sábado, 21 de fevereiro de 2026

Verso de Paolo Conte

 Chissà chissà la nave passerà

Lubo de Giorgio Diritti

Filme de Giorgio Diritti, 2024

     Lubo Moser (Franz Rogowski) é um errante tal como a sua família durante a segunda guerra mundial. Ele é um artista que anda de cidade em cidade a animar as populações. Este, muito embora pertença à etnia cigana ieniche, é integrado à força no exército suíço para proteger as fronteiras. Enquanto é integrado, recebe a notícia que a sua companheira foi morta enquanto protegia os seus descendentes menores ao mesmo tempo que estes eram assimilados no programa eugenista “Kinder der Landstrasse”. A partir daqui, Lubo torna-se um “contra mundum”, vivendo uma vida desesperada, lutando até ao fim pela sobrevivência e recuperação do afeto dos filhos. Uma ode aos sentimentos profundos e dignidade humana, com uma excelente banda sonora. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Das Relações

    Nos supermercados não temos de falar com ninguém, na net não temos de relacionar com outras pessoas...É perigoso para a democracia e para a saúde mental.

David Byrne, Expresso Revista, 12 de Fevereiro de 2026.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Verso dos Orquestrada

Enfio-me nas ruas atiro os olhos ao chão

Vem Lobo!

      "Não é o rio que transborda, são as casas que foram sendo construídas no leito da cheia, não é o mar que se mostra bravio, são as pessoas que insistem em construir onde isso nunca deve ser feito. Não é a mata que arde, são as povoações que deixaram de estar cercadas por hortas e arvoredo mais resistentes, mas algo distantes. Enfim, gritar "Vem Lobo" não parece ser suficiente e voltar a estudar Geografia devia ser mais que obrigatório. "

Francisco Maduro Dias, in Açoriano Oriental, dia 16 de Fevereiro de 2026. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

A Incrível História do Carteiro Cheval

Imagem daqui: https://www.cinemacity.pt/
Filme de Nils Tavernier, 2018
  Será que a dedicação, o amor, a obsessão, as causaus maiores da razão de existir? 
    Nils Tavernier fez um filme sobre um personagem extremamente contido que emprega nos gestos e no trabalho diário o valor dos seus afectos, ainda que sob a forma naïf, como modo de transmissão e herança. Jacques Gamblin tem aqui o papel do Carteiro Cheval, figura estoica, que vive com uma mulher Philomène, Laetitia Casta, de uma  beleza cada vez mais surpreendente, sendo eles elementos de uma história apoiada num personagem com existência real e que nos prende até ao fim. Trata-se, assim, de um curioso documento cinematográfico  sobre as possibilidades infindáveis do amor. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Stéphane Hessel: Empenhai-vos!

      A descoberta de Stéphane Hessel  foi há mais de trinta anos, no Festival de Cinema da Figueira da Foz, por culpa do documentário, "Der Diplomat", de Antje Starost e Hans Helmut Grotjahn. Deviam ser umas cinco ou seis pessoas no interior da sala, alguns cineclubistas e outros curiosos. À altura, fiquei fascinado pela sua figura moral, pela sua presença e carisma, uma assombração de um diplomata franco e genuíno.
        Stéphane Hessel nasceu na Alemanha, em 1917, emigrou para França com apenas  cinco anos e naturalizou-se francês em 1937, tornando-se embaixador e diplomata ao longo da vida, tendo pertencido à resistência francesa durante a Segunda Guerra e onde desempenhou as funções de agente do Bureau Central et Renseignements et  d´Action, os serviços de inteligência francesa.
      Regressemos, pois, ao livro “Empenhai-vos”, da Planeta Editora, que consiste numa entrevista de Gilles Vanderpooten a Stéphane Hessel  e, em que este a determinada altura afirma:  “Aqui a palavra “consciência ética” deve tornar-nos sensíveis ao facto de que o que fazemos hoje tem repercussões para os que vierem a seguir. É bom que que reflitctamos e que façamos os possíveis para que as gerações seguintes  possam prosseguir a felicidade das suas existências.”
       Trata-se dum anseio propositivo sobre o futuro das sociedades em que vivemos, uma cogitação viva sobre os direitos humanos face à condição actual do mundo. Já passaram quinze anos sobre esta edição, o livro foi editado em 2011, muito antes de uma pandemia e de uma guerra às portas da Europa e outra dentro dela, mas vale a pena pensarmos com alguém que se manifestou sempre e colocou o  seu empenho na defesa da dignidade e liberdades humanas.

Pequeños Grandes Momentos

Viajar en tren

con la vista

en el paisage

 

 deseando

no llegar todavia

a tu lugar de destino

 

para que la felicidad

no empiece

a terminarse… 

Karmelo C. Iribaren

Pensar

    Pensar de pernas para o ar é uma grande maneira de pensar com toda a gente a pensar como toda a gente ninguém pensava nada diferente.

Manuel António Pina 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Parece que Estou a Mais de Denys Arcand

Poster: https://www.magazine-hd.com/

       O filme “Parece que Estou a Mais” do realizador canadiano, Denys Arcand, autor de “Declínio do Império Americano”, 1986, e “Invasões Bárbaras”, 2003, começa com a narração de um homem  idoso, que se encontra sozinho a viver num lar moderno e onde  o seu entusiasmo existencial vai declinando a cada dia que passa com a visita a cemitérios e a perda dos seus amigos mais próximos. Durante a sua estadia no lar, Jean Michel (Rémy Girard) dá de caras com Suzanne (Sophie Lorain), a administradora, com quem desenvolve uma relação delicodoce e  conflitual. Pelo meio, constata a chegada e a parada de manifestantes junto do jardim da instituição, passando a reivindicar a retirada de uma obra de arte ofensiva às primeiras nações. Denys Arcand serve-se do humor e da velhice para criticar implicitamente o politicamente correcto da sociedade canadiana e ainda para ridicularizar a polarização cultural em que estamos submersos. 
        O filme termina quando pressentimos na narração de Jean Michel uma nova coloração sentimental pois este descobre-se enamorado por Suzanne, ao mesmo tempo que esta se aproxima de uma filha desavinda e desaparecida. No fundo, a sensação de que “Parece que Estou a Mais” foi realizado para que possamos pensar naquilo que é essencial, melhor, uma reflexão pertinente de que ainda podemos recomeçar a viver mesmo que nos encontremos no Inverno das nossas vidas.

Melancolia

     Palavra normalmente associada ao campo da medicina, identificado um estado de sofrimento indefinido. No Renascimento, ganha uma acepção nova. Marsílio Ficino (seguindo Aristóteles) associa melancolia à criação artística e à reflexão filosófica. O termo passa então  a ser utilizado para caracterizar parte da produção artística da segunda metade do século XV. Designa o sentimento de perda, que se traduz em sombras na pintura e no pessimismo existencial na criação poética. Daí resulta uma frequente associação entre o sentimento amoroso e a melancolia sob ascendência de Saturno, deus sombrio que devorou os próprios filhos. De acordo com esse pressuposto, Camões pode ser considerado um poeta melancólico. A sua obra é assinada pela privação e pelo constraste entre um tempo de felicidade (embora ilusório) e um tempo de degradação emocional, em que prevalece a ideia de impossibilidade humana de conhecer e agir. Embora a dimensão melancólica possa aplicar-se a "Os Lusíadas" (tanto no plano pessoal como no plano colectivo), é na lírica que ela se torna mais intensa. A este propósito são particularmene ilustrativas as canções IX e X. Palavras como «mágoa», «dor», «ferida», «tormento» representam o equivalente da melancolia e surgem todas em posição central no mundo camoniano e na história de vida que ele transmite.

in "Lírica de Camões - Antologia", Expresso, 30 de Janeiro de 2026.

Provérbio

 Em Fevereiro, chuva, em Agosto, uva.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Jan Johansson: Da Tradição à Pipi das Meias Altas

       Num fim de tarde destas últimas festas natalícias passadas no continente português, época propensa à revisitação dos lares e demais reuniões afectivas, dou de caras com um jovem músico, filho de velhos amigos de juventude, constatando que este vive agora na Suécia, residindo e trabalhando neste país escandinavo há já algum tempo, tendo, inclusive, constituído prole com cônjuge originária. Enquanto ele preparava os acordes de guitarra para se juntar a outros músicos, assinalo de raspão o nome do músico sueco Jan Johansson, mostrando algum conhecimento sobre o mesmo. Eis, então, que ele solta as primeiras notas de “Visa Från Utanmyra”, tema tradicional na versão de tão aclamado e malogrado pianista, vítima de acidente de aviação quando tinha apenas 37 anos idade, perto de Sollentuna, aquando de uma reunião com outros músicos no percurso da viagem a um concerto em Jönköping. Subitamente, um conjunto de memórias assaltam-me, impondo-se naquele instante um ambiente melancólico e nostálgico.

     Recue-se, assim, a 2009, aquando de uma visita estival a Vrå, na região de Halland, Suécia, ao reencontro de um navegador solitário, primeiro “cliente” da marina da minha cidade natal – D.S. Numa dessas noites brancas e, sem ter apercebido da relevância do momento, este presenteou o serão com a audição do álbum “Jazz på Svenska”, conjunto de músicas tradicionais daquele país tocadas ao piano e contrabaixo em jazz modal. Só muito tempo depois, se dá o conhecimento que este é o disco sueco mais difundido e vendido até aos nossos dias. Entretanto, outra descoberta, Jan Johansson realizou também a música para o filme “Pippi Långstrump (“Pipi das Meias Altas”), com letras da autora e criadora da personagem, Astrid Lindgren. Tudo normal até aqui, e, por isso, apenas referir que  “Pipi das Meias Altas” é, certamente, uma das recordações cinematográficas mais intensas e bem-dispostas das matinés de cinema daqueles verões à beira-mar carregados de nortada.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Desenho Guia de Sara Chang Yan

Em Quietude, a Sentir o Espaço
Curadoria: João Mourão
Desenho do livro: Júlia Garcia
Edição: Arquipélago, CAC.
 

Do Poder

       Só há uma maneira de lutar contra o poder: é sobreviver-lhe.
Francois de Voltaire (1694 -1778) Citações Famosas, Miriam Martins, Notícias Editorial, 2005.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mapa Vulcânico

in Vulcões, 2025
Araucária Edições: https://araucaria.pt/




 

Guarda Rios

É tão difícil guardar um rio
quando ele corre 
dentro de nós

Jorge Sousa Braga, in O Poeta Nu, Assírio&Alvim, 2002.

O Céu, a Terra, o Vento Sossegado...

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a água se meneia,
que não pode ser mais que nomeado. 

Luís Vaz de Camões, in Lírica de Camões - Antologia, Expresso, Janeiro de 2026.

Do Prazer

   "O maior prazer que alguém pode sentir é o de causar prazer aos seus amigos."
François Voltaire (1694 -1778) in Citações Famosas, Miriam Martins, Notícias Editorial, 2005.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Postal para W.H

Autor: isla.art.açores

         Aquele postal encontrado no chão de uma rua central na principal cidade insular, era o mote para nova lembrança dos filmes vistos durante a parte da manhã deste sábado invernal. Este estava ainda com o papel de embrulho e a fita-cola a cobri-lo, algumas pequenas gotas de água tinham caído sobre a cobertura, mas não foram suficientes para o danificar. Ainda aguardei algum tempo naquela rua ventosa, mas não apareceu ninguém a quem pudesse restituí-lo. Por esse motivo, alguém, provavelmente, não escreveu para quem devia naquele fim de tarde carregado de nuvens e céu cinzento.
     Foram muitos filmes, cerca de três dezenas, quase todos eles ligados a estas paisagens reconhecíveis. Dez minutos era o limite proposto com gente ligada ao cinema oriunda de todo o mundo e que aqui aportou durante nove a dez dias. As propostas iam sendo vistas pela audiência que enchia a sala. No final de cada filme, o velho cineasta alemão comentava, elogiava, apontava críticas e caminhos. O seu inglês era fluente, o discurso eloquente, firme e escorreito, a ironia expressiva. Uma honra podê-lo ouvir falar de cinema no Teatro Ribeiragrandense, mesmo que tenha dito que os cagarros se encontrem extintos. Um verdadeiro acontecimento que, desconfio, pouca gente da ilha se deu conta. Era ainda muito jovem quando vi o "Fitzcarraldo" pela primeira vez naquela sala do Casino da Figueira da Foz, no seu mítico festival. Não foi preciso que ninguém me dissesse nada para pressentir a beleza e grandeza da obra de Werner Herzog, e que venceu o prémio de melhor realização em Cannes, em 1982. O filme dá conta da loucura de Brian Sweeney Fitzgerald (Klaus Kinski) ao edificar uma ópera em plena selva amazónica e que para isso transportou um barco a vapor por um monte, atravessando a selva para materializar esse sonho. É a paixão por Enrico Caruso que leva o protagonista a lançar-se naquela empreitada, transformando aquelas filmagens numa aventura carregada de desafios e intensidade.
       Algumas décadas depois, escrevo este “postal” para um cineasta de 83 anos, ao qual nunca cheguei pensar ter esta oportunidade de ouvi-lo falar sobre filmes de jovens cineastas, o facto de pressentir a sua cinefilia, imaginar os modos e visões do seu cinema e ainda presenciar a sua radicalidade. Agradecido, pois que fique bem claro. E, tal, como nos postais, “até um dia destes, um abraço!”

sábado, 24 de janeiro de 2026

Na Língua da Maré

Crónicas de mar de de mareantes
Hélder Luís (Fotografia)
Abel Coentrão (Texto) 
Mútua dos Pescadores, 2022/2023

Vale a pena perceber a dimensão este projecto ambicioso que percorre a vida das colectividades piscatórias do norte até ao Algarve, sem esquecer os Açores e a Madeira. Com texto de Abel Coentrão e fotografia de Hélder Luís é muito raro encontrarmos um trabalho tão alargado e diversificado e ainda tão bem documentado nas suas imagens.  
   "Na Língua da Maré – Crónicas de Mar e de Mareantes” é uma longa viagem em torno dos conhecimentos marítimos ancestrais e que evoca o 80.º aniversário da Mútua dos Pescadores, financiadora do projecto. 
      Esta obra, editada em 2022, pretende ainda alargar todos os campos possíveis onde a cultura do mar se tem expandindo nos anos mais recentes, com referências óbvias à ciência, investigação, inovação e turismo. Um trabalho e leitura dignas! 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vozes de K. P. Kaváfis

Vozes amadas e ideais 
daqueles que morreram, ou daqueles que 
para nós se perderam como os mortos.

Por vezes falam-nos em sonhos,
por vezes ouve-as o pensamento.

E em seu som regressam por um instante 
ecos da primeira poesia da nossa vida - 
qual música distante, apagando-se na noite.
(1904)

in Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa, Assírio & Alvim, Novembro de 2025.

Verso dos Capitão Fausto

 É sempre possível continuar a fingir 

Sobre Gente Feliz com Lágrimas

       Não me importo nada de ser o autor de Gente Feliz com Lágrimas, sobretudo agora que o reli. Não voltarei a dizer que não é o meu livro preferido. É um marco no meu percurso que me deixa orgulhoso. É a história da minha vida como ilhéu e açoriano, a história dos que, durante o salazarismo, recusaram o fechamento e saíram em busca do seu mundo. 

João de Melo, entrevista a Luís Ricardo Duarte, Ípsilon, 5 de Dezembro de 2025.

Em Escuta

    Will  Butler lançou “Policy” em 2015, o primeiro álbum de originais. Will, quase sempre apresentado por ser o irmão mais novo do vocalista dos Arcade Fire, Win Butler, é dado a improvisações e outras liberdades criativas, sendo também conhecido por tocar guitarra, baixo, percussão. Seis anos depois deste disco, deixaria os Arcade Fire em 2021, para se dedicar a vários projectos, tendo editado o seu terceiro disco de originais, “Sister Squares”, em 2023. Deste primaveril e debutante “Policy”, ficam no ouvido canções como “Take My Side”, uma rockalhada irónica e divertida, “Anna”, tema de fácil e alegre trauteio, a balada sentimental “Finish What I Started” ou a sentimental "Sing To Me". Este disco é música pop de valor acrescentado e  vale bem uma audição repetida e partilhada. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Eu Cantarei de Amor Tão Docemente

Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados 
faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente 
pintando mil segredos delicados, 
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente
 

Camões in Lírica Camões - Antologia, Expresso, dia 19 de Dezembro de 2026.

Sobre a Origem do Universo

    Um dos problemas complexos que poderia elucidar-nos sobre a razão pelo qual o mundo existe em primeiro lugar é precisamente o problema da origem do universo, e até do tempo que de uma forma ou outra levará certamente a uma concepção do universo totalmente diferente daquele que temos presentemente.
     O universo parece não querer que desvendemos esses mistérios e até hoje os nossos instrumentos não foram capazes de detetar sinais dessa origem e caso tenhamos recebido alguma informação ainda não fomos capazes de a entender. No mundo actual, um dos grandes fenómenos emergentes é o da origem da vida: como foram criadas as primeiras moléculas complexas e como é que dessas moléculas nasceram organismos inteligentes?

Jácome Armas, in Açoriano Oriental, entrevista de Rui Jorge Cabral, dia 18 de Dezembro de 2026.

Verso dos Divine Comedy

 I saw a man this morning

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ocasional Alvejar de Jorge Kol

Ocasional alvejar
Ont´ agora era Natal,
e flanêur para o Sal
sol, mar e vendaval,
máquina no bornal.
Rastreia o areal,
a habitação social,
fixa Mara residência ou residencial?
Interroga-o o mural:
- Não é Alojamento Local!
Nem Residência Amaral!
Então, o que será afinal?
Doutor Mara negócio estival?

Jorge Kol, em época vinte e tal, de eleição presidencial, no ano de dois mil e tal.

Soma de K.P.Kaváfis

 Se feliz sou, ou infeliz, não examino.
Uma alegria porém guardo sempre no espírito - 
que da grande soma (essa soma deles, que eu detesto)
composta por tantos números, não faço parte; não sou eu
uma unidade entre as demais. Não me calculam
no valor total. Essa alegria me basta. 

(1897)

in "Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa", Assìrio&Alvim, Novembro de 2025.

Em Escuta...

Rainy Sunday Afternoon, 2025 
The Divine Comedy

     “Rainy Sunday Afternoon" foi lançado no final do verão passado e que, doze álbuns depois, trata-se do regresso aos estúdios de gravação desta banda irlandesa. O vocalista Neil Hanon já leva trinta anos no activo e continua a demonstrar a sua vitalidade em canções como “The Man Who Turned Into A  Chair”, “Achiles”, “Rainy Sunday Afternoon”, sendo a favorita - ‘The Heart is a Lonely Hunter’. Um disco de belíssimas canções para escutar numa tarde chuvosa de domingo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Da Democracia

     Cada vez que aceitamos líderes que falam por si dizendo ser em nome do "povo" estamos a abdicar da nossa participação e a normalizar a concentração de poder. Não é retórica: é assim que se esvaziam democracias.

Catarina Valadão, in Açoriano Oriental, dia 17 de Dezembro de 2026.

Verso dos Nada

 Cos´è  la vita se machi tu

Jardim de Inverno

Um rumor de mar ao perto
e a breve agitação das rosas

-não aguardes outro sinal do vento
este serão sempre jardins da morte.

Caminhas entre palavras, inscrições
como nuvens baixas a teus pés. Os nomes 
mais leves do que as datas 
ardem ainda no lume que os sustenta,
uma lâmina abre os pulsos da infância, a mão
da criança noutra mão sobre portas há muito fechadas.

Agora, a Traurmasch de Mahler 
daria o fundo musical se a estridência dos metais 
não acordasse a quietação dos rostos 
captados no instante que em que a câmara os deixou
abstractos para sempre 
expostos à comoção alheia.

Deixa-os assim ao peso da chuva 
quando já não lhes resta um óbolo que redima a solidão
e os próprios vivos se interrogam sobre o desamparo
que será o deles no tempo de enfrentarem o silêncio 
a sua desolação irreparável.
(Janeiro de 2021)

Urbano Bettencourt,
in "Antes que o Mar se Retire", Companhia das Ilhas, 2023.

Origem de Janeiro

       É o mês que os romanos consagraram ao deus Jano. Dividade antiquíssima, de origem ignota, tem-se como filho de Apolo e Creusa, provavelmente oriundo de Atenas. (...) Etimologicamente, Ianus significava «passagem», («Janela» tem origem em januellla, dimintivo de janua, «porta de entrada, acesso»).

Orlando Neves, in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Notícias Editorial.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Baloiço nas Caixas do Correio

          Entrar nos correios com cartas, envelopes, selos, e logo espantamos quem nos vê carregados daqueles papéis de outros tempos, embrulhos e encomendas de quem ainda não renunciou ou cansou de surpreender na caixa do correio. Esse foi, certamente, o mundo em que crescemos, um verdadeiro e distinto universo de caligrafias, moradas ou ainda pessoas que nos batiam à porta a confirmar endereços ou, simplesmente, a lembrança daquele Inverno da juventude em que bateram à porta para entregar o “Psycho Candy”, dos The Jesus And Mary Chain, numa caixa de papelão com os dizeres - contém disco!
Fotografia: Ester Gutzovà
      Hoje, tudo isto nos parece ultapassado, anacrónico, tal como se escrever postais ou cartas fosse do tempo da invenção do papiro ou ainda da tipografia de Gutenberg. Há, inclusive, países a cancelar o envio de cartas por falta de destinatários, enquanto estas notícias se dão como se de um mundo novo emergisse e nos trouxesse alguma paz ou sossego. Nada disso irá acontecer, acreditem.
      A deslocação é, pois, ao edifício dos correios para enviar um conjunto de “Baloiços” a todos aqueles que aqui não habitam e que não puderam estar na apresentação desse pequeno livro de poesia no Festival Bom Colesterol. Foram muitos? Alguns. Será que os livros ainda chegarão este mês? Aguardemos de forma esperançosa que sim.
       Na verdade, continuemos a escrever postais, cartas, façamos encomendas e partilhemos coisas de que nos orgulhamos e gostamos. Temos todas e mais algumas razões para continuarmos a fazê-lo e que poderíamos fazê-lo ainda mais de forma vasta e muito mais profunda. É que é sempre tão surpreendente abrir a caixa dos correios. Basta vontade!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Meu Poema é Isto de Rui D. Rodrigues

Rui Duarte Rodrigues
Edição do IAC

Instituto Açoriano de Cultura
   Foi em 1970, aos 18 anos, que este editou o seu primeiro livro: “Os Meninos Morrem Dentro dos Homens”. Esse foi também o ano em que Salazar faleceu com 81 anos e que Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas de todos os tempos, deixou o mundo dos vivos, com apenas 27 anos.
      Rui Duarte Rodrigues, natural da Ilha Terceira, foi um conhecido jornalista angrense que desapareceu do nosso convívio na Primavera de 2004. Destes seus poemas de juventude até à idade adulta – o poeta só publicou apenas mais um livro (“Com Segredos e Silêncios”, 1994) – permanecendo desse seu gesto uma poesia implicada com o real, testemunho de um tempo vigoroso em que as palavras se empenhavam em expressar utopias e sentimentos, num empenhamento político-social intenso e comprometido.
          Registe-se, pois, esta edição do IAC (Instituto Açoriano da Cultura) intitulada “O Meu Poema é Isto - Poesia Reunida”, de Rui Duarte Rodrigues, num trabalho elaborado pelo linguísta Luís Fagundes Duarte. Saúde-se e torne-se, então, a ler poemas de um tempo em que a infância se perdia para sempre e os sonhos consumiam-se nos corpos juvenis que se tornavam velozmente adultos: “Os meninos/ morrem dentro dos homens/ na volúpia escaldante de corpos pegajosos/ em negros e agudos penedos dos profundos abismos do desengano/ na luta do pão/ mel a escorrer das fontes de servidão/ os meninos/ morrem dentro dos homens/ à carícia cada vez mais nostálgica do sol-poente / à descoberta do segredo guardado e resguardado/ e afinal efémero, fortuito e banal.”. A interrogação impõe-se: será que ainda podemos renascer? 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Em Escuta...

   Este é um disco-documento daquilo que se passou no Ljubljana Jazz Festival,  em 1970, 1972 e 1973, registado pela Radio-Tv de Ljubljana, capital da Eslovénia.
   O disco abre com o piano de Bill Evans que anuncia “Nardis”, tema de Miles Davis, em quinze minutos de jazz deambulante entre Eddie Gomes no baixo e Tony Oxley na bateria. Na segunda faixa deste lado A escutamos o clássico de Williams “Monk” - “Round About Midnight”, aqui na voz de Karin Krog e o baixo de Arild Andersen. O Lado II é ocupado com o tema “Sonny´s Back”,  assinado por Grachan Moncur, e conta com as presenças de Archie Schepp (saxofone tenor), Dave Burrel (piano) Don Garret (baixo), Suzanne Fasteau (percussão) e Mahammad Ali (bateria). O disco termina com uma faixa intitulada “The Creators”, pertença de Herbie Lewis, e que conta com os músicos Bobby Hutcheson (vibrafone), Harold Land (saxofone tenor), Hal Galperp (piano), Reggie Johnson (baixo) e Joe Chambers (bateria). Jazz em estado puro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Mano a Mano: Inspiração nas Sombras

    A dupla começou o concerto de forma discreta sem qualquer apresentação num diálogo de guitarras com as sombras a surgirem por detrás do palco, visíveis através da performance de Tiago Martins. Os músicos de “Mano a Mano” são os irmãos André Santos e Bruno Santos que tocaram o tema inicial "Caixa de Música - o Baile do Anjo",  enunciando desta forma um tributo carregado de sons extraídos de cordas ao desafio. Estamos, por isso, em Janeiro, e foi preciso esperar por “Agitações”  para que o ambiente aquecesse, sendo que a toada musical fosse  crescendo com a faixa "Sol e Sombra", até começarmos a ouvir a voz de Lourdes Castro em “Murmúrios do Mar Embalam os Calhaus” ou ainda o poema “Lourdes Castro – Rua da Olaria” no tema “Uma espécie de Pacto”, na voz do poeta José Tolentino Mendonça. O espectáculo terminaria da melhor forma num tema intitulado "Ein Herz", uma cadência repetitiva de baixo com o gravitas sonoro em crescendo, faixa composta por André Santos, sendo a mais intensa e perfeita para fechar este inspirado tributo à artista Lourdes Castro. 
      No final, os músicos deslocaram-se à entrada da Blackbox para assinar o disco “Trilogia das Sombras”, um objecto gráfico pensado e elaborado pela artista plástica madeirense, Carla Cabral. 

Agente Secreto: Três Globos de Ouro!

   Kleber Mendonça venceu três Globos de Ouro  na cerimória do dia 12 de Janeiro, com o seu filme Agente Secreto. Os três prémios foram para Melhor Actor (Wagner Moura), Melhor Filme de Língua Estrangeira e Melhor Filme Dramático. 

DIa 21, no Teatro Ribeiragrandense

às 18 horas 

 

Da Sabedoria

      A grande sabedoria, penso eu, é ter um sentido relativizado de tudo. Não dramatizar nada.
José Saramago

Até 1 de Fevereiro, no CAC

 Um calhau é uma obra prima

Lourdes Castro

sábado, 10 de janeiro de 2026

Sobre a lírica de Camões...

        A lírica de Camões é a nossa Vénus de Milo, o nosso Laocoonte descoberto, os nossos Bronzes de Riace, os nossos sarcófagos etruscos, a nossa Capela Sistina, a nossa música de Bach. A lírica camoniana pertence a essa ordem porque é um lugar onde a língua e o pensamento afirmam acerca da vida qualquer coisa que não estava dita, pelo menos naqueles termos absolutos, naquela forma incomparável, passando a alargar as fronteiras do conhecimento humano. Na verdade, apreciar simplesmente o mérito cultural de um grande livro de poesia é um incipiente exercício escolar. Um grande livro de poesia é um dispositivo de diagnóstico de alta precisão que permite a captação de imagens (como fazem os aparelhos de ressonância magnética ou as sondas espaciais), úteis para a compreensão das estruturas internas de um determinado sistema, seja o corpo de um homem ou universo. A lírica de Luís Vaz de Camões é um detentor de intensidades: um mega scanner que permite visualizar, traduzir em dados e conservar o enigma do real; é um decifrador dos nossos códigos mais decisivos. 

José Tolentino Mendonça, Lírica de Camões - Antologia: Amor é um Brando Afeito, Expresso, Janeiro de 2026.

Janeiro de 1904 de K. J. Kaváfis

Ah, as noites de Janeiro,
fico sentado enquanto a mente recompõe
aqueles momentos, e encontro-te,
e oiço as nossas últimas palavras, e oiço as primeiras.

Desesperadas noites deste Janeiro,
quando a visão se vai, deixando-me só.
Tão apressada que parte, e dissolve-se - 
e lá vão árvores, lá vão ruas, lá vão casas, lá vão luzes:
apaga-se e perde-se a tua desejada forma. 

in Aquele Belo Rapaz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2025. Tradução de José Luís Costa.

Campeões de Inverno

Portugal, 1976
Fotografia:Josef Koudelka
 

Da dor

   Em todas as vidas há dor. É um elemento precioso para que possamos dar valor ao que temos na vida. E é também um bom assunto para escrever. 

Pedro Almodovar, Ípsilon, Novembro de 2023

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dias Perfeitos na Lagoa

       

     No Convento de Santo António, ali mesmo no seu interior e com écran instalado no átrio, na cidade de Lagoa, foi exibido no dia 4 de Janeiro, Dias Perfeitos de Wim Wenders – brilhante ideia, sem dúvida, esta de disponibilizar, de forma livre e gratuita, uma sessão cinematográfica, à noite, naquele espaço com as pessoas sentadas em bancos ou espreguiçadeiras com as mantas sobre os corpos num dia tão frio de Janeiro. E, entretanto, lá veio à memória o Paris Texas do mesmo realizador alemão, filme realizado no ano de 1984. Uma narrativa intensa sobre alguém que se abandona, se esvai e decide voltar para se reencontrar ainda que seja impossível alcançar o que está defintivamente perdido. A interpretação de Harry Dean Stanton enquanto Travis é, no mínimo, exemplar a partir de um ser errante, extenuado e desmemoriado que percorre a aridez da velha América. O trajecto termina numa das cenas mais icónicas do cinema de Wenders - Travis e Jane separados num Peep Show por um vidro escuro e um telefone fixo.
         O filme tem a banda sonora de Ry Cooder, peça musical inolvidável, digna de figurar na hierarquia do panteão dos temas musicais  sugestivos de imagens cinematográficas. E, por falar em música, Dias Perfeitos não tem a sumptuosidade da banda sonora de Ry Cooder, mas tem canções encantadoras de Lou Reed, Patti Smith, The Kinks, The Velvet Underground, Van Morrison ou The Animals e ainda o silêncio e a mágoa de um homem que se recusa a seguir caminhos e quotidianos mais óbvios. Hirayama, responsável pela higiene de algumas casas de banho públicas de Tóquio, deambula pela cidade de forma atenta e apaixonada, sempre rodeado de cassetes musicais, fotografias de árvores e céus e livros de cariz contemplativo. Wim Wenders mostra-nos um personagem atento às pequenas coisas, aberto a situações inesperadas e disponível para se conhecer através das palavras dos outros. Uma dádiva existencial e cinematográfica.

Trilogia das Sombras no CAC

Mano a Mano
É já no próximo domingo, às 18 horas, que os madeirenses “Mano a Mano” irão apresentar o “Trilogia das Sombras” na blackbox do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O trabalho “Trilogia das Sombras” consiste numa homenagem musical à artista plástica Lourdes Castro, natural do Funchal, actualmente com uma longa retrospectiva da sua obra naquele espaço.
        Os músicos de “Mano a Mano” são os guitarristas André Santos e Bruno Santos, onde se juntam as palavras do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça com a leitura de “Lourdes Castro – Rua da Olaria”, tal como um disco-livro criado por Carla Cabral, que se espera que esteja disponível ao público presente no espectáculo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Provérbio

 Em Janeiro saltinho de carneiro

Verso de Filipe Furtado

 Com as cores que só eu vejo da janela

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vida alegre, fato roto

Urgências de Baloiço

Uma tarde em Salónica foi a descoberta
das árvores em que procurávamos sombra
a miragem do que seria o presente
apartados na lonjura do ordinário quotidiano
arrumados na pequena dor de cada um
 
Não quisemos nunca mais lembrar
aquele crepúsculo junto do porto
deitámos fora o princípio diletante
o fogo das areias, o título dos barcos,
enquanto fomos anotando 
no velho caderno viajado
urgências a que fomos regressando
.

sábado, 3 de janeiro de 2026

No Mesmo Lugar de K. P. Kaváfis

Paisagem da casa, dos cafés, do bairro,
sob os meus olhos, sob os meus passos: há anos e anos.

Plasmei-te na alegria, na tristeza: 
a partir de tantas coisas e ocorrências. 

E, para mim, inteiramente te tornaste sentimento. 

(1929)
Tradução:  José Luís Costa