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| Fotografia de Dulce Cruz |
domingo, 29 de junho de 2014
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Há 30 anos
Jaime
Cruz editou o livro “Filósofos da Rua”, do jornalista Augusto Gomes, a impressão ficou
concluída nas Sanjoaninas desse ano, com uma tiragem de 1500 exemplares.Augusto
Gomes transporta-nos com os“Filósofos de Rua” até Chalandra e Knud
Andersen, dois homens que pautaram a sua vida pelo amor corajoso e devotado ao
mar. Neste seu entusiasmante relato ficámos a conhecer que um escritor-velejador dinamarquês
escreveu, em 1948, o livro “Med Sejlerin til Azorern” – “Com um Veleiro Até
aos Açores”, pela editora Gyldendal. Uma referência para os velejadores dinamarqueses presente nas bibliotecas daquele país escandinavo. Nos agradecimentos, o escritor-velejador reconhece "a proverbial hospitalidade terceirense". É tempo de perguntar, tantos anos depois, por que é que o livro ainda não se encontra traduzido para português?quinta-feira, 26 de junho de 2014
E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para
as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as
coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo,
Homem de Palavra[s]
Lisboa,
Editorial Presença, 1999 (5ª ed.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Inquérito do Estio
Neste Estio conseguimos uma coisa que só é mesmo possível na estação
dos garajaus e das hortênsias: um inquérito
de verão ao Doutor Mara. Há muito que se aguardava um regresso desta natureza,
fruto de uma longa ausência e má vontade da sua parte em lidar com o barril de
pólvora mediático que nos assola. As últimas notícias davam conta de um homem afastado da
realidade social, dado que se tinha retirado há muito deste mundo para viver
num moinho junto de um cerrado, elaborado e construído por si e mais dois
amigos ligados à nova carpintaria portuguesa. Sorvamos, assim, as doutas
respostas deste doutor, enviadas pelo correio e com um selo antigo com o preço desactualizado, escrito na sua
estranha caligrafia, inserido num envelope de papel cuchê de cor carmim.
DM:Doutor,
doutor, rio ou mar?
DM:Mar, evidentemente. O
rio tem sido invadido por motas de água e outras espécies raras.
DM: Destaca o quê
concretamente neste verão?
DM:As hortênsias que estão
muito preclaras e sublimes mas que, infelizmente, são invasoras, segregando
tudo em redor. É pena. E ainda os garajaus que continuam a fazer voos rasantes
e algo despropositados face à temperatura muita fria das águas.
DM: Como eram os Verões da
sua meninice?
DM: Eram passados à beira-mar, a maior parte das vezes refugiava-me
dentro dos botes ou dos batéis (conhecidos por Caicos) para escapar ao sol, ainda
sem a preocupação do buraco do ozono. A maior parte das vezes adormecia no
interior destes e isso causava um transtorno enorme para a minha família pois
passavam a tarde inteira à minha procura.
DM: O que é que mais gosta
de fazer nesta estação?
DM: De dar banho ao cão.
DM: De que é o que o Doutor
tem mais saudades de fazer nestes meses estivais?
DM: De andar de comboio.
Foi nesse meio de transporte que aprendi os nomes das terras do meu país e a gostar de ler.
DM: O Doutor quer dar-nos três músicas para
ouvir?
DM-“Watermellon in the
Easter Hay”do Frank Zappa, álbum”Joe´s Garage, “Vulcão dos Capelinhos” de Luís
Alberto Bettencourt e o “Marujo”, pela voz do Carlinhos Medeiros.
DM: Uma frase que o tenha
marcado recentemente?
DM:“Ao decidirmo-nos a dissertar sobre um qualquer objecto, é aconselhável
reflectir, e depois dar a conhecer aos outros, sobre o modo como chegámos a
pensar precisamente nesse objecto, e quais as condições que nos levaram a dedicar-lhe
uma atenção crescente.”É uma frase do
meu velho amigo Goethe.
DM:Que tipo de leituras
costuma efectuar na estação favorita de Johannn Wolfgang Goethe?
DM:De manhã leio poetas,
sobretudo alemães, mais poemas de portuenses frequentadores do Pequeno Orpheu e
também poetas das nossas ilhas ultra periféricas. À tarde, leio ensaios sobre a
crise capitalista e as energias renováveis, ao cair da tarde entro a fundo nos
ensaios sobre a natureza da estética ou o fim da arte na era da técnica. E, à noite, remato
sempre com um ou dois romances que abordam a atomização crescente dos
indivíduos e a falta de esperança das novas gerações de políticos formados nas
escolas de Economia e Direito.
DM:De que sente falta na
canícula?
DM: Muito sinceramente, tenho saudades de
comer um Super Maxi (nunca percebi porque lhe chamam assim) bem como o de me
encontrar com os Manos Manaia, sobretudo com a minha amiga Miriam Manaia. Ah…e ainda do meu
magnífico e escapulido amigo, o Janeiro Alves, nem imaginam o quanto é bom entrar noite
dentro com ele e com as nossas charlas intermináveis rodeados de vinho
biológico e favas escoadas.
DM: O nosso mui obrigado,
Doutor.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
[Ó Lírio, não trates assim a flor do campo]
As senhoras
da limpeza aguardam à entrada
carece de explicação o desencontro
-ó lírio, não trates assim a flor do campo, (a cibernética agradece)
padece dum real concreto ou de esquecimento neste caso
de novo será coração-carmim concentrado a esvair-se
na polpa dos dedos o rebolar de palavras que não casam
o músico omisso devia constar de reunião
como se enrolassem palavras sem querer
até ficarem exaustos num combate observado à distância
a consciência do outro de cada vez a expressar
muito antes do cuidar no interior dos dias e das noites
As notas erradas são sempre falta de ar
brotam ganas e ânsias como se cantassem de madrugada
o solo de plantas saudadas pela rua na voz da criança-poeta.
carece de explicação o desencontro
-ó lírio, não trates assim a flor do campo, (a cibernética agradece)
padece dum real concreto ou de esquecimento neste caso
de novo será coração-carmim concentrado a esvair-se
na polpa dos dedos o rebolar de palavras que não casam
o músico omisso devia constar de reunião
como se enrolassem palavras sem querer
até ficarem exaustos num combate observado à distância
a consciência do outro de cada vez a expressar
muito antes do cuidar no interior dos dias e das noites
As notas erradas são sempre falta de ar
brotam ganas e ânsias como se cantassem de madrugada
o solo de plantas saudadas pela rua na voz da criança-poeta.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Os Homens da Ilha Terceira
na ilha Terceira passam todas
as nuvens do mundo
na ilha Terceira nasce o branco movimento do céu
o cinzento é curto, passageiro
por causa dos olhos dos homens
na ilha Terceira há homens de olhos azuis à nossa espera
homens pacientes de uma imaginação gigante
porque estão habituados a ver pessoas partir
homens inteiros lânguidos fitando o Atlântico
recebem-nos em júbilo sem nos perguntarem o nome
ensinam-nos que o nome é o último indício da alma
e que o mar todos os dias rega o olhar de azul
dizem isto e mergulham, desaparecem na noite líquida
por entre marés vivas como se não doessem
a dor, o sorriso inesgotável que estes homens provocam
dura muitas ilhas e enraíza-se muito depressa
eu parto e crescem-me hortênsias nas pupilas,
hei-de regá-las obsessivamente de azul
quando a falta que eles me fazem descorar
na ilha Terceira a última coisa que morre é o olhar
morre primeiro a esperança, o dia, a vida, só depois o olhar
na ilha Terceira nasce o branco movimento do céu
o cinzento é curto, passageiro
por causa dos olhos dos homens
na ilha Terceira há homens de olhos azuis à nossa espera
homens pacientes de uma imaginação gigante
porque estão habituados a ver pessoas partir
homens inteiros lânguidos fitando o Atlântico
recebem-nos em júbilo sem nos perguntarem o nome
ensinam-nos que o nome é o último indício da alma
e que o mar todos os dias rega o olhar de azul
dizem isto e mergulham, desaparecem na noite líquida
por entre marés vivas como se não doessem
a dor, o sorriso inesgotável que estes homens provocam
dura muitas ilhas e enraíza-se muito depressa
eu parto e crescem-me hortênsias nas pupilas,
hei-de regá-las obsessivamente de azul
quando a falta que eles me fazem descorar
na ilha Terceira a última coisa que morre é o olhar
morre primeiro a esperança, o dia, a vida, só depois o olhar
Dulce Cruz
sábado, 14 de junho de 2014
quinta-feira, 12 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Do Mar
"A minha mãe gostava muito do mar
e levava-me até lá quando era pequeno. As minhas primeiras recordações são de
caminhar à beira-mar com os meus amigos conversando sobre os primeiros
encantamentos amorosos. Nós, enquanto espécie humana, vimos do mar, aprendemos
a nadar antes de andar, nas águas da mãe onde somos feitos. Somos feitos de
água em 70 por cento. (…) Mas para mim o mar é outra coisa. É o mar da posição
horizontal, não da luta para dominá-lo, mas ao contrário, para se abandonar. É
o mar da felicidade. É por isso que o mar está indissociavelmente ligado ao
amor, a Eros. Para mim, era inconcebível o amor sem o mar. O mar está também na
história da minha vida, das paisagens e do amor, isto é, desse grande abandono
nos braços da vida. Sem luta. Nado muito mas isso não tem nada a ver com o
desporto, não, não, é realmente abandonar-se em grandes braços amorosos."
Claude Magris, in Ler, Dezembro de 2013.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Dois Poemas de Eduardo Bettencourt Pinto
Homem consigo próprio
E por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do Inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casa crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido,
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
fluidez ardente da paixão
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade,
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em São Francisco enquanto se concentrava num
[Dalí,
comeu piza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou em frente à Casa Branca numa demonstra
[ção contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou num fábrica de sabões tantos anos
Que até a primavera cheirava a sabonete
reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.
Residência
Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mão levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
«Um homem que ama nas sombras o fulgor e as
[essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria», dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.
Não podes morrer contra o sonho contando
as pedras e alvoroços,
a face reflectida nos espelhos da alma.
Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os rios da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.
«Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras», dizes, os cisnes de Junho
nadando em círculos nos teus olhos.
in “nove rumores do mar – antologia da poesia açoriana contemporânea”.
E por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do Inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casa crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido,
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
fluidez ardente da paixão
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade,
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em São Francisco enquanto se concentrava num
[Dalí,
comeu piza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou em frente à Casa Branca numa demonstra
[ção contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou num fábrica de sabões tantos anos
Que até a primavera cheirava a sabonete
reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.
Residência
Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mão levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
«Um homem que ama nas sombras o fulgor e as
[essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria», dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.
Não podes morrer contra o sonho contando
as pedras e alvoroços,
a face reflectida nos espelhos da alma.
Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os rios da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.
«Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras», dizes, os cisnes de Junho
nadando em círculos nos teus olhos.
in “nove rumores do mar – antologia da poesia açoriana contemporânea”.
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