quarta-feira, 13 de maio de 2015

Um Postal de Primaveril de Janeiro Alves

      Um estranho nevoeiro ou neblina matinal levita sobre a cidade, que parece amorfa, parada à espera de uma qualquer catástrofe. As pessoas arrastam-se suportando o peso de algo indecifrável às costas, de um fado que hoje se revela enfadonho e denso como lava pastosa a descer as encostas de um vulcão. De olhos semi-cerrados cumprimentam-se com um pesaroso levantar de mão, respirando com dificuldade o ar conspurcado pelas partículas de calor febril. Algumas aproveitam hoje para morrer, outras persistirão para amanhã. Em algumas se vê o sofrimento latente resultante deste manto acinzentado, enquanto que outras fingem que tudo se desenrola dentro da normalidade. Há pessoas a definhar nos bancos de jardim, e há pessoas assistidas de emergência por máquinas de refrescar as ideias. Algumas correm para o abismo dos seus ofícios, enquanto que outras discutem a situação actual nos cafés da cidade. Há pessoas para tudo. Até para escrever sobre isto, como este seu amigo,

Janeiro Alves

sábado, 2 de maio de 2015

"Baleias e Baleeiros" de Luís Bicudo

Douta Melancolia:Este filme circulou bastante pelo arquipélago dos Açores. Qual foi a recepção das pessoas ao teu "Baleias e Baleeiros”?
Luís Bicudo: Infelizmente, e por falta de recursos, o filme não circulou tanto quanto eu queria. Teve estreia em New Bedford e Lisboa; e nos Açores passou pelas Lajes do Pico, Horta, Angra do Heroísmo e Ponta Delgada. A minha vontade é fazer com que o filme seja visto em todas as ilhas dos Açores, e estou a trabalhar para esse fim. Como era de esperar, as reações mais exuberantes deram-se nas ilhas do Faial e do Pico, com casas cheias e muita animação, não só porque foram as ilhas onde o projeto foi filmado, mas principalmente por serem as ilhas onde a cultura baleeira está mais viva e presente, logo, é natural que as pessoas estejam mais abertas a este tema. No Museu dos Baleeiros, no Pico, a sessão foi bastante singular. O auditório estava cheio e havia muitas pessoas sentadas no chão, que não deixaram que as dores nas costas perturbassem o visionamento do filme. Mas o mais engraçado foi a forma como este público o recebeu: ao mesmo tempo que eu partilhava o filme com eles, eles comentavam entre si as histórias dos baleeiros e reagiam à histeria das regatas, sem nunca perderem o fio à meada e sem perturbarem o resto da sala. Foi uma experiência diferente mas muito gratificante, sinto que naquele dia dei um “presente” àquelas pessoas. Com isto, não quero dizer que não é importante passar o filme no resto do arquipélago, muito pelo contrário. A baleação foi transversal às 9 ilhas e é importante recordar esses momentos, que foram, e de certa forma ainda são, aspectos culturais identitários da região. Como sabemos, apesar das diferenças culturais e sociais entre as várias ilhas, - como dizia Rui Veloso - muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa.
DM: Quem assiste ao teu filme conclui que soubeste reunir a família da baleação açoriana em torno deste tesouro oral e documental, ainda que se sente que não quiseste enquadrá-lo numa perspetiva teórica, histórica ou antropológica. Tens noção, dados os pontos de vista contraditórios presentes no filme, que fizeste um filme pouco académico ou científico, se assim o quiseres?
LB:É possível que o meu trabalho seja enquadrado antropologicamente a seu tempo, pois os relatos valem por si só e os baleeiros estão mencionados com os seus nomes, locais e datas de nascimento nos créditos finais. Mas eu não sou um cientista, eu procuro o contraditório. A multiplicidade de pontos de vista é muito mais enriquecedora do que um filme que tenta provar seja o que for. Neste filme não existe nada a provar, nem ninguém a quem é preciso convencer. O que se procurou na montagem, foi usar os relatos que transmitem mais emoção, não a emoção no sentido sensacionalista do termo, mas no sentido em que nos aproxima mais de cada pessoa filmada e se dá a possibilidade de responder de uma forma sensorial à questão: o que é que os define de uma forma mais profunda? Nenhum cientista consegue responder a esta questão, porque não existe uma resposta. Existirá uma empatia humana? Uma percepção cinematográfica? Eu não sei, nem tenho capacidade de me expressar em palavras sobre isto, mas que sinto alguma coisa de muito profundo quando oiço e vejo o Manuel de Simas a contar daquela vez que trancou e matou uma baleia de 21 metros, lá isso sinto.

Saudades

"Quem parte saudades leva; quem fica saudades tem."
Provérbio Popular

sábado, 18 de abril de 2015

O Céu que nos Protege (II)

         "Acordou, abriu os olhos. O quarto pouco ou nada lhe dizia; ele estava profundamente imerso na consciência donde acabara de vir. À falta de energia para determinar a sua posição o tempo  e espaço faltava-lhe o desejo disso. Estava algures, regressara de parte nenhuma através de várias regiões; no fundo da sua consciência havia a certeza de uma infinita tristeza, mas uma tristeza tranquilizadora, familiar. Não precisava de outro consolo. Nesse conforto, nessa tranquilidade, repousava, entretanto, tão absolutamente calmo, mergulhando depois num daqueles sonos leves, momentâneos, que acontecem após um prolongado, profundo sono. De repente, voltou a abrir os olhos e consultou o relógio de pulso. Não foi mais que um acto reflexo, pois ao saber as horas continuava confuso. Sentou-se, observou o quarto espalhafatoso, levou a mão à testa e, suspirando profundamente, deixou-se cair na cama. Mas agora estava desperto; alguns segundos depois já se sabia onde se encontrava, que era o fim da tarde, que dormira o som das chinelas sobre o chão liso, de ladrilhos, e esse som confortava-o, agora que atingira outro nível de consciência, em que a mera consciência de estar vivo não era suficiente. Mas como era difícil aceitar aquele quarto alto, estreito, com o tecto de vigas, os enormes e patéticos desenhos, estampados em cores neutras à volta das paredes, a janela de vidro vermelho e laranja, fechada. Bocejou: não havia ar no quarto. Mais tarde saltaria da cama alta, abriria a janela de par em par, e então lembrar-se- ia do sonho. Sim, apesar de não se lembrar de nenhum pormenor, sabia que sonhara. Do lado de fora da janela haveria ar, telhados, a cidade, o mar. Quando contemplasse o vento do anoitecer refrescar-lhe-ia o rosto, e nesse momento o sonho estaria lá. Agora só lhe restava ficar onde estava, deitado, respirando lentamente, quase a cair de novo no sono, paralisado naquele quarto sem ar, não à espera do crepúsculo mas deixando-se estar como estava até que ele chegasse."

in“O Céu que nos Protege”(The Sheltering Sky) – Paul Bowles, 1949

quinta-feira, 16 de abril de 2015

domingo, 12 de abril de 2015

...

arde em mim e deita
o tarde que se fez
jacente qualquer gesto
de ti e sobeja 
o aclamado amor 

Mistério

"Certamente, havia um mistério sobre esta ilha, mas como descobri-lo?"
Júlio Verne, in A Ilha Misteriosa

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Dois poemas de Gina Ávila Macedo

Aqui na ilha o tempo move-se
como um cachalote ferido

Enquanto as chuvas de
dezembro alagam os dias
as fotografias do gavetão
molham a noite por dentro

E ela sabe: a ilha é uma tumba
onde os mortos estão vivos.  
…………………………………..

É no interior da noite
que bebemos o vinho pisado
por deuses e entramos
resolutos pelas horas tardias.
Rimos e enganamos o
frio na carícia do lume.

Olhamos o rio e nas margens
das nossas cabeças não há
palavras que descrevam a loucura
e o medo.

Juntos atravessamos a noite
com o nosso andar felino
descobrimos que a escuridão é
feita de gatos vadios e casas pardas.

E quando a madrugada chegar
não sabemos o que iremos fazer
com as nossas mãos.

in Anuário de Poesia de Autores não Publicados, 2015, Assírio&Alvim. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ver Estranhas Formas a Pensar – sobre a escultura e os desenhos de Agnes Juten

           
Fotografias: (www.agnesjuten.com)
           Agnes Juten  está a expor, desde o dia 20 de Fevereiro até 10 de Abril  (termina esta sexta-feira), esculturas e desenhos na Casa Manuel de Arriaga, na cidade da Horta, Ilha do Faial. São desenhos e esculturas muito recentes, alguns trabalhos realizados para o efeito, intitulados de “Novas Obras”, que a artista elaborou, imaginou e concebeu no seu atelier da rua Visconde de Santana, nº7. Há quase meio século que o seu gesto escultórico se repete, confirmando e renovando o seu percurso de artista visual a partir de objetos que quotidianamente cria, (re) inventa e constrói. Agnes Juten é uma artista plástica, holandesa, radicada na Horta, com um longo percurso e pergaminhos, os quais mais uma vez teremos a oportunidade de apreciar neste conjunto considerável da sua vasta obra.
Numa sala algo minúscula, amontoada de materiais de outras exposições ou objectos, provavelmente à espera de serem usados, ela vai também desenhando, realizando esboços e outras intenções que se concretizarão enquanto combinação de materiais e formatos, ou simplesmente desenhando traços, revelando as figuras e formas de um conjunto de objectos à espera da arte final ou trabalho conceptual. Este trabalho diário de agregar técnicas e moldar objectos faz com que sejam vários os objectos que se disponibilizam às suas mãos, se submetam à sua inventividade, à curiosidade, e ainda ao enorme rigor criativo envolvido da sua parte. Desta relação com os materiais constam essencialmente o ferro, a madeira, o arame, alguns invólucros de produtos, pegões e afins. Agnès ousa assim romper com a normalidade, com o frágil equilíbrio que nos sustenta, daí que cada vez que usa um nome para um objecto, atira-nos com nomes como “Suporte”, “Movimento”, “Deitado”, “Declive”, “Avalanche”, “Pegão” ou outras estruturas sujeitas a limites como “Linha Vermelha” ou mesmo “Ilha”. É dessa forma que arrisca este quebradiço equilíbrio que nos sustenta, permitindo-se mesmo iluminar a escuridão por detrás de si, interrogando os caminhos da arte, do seu tempo, evidenciando num primeiro risco ou traço, um primevo olhar sobre a forma e os objectos, fruto de uma revelação interior.
"Suporte"Agnes Juten (2015)
    Agnes Juten vai, no entanto, deleitando-se com as pequenas narrativas que outros seres fazem acerca destes objectos artísticos depois de usados em exposições, muito embora para si tenham o condão de ser duradouros, dado o apego e pertença que ainda hoje por estes manifesta, tem consciência do carácter efémero e volátil que estes simbolizam para o público espectador. Ironiza, inclusive, com a necessidade alheia de utilizar as suas esculturas para representar qualquer situação ou objecto do mundo real. Agnès Juten sabe que ali está a representação do seu próprio mundo, o seu pensamento, o escultórico gesto que vibra com o desenrolar do tempo e da vida (quase meio século dedicada à escultura e ao desenho). E o que fazer dessa necessidade permanente em “satisfazer” o desafio de criar imagens, representações, significados, sem pensar na utilidade da arte?
     Na verdade, as esculturas de Agnes Juten respiram sobriedade, leveza formal, assentam no pendor criativo e na ilustração dos vários estados de alma que percorrem qualquer ser pensante. São esculturas que dão trabalho ao pensar, à estranheza que convida e cultiva a introspecção, que imploram à interioridade e ao recolhimento.
    Do mesmo modo, os seus desenhos evocam simples gestos, movimentos, cruzamentos, clausura, os nós e os laços que que estabelecemos enquanto o silêncio vai esculpindo a “persona” de que somos feitos. Estamos, portanto, perante uma sensibilidade inquieta, inabitual modo sereno de nos fazer cogitar, essa curiosidade permanente pelos opostos existenciais. Que luzes ou sombras, que caos ou o mundo harmonioso nos sustenta este equilíbrio que julgamos habitar? Dessa hospitaleira resposta aqui fica o convite ao desassossego formal, à estranheza  e, essencialmente, ao prazer de poder ver novamente os seus trabalhos expostos. Inquietemo-nos.

Ontem escrito numa parede da cidade

O meu avó que era pescador dizia:"Em águas calmas tem peixe".