mas não é esse o mais
caminho português?)
têm por baixo, alinhados como se fossem soldadinhos de chumbo,
anunciam somente a marca do fornecedor, creio
que nunca bebi por uma dessas chávenas antigas. As cadeiras,
pesadas, no confronto da madeira e do aro de ferro que
lhes dá forma. (Passo os olhos pelo Açoriano Oriental, mais
manso nas suas invectivas.)
Na última prateleira da vitrine, altivas, as três últimas bandeiras
a banca, a azul e branca
em pleno coroadas, a republicana
(em desespero de cor, mas não é esse o mais
caminho português?)
têm por baixo, alinhados como se fossem soldadinhos de chumbo,
um pelotão de açucareiros em desuso.
Em fila, potes antigos de faiança
capazes de resistirem à pedra funda de pastor
e além do vidro grande da montra
as janelas, as portas do teatro
e a dona Zélia pergunta-me quantos dias vou ficar. Ficar, chegar,
partir. No jardim
os metrosíderos cobrem-se de pisado vermelho
flor de sangue, o sentido desses verbos
depois, a água em queda na ribeira
quando subo a rua do Barracão velho.
João Miguel Fernandes Jorge, in "Lagoeiros", Relógio D´Água, Novembro de 2011.
terça-feira, 23 de abril de 2024
Música para os 50
-Canto
do Amanhecer - Asas Sobre o Mundo, 1989 - Carlos Paredes
-Quando
a Alma Não é Pequena - Quando a Alma não é Pequena, 2006 -
Dead Combo
-
Que Amor Não Me Engana - Venham Mais Cinco,
1973 - Zeca Afonso
- Mai 86 - Querelle,
1987 - Pop Dell´Arte
-Taxonomia - Errôr, 2019 - Linda Martini
-Canção a José Mário Branco - 2 de Abril, 2022 -A Garota Não
-Que Força É Essa - Sobreviventes, 1972 - Sérgio Godinho
-Lembra-me
um Sonho Lindo - Por este Rio Acima, 1984 - Fausto
-Queixa das Almas Jovens Censuradas - Mudam-se os Tempos,
Mudam-se as Vontades, 1971- José Mário Branco
-Soldado - Sitiados, 1988 - Sitiados
-Sete
Naves - Os Homens Não se Querem Bonitos, 1985 - GNR
-Como
um Cavalo Louco - Um Zero Amarelo, 1998 - Um Zero Amarelo
-Hino
à Nossa Luta - Divergências, 1986 - Linha Geral
Desconfiava que isto iria ser assim...
"-Sim, é certo, eu desconfiava que isto iria ser assim”. afiançou com toda a pujança. “-Assim,
como?”, perguntei. Naquele precioso instante desfilavam na minha memória
imagens de pirolitos frescos a escorrer pela garganta, as bicicletas exangues
encostadas ao musgo das paredes, tardes de praia temperada com barracas de tiras
azuis a proteger da nortada, numa frase ouvida e repetida numa eternidade:“-Vem
aí os Canhões!”. Enfim, cinquenta
anos passaram sobre o momento histórico e até parece que tudo isto não passa de
uma canção que ressoa a liberdade em cada um de nós na hora de voltar à carga.
Valha-nos, pois, essa palavra leve e verdadeira com que cunhamos a efeméride. Uma palavra que pretendemos justa, como carne vivificada em nós, uma elevação
maior perante o que ainda poderemos fazer no futuro. “É pouco”, diz-me
quem já não acredita que se possa ter como lema existencial o archote da
esperança! “Talvez”, apaziguo-lhe a raiva e confirmo-lhe a incerteza do tempo sombrio que nos calhou viver. Reafirmo, no entanto, que a mágoa do abandono é grande e não é só desta pessoa em concreto mas também por tudo aquilo
que foi amado e que já não volta, e por isso faço questão de relembrar esse gesto
inicial que retoma agora à sua fonte principal e, quem sabe, ainda se possa
renovar. Acreditemos!
segunda-feira, 22 de abril de 2024
domingo, 14 de abril de 2024
segunda-feira, 8 de abril de 2024
domingo, 7 de abril de 2024
Anatomia de Uma Queda
![]() |
| Filme de Justine Triet, 2023 |
Sandra
Huller possui um rosto enigmático, perfeito para narrativas indagadoras.
“Anatomia de uma Queda”, de Justine Trier, é o filme perfeito para uma actriz
misteriosa, um casal em crise e uma explanação duradoura sobre um homem que cai do alpendre da sua própria casa em
reparação. Justine Trier filma inicialmente os rostos da perda, uma mãe e um
filho que, cada um à sua maneira, estabelecem as coordenadas sobre o que pode
ter acontecido. Pelo meio, há pistas e vestígios desse acontecimento
inesperado. Por último, há um julgamento inverosímil que fortalece ainda mais o
enigma, o mistério, o segredo. O rosto esfíngico de Sandra Huller permanece!
Música Para Abrilar
-Real House - Bright Future, 2024 - Adrianne Lenker
-No Café - Crime, 2017 - João Paulo Esteves da Silva
-Love Comes to Me - The Letting Go, 2004 - Bonnie Prince Billy
-Baby
-
Gal Costa, 1968 - Gal Costa e Caetano Veloso
-Mary Boone - Only God Was Above Us, 2024 - Vampire
Weekend
-Irene
-
Cavalo, 2014 - Rodrigo Amarante
- Island Life - Hadsel , 2023 -
Beirut
-Another Night - Curtains, 1994 - Tindersticks
-Don't Know How To Keep Loving You - Crushing, 2019 -
Julia Jacklin
-White Fire - Burn Your Fire For No Witness, 2014 -
Angel Olsen
-Terminal Paradise - U.F.O.F., 2019 - Big
Thief
-Syreeni - Lilla, 2022 - Anna
Järvinen
-No Café - Crime, 2017 - João Paulo Esteves da Silva
sábado, 6 de abril de 2024
quinta-feira, 4 de abril de 2024
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