quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Da Felicidade

 

Elegia Múltipla (III) de Herberto Helder

 Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
 
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
 
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
 
– a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
 
– como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.

Herberto Helder (1930-2015), "A Colher na Boca"

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Ilustração de Luís Miguel Castro

Três Sinais Editores, 2001
in Lamentações 
Apresentação de José Pacheco Pereira

 

Não São Poemas de Rui Costa

Não são poemas o que eu escrevo.
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor. 
Não são mortalhas incondicionais  do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÂO 
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo.
São espelhos onde os rostos principiam.

in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves,  Quasi Edições, Maio de 2005.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Verso de André Abujamra

 Percebam que a alma não tem uma só cor 

O Mergulho de Rui Machado

"Parte do movimento e da urgência dos sentidos.
A urgência, porém, consome tudo: consome a vida.
Arrasta-nos para a solidão.
Se for urgente, estamos sós. Que dizer, realmente sozinhos, com  as janelas da cabeça fechadas, as portas fechadas, ou nem sequer ter portas nem janelas. Ser-se um espécie de muro do mundo: a última barreira.
A cidade estava deserta. 
Chovia________ mas na verdade havia um grande encanto nisso, porque ele nem sempre imaginara uma visão assim: a visão duma cidade de cara lavada sem o afã da multidão nem o corrupio dos automóveis. 
Apenas as praças, as ruas, as casas, os jardins, os pequenos recantos.
A vida pacata no interior destas casas de bairro, agora duplicadas no chão alagado_________
É claro um pouco de atenção nos levaria a entrever toda a espécie de ruídos característicos de uma pequena  urbe portuária, como  a roda-viva do trânsito alvitrando ao longe a delicada manobra dos cargueiros, tanto a entrar como a sair do molhe. Mas a todos se sobrepunha esta permanência, este vazio______ perante o qual sentiu o chamamento da solidão interior." 
iPortugália Editora, Janeiro de 2009

sábado, 16 de setembro de 2023

A Natureza da Ausência*

Sem título, 1997-98
António Palolo 
Galeria do Centro Municipal de Cultura - Ponta Delgada*
Colecção de Obras de Arte Contemporânea 
Fundação Altice 

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Da Mesma Substância de Rui Lage

 ao Manuel António Pina
isso 
que assobia nos meninos de bairro,
racionada farinha da primavera 
siderado papel sem tintas de morte
amadurando no amor
(e o amor ciente disso),
isso
que lia como notícias da fome em África 

Meia maçã tão só seguiu a lei de Newton
tomou para si a larva outra metade
e cinge a gigante vermelha, num rapto,
o caroço mesmo da branca anã

As fivelas que mastigo
contra o céu da boca,
as espaldas do olhar
esmoendo-se em pó
como se respirasse  contra a evidência
de alguém que tropeça 
num fio de oxigénio.

in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004. 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

A Natureza da Ausência*

Campéstico, 1996
Álvaro Lapa 
Galeria do Centro Cultural do Centro Municipal de Cultural - Ponta Delgada*
Colecção de Obras de Arte Contemporânea 
Fundação Altice