Há três anos assisti a uma conferência do professor Nuno Crato num auditório de uma escola. O objectivo era estimular o gosto pela aprendizagem dos números, reforçar o papel e estudo da Matemática bem como compreender e interpretar a importância da aplicação dos números e do cálculo matemático em sociedade. Nada contra, bem pelo contrário, pois enquanto ouvi aprendi, escutei com interesse, atenção e prazer a prelecção, muito embora este tivesse começado o seu discurso por apelar à desconfiança das aprendizagens da Filosofia em detrimento das ciências exactas. Incomodava-o na Filosofia, o discurso redundante, a ausência de intencionalismo nas aprendizagens, a falta de aplicação dos conhecimentos.O auditório composto por alunos de científico-naturais e professores da disciplina de Matemática aceitou sem contestar o argumentário pois há muitos anos que o vento sopra a favor dos números, das contas, das estatísticas, ainda que sem grandes resultados aparentemente favoráveis. Esperemos mais um pouco e tudo façamos pelo rigor científico da contas e dos números. O que já se torna mais ingrato é ser professor de Filosofia sem pensar nas consequências de tais mistificações, passar o ano a referir a relevância de coisas valiosas ainda que tenham uma aplicação prática no quotidiano, ou que mesmo os alunos digam que estas coisas filosóficas não sirvam para nada. Sabemos também que sem conceitos e o seu esclarecimento não se consegue pensar, o mesmo se pode dizer que sem pensamento analítico e crítico as coisas não avançam assim como nunca foi tão necessário a produção e fundamentação de argumentos válidos e convincentes para convencer adversários ou opositores. O garrote e desdém pela Filosofia não é de agora, já começou há muitos anos, falta apenas saber até quando irá continuar???
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Porto São Bento
Porto São Bento é o desejo de teatro na verdadeira acepção da palavra, a sua mais carnal vontade, o seu rito colectivo de afirmar a voz e o corpo no palco, a realidade crua e sem fingimentos, a polis em palco. Cá fora há uma nova cidade que pulsa, regurgita e se agita, apesar da crise, mal-grado o medo, muito para lá da economia, do desemprego e da depressão. Eis-nos dentro do Teatro Carlos Alberto para ver Porto São Bento e ver que o trânsito existencial é plural, reflexo da coralidade, da polifonia, muito embora cada um fale na primeira pessoa, é-nos permitido viajar até ao interior do Porto com história e com estórias de gente com carne e osso e que julgam (des)esperar nas estações de metro. No fundo, pessoas como nós que nascem, crescem e morrem na cidade do rio douro, da foz, da francesinha e do granito. Daí a topografia não ficar circunscrita às estações de metro, mas sim a tudo aquilo que se inscreve no corpo de cada um e na cidade, convocando para isso o outro e o desejo de teatro, sendo que estamos na presença de actores profissionais e não profissionais. É que ao contrário das estações de metro o teatro pode ser também isto: encontro, partilha e reflexão.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Fazendo
O boletim Fazendo(https://issuu.com/fazendofazendo) regressa no dia 19 para o seu quinto ano, assumindo a periodicidade mensal.Convirá referir que o Fazendo deve muito da sua existência à vontade, empenho e dedicação dos seus colaboradores e, essencialmente, ao seu núcleo directivo. Outro factor é o empenho dos gráficos que nestes cinco anos criaram linguagem diferentes aos assuntos espelhados nas suas páginas. As dificuldades, mesmo com os obstáculos decorrentes da exigência da periodicidade quinzenal, o Fazendo conseguiu manter a regularidade e a qualidade, conseguiu também sintonizar-se com o que de melhor se foi fazendo na Ilha do Faial, no arquipélago e no continente. Deste modo, alargou o seu número de colaboradores e estendeu o seu raio de acção à Ilha do Pico. Esta existência do Fazendo não seria possível sem o contributo financeiro da direcção regional que foi reconhecendo a qualidade e validade deste projecto de índole literária e cultural. Pode-se assim afirmar que este projecto mantém-se no essencial bem sucedido, faltando apenas cumprir aquilo que é hoje tão apregoado e necessário: alargar o seu número de leitores.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
As coisas eternas perduram
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| Ilustração de Pedro Valim |
Comecemos assim pela singularidade e estranheza do título: “É na Terra não é na Lua”! O filme foi exibido no dia 7 de Outubro, no Auditório de Vila do Conde, numa proposta do cineclube local. Este super premiado documentário remete para o afastamento e isolamento deste lugar terrestre com apenas 17 quilómetros e 440 habitantes. O realizador Gonçalo Tocha, acompanhado por Dídio Pestana, faz aqui demanda às suas raízes açorianas com o objectivo de fixar o presente corvino em película, revelando-nos assim a ilha mais pequena do arquipélago bem como um gorro tecido por mãos que ligam o passado ao presente. O escritor Raul Brandão, também ele, deixou-se fascinar pelo Corvo em 1924 e onde viria a escrever dois anos depois nas “Ilhas Desconhecidas”: "Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo só as coisas eternas perduram.” O filme do Gonçalo Tocha e Dídio Pestana é um milagre que agora está acessível a todos - acaba de sair em DVD - aproximando-nos assim do Corvo, essa pequena ilha com alma de gigante guardada no meio do atlântico.
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