Fotografia de Carlos Olyveira
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Mapear a Amizade
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
quinta-feira, 9 de dezembro de 2021
Do Valor
O maior bem que podemos fazer aos outros é
levá-los a descobrir a sua própria riqueza.
Louis Lavelle
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Andar a Pé...
"No meu passeio da tarde, gosto de esquecer completamente as tarefas que realizei de manhã e as obrigações sociais. Mas acontece. às vezes, não consegui sacudir de mim a civilização com facilidade. Os pensamentos à volta de algum trabalho correm na minha cabeça e não me encontro onde o meu corpo está - perco a consciência. Gostaria de voltar a estar presente. Que faço eu nos bosques, se a minha concentração foge para algo que não é o estar ali? Recrimino-me e não consigo evitar um arrepio quando me reconheço tão abstraído, mesmo se são nobres os motivos da abstração - o que, de facto, acontece com frequência."
Henry David Thoreau in Alma dos Livros.
"Vírus" de Inês Lourenço
Há uma tristeza inerme nos feriados,
um entrega do pulso das cidades
a um vírus insidioso
habitante das janelas onde
nada está para chegar
ou para partir. Lá dentro cumpre-se o decálogo
dos cansaços. Cá fora perdemo-nos
no planetário do asfalto, na vã arritmia
dos semáforos acesos. As fachadas
transbordam de umbrais vazios
e as frontarias bancárias da Baixa
semelham basílicas fechadas ao culto. À beira-mar
grupos de catalépticos auditores da Bola
oriundos de algum centro comercial
passeiam filhos, esposas e animais de companhia
até às esplanadas da outra margem,
para regressos na fila de escapes do crepúsculo.
in "Um Quarto com Cidades ao Fundo", Quasi edições, 2000.
"Curta Açores" na Ribeira Grande
segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
Foguetório
diz a antena, o écran, talvez o radar
é tempo do sacrifício, ossos contínuos
do ofício, desafios, por fios silenciamos
anda ver arder em Agosto o nosso sol
como um desgosto todo o ano
ninguém ganha uma pátria por acaso
ninguém nasce aqui por engano
ter um país é ter uma casa e não
um acaso de que só agora acordamos
Os teus dedos dão o sinal
há uma mão que o teu cabelo penteia
o país do risco ao meio no mapa
pisa o chão e calcorreia sem limite
é esse o nosso único propósito
depositar esperanças no sol e no vento
correria louca dos santos e dos mártires
desperta em nós floração
Quem viu a semente ser lançada?
pequena lembrança de um gesto
um balão rebenta em cores
cavalo rosa move-se a planar
subirá, subirá, subirá
Há um miolo de festa na boca
coro entrelaçado de gente
cai no chão aquecido embrulhado
urgente despe-se à luz de um tecido
levanta-se o véu sem escarcéu
e teme esta secular resistência
defendendo o corpo a corpo
enérgico o toque do sono
dá toque a reboque e cresce
entrada tardia em cena
riso cândido não é derrota
é o carrossel da animação
há a rapidez ao rodar da estação
entrou o Outono terminou o verão
desce à tristeza vem à melancolia
caro contentamento do adeus, enfim,
vitória ao vento, bóias ao mar,
pintar o quadro romper o círculo
Como foi possível chegarmos aqui?
Trazemos duas tábuas nos braços
chove tanto em Penafiel
laço antigo guarda-chuva caído
janela entreaberta e espreitar
vestidos e cortinados à porta
um raio contínuo de luz que entra
o capacete barroco ilude a queda, a morte,
veloz tirania do tempo presente
impaciente volúpia que rasga
gradação incerta da luta
graciosidade humana da criação
explode em brilho até o foguete cair
Nós?
(texto escrito a 27 de
Setembro de 2012, enquanto assistia ao espectáculo "Arraial" da
companhia Circolando no Mosteiro São Bento da Vitória, com o sonoro apoio dos Dead
Combo)
domingo, 5 de dezembro de 2021
Um Poema de Ana Paula Inácio
A mesa é feia e baixa, a cozinha escura e alta.
E elas? São duas,
mulheres, estranhamente longilíneas.
O tampo limpo. Os copos
secos. A lâmpada mal enroscada.
A roupa a bater nos
vidros.
Batem à porta. Deixa
entrar. É só o vento. Deixa passar.
Amanhã é domingo.
in "Vago Pressentimento Azul por Cima", Setembro, 2020 (Porto, Ilhas).
sábado, 4 de dezembro de 2021
Neste Mar...
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
"notas sobre um naufrágio" de David Enia
"Alguém
tentou remar, usando os braços por cima da borda. Alguém saltou para a água,
tentando arrastar o bote a nado.
Um
homem de quarenta anos aconselhou Bemnet a não se lançar ao mar, a não remar
com os os braços, a ficar quieto, a poupar todas as suas energias, a não
gastar forças.
Soou
quase como uma ordem.
Bemnet
decidiu dar-lhe ouvidos.
Alguém
tinha a garganta tão seca que tossiu sangue.
Alguém,
transtornado com sede, bebeu água do mar.
Verificaram-se
as primeiras agonias, seguiram-se os primeiros vómitos, dentro e fora do bote.
Surgiram
os primeiros casos de alucinação e os primeiros desmaios."
Edições Dom Quixote, 2021.
