"As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha
do horizonte ao longo de toda a costa atlântica."
Jorge Sousa Braga, in "A Greve dos Controladores de Voo" (1994).
sexta-feira, 16 de março de 2018
quinta-feira, 15 de março de 2018
No Way Back
“Como sair daqui?” Perguntas
bem, amigo.
Diógenes diria “à catanada,
vivamente”,
Lichtenberg “à gargalhada”, se o
conheço.
Thomas Bernhard proporia “num
rectângulo
de tábuas” e Machado que o
caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett
é provável
que dissesse “rastejando”.
Diderot aventaria
“pela rua do liceu”, Tcheckov
“pela viela
mais escura, à tua esquerda”.
Séneca diria,
muito sonso, “pelo passeio das
Virtudes”,
Vaneigem “pelo jardim das
Belas-Artes”.
Bashô responderia (e eu com ele)
“é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há
vinho na garrafa”.
José Miguel Silva, in “Walkmen”.
quarta-feira, 14 de março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
Arco 8: Pista para um Dj Mara (do)
A
música está no sangue, o seu vigor, encanto, energia e ritmo. Ouvi-la, querer
partilhá-la com os outros. Outros românticos que cultivam o gozo, a seiva, o
prazer pelos sons, instrumentos e vozes. São sons diversos, palavras e ritmos
oriundos de geografias, por vezes próximas, outras bem remotas. Música com
ânimo, génio e gente dentro. Respira-se, por instantes, a fúria dos desalinhados, a fulgência
dos candeeiros nocturnos, pressentem-se os gritos e as exclamações de
liberdade, estique-se a corda pela batida, arriscam-se passos de dança inusitados e
comete-se também o desplante de combinar sonoridades que não lembram a ninguém,
tão pouco ao próprio que elege o cardume sonoro. Resulta? Esperemos mais um
pouco, a pista vai abrir. Aguente-se a investida, permita-se mais um devaneio e
procure-se a comunhão com o que é raro, o difícil, isto é, encontrem-se cúmplices para a grande viagem musical da noite que se segue. Não é certo que
chegaremos a porto seguro, alguém soa o toque dos transatlânticos e dá-se o pontapé de saída com a memória daquele músico apaixonado da guitarra. E, ao que
tudo parece indicar, ninguém fica para trás ou de fora deste navio carregado de tesouros e surpresas. É música para um serão tardio e o que virá a seguir ninguém sabe,
sendo certo que aquele meliante dos sons irá desafiar as convenções do mandarinato dos tocadores de música...
O
que faz de nós amantes de música generosa e benigna? Querer ouvi-la bem alto,
se possível, até raiar o vermelho, dançá-la, erguê-la numa taça e oferecê-la de
bandeja a quem quiser, servir de transporte para esses situação de puro
desvairo e deleite, desejo por abrir-se de forma porosa à decantação musical e,
à semelhança de um bom vinho, degustá-lo e saboreá-lo na perspectiva de que é
desta que está reunida a melhor colheita.
Convenhamos,
por tudo isto que se passou já bem de madrugada, seria útil recordar que neste agrupamento sonoro houve
elementos musicais muito díspares ligados pelo fio condutor daquela galeria,
membranas dum corpo estranho à solta, que vai desde a pop britânica dos Shed
Seven, Franz Ferdinand, Dans Le Sac Vs Scroobius, Memorie Tapes, Tindersticks até aos portugueses Miguel Guia & Tó Ricciardi,
Linda Martini, O´rquestrada, Galundum Galandaina, Bandarra, Gaiteiros de
Lisboa, passando pela música cigana, marroquina, maliana, cabo-verdiana,
angolana, argentina, brasileira, senegalesa, etc. Enfim, um oceano de portos e
embarcações que confluem, melhor dizendo, navegam com se fossem uma paleta sonora diversa e variada. Uma rota com ondas e marés que se exploram, um suave cheirinho do que foi a influência
das estações de rádio dos loucos anos oitenta e noventa na cabeça de um adolescente da província que continua a gostar de escutar e sentir a música.
PS-Os respectivos agradecimentos ao
Pedro Bento por ser, mais uma vez, um mecenas/apoiante da diversidade das
espécies, um real protector das Espécies Musicais Raras ou em vias de
extinção.
segunda-feira, 12 de março de 2018
"I Don´t Belong Here" no Micaelense
“I
Don’t Belong Here” já foi uma peça de teatro e agora adquiriu nova vida através
do documentário, pela mão do realizador Paulo Abreu. O lugar da
estreia/apresentação foi este fim-de-semana na sala do Teatro Micaelense, na
cidade de Ponta Delgada. Em dois dias, sexta e sábado, duas sessões, com
direito também a sessão para as escolas. E, pela pertinência e atualidade do
tema, o público aderiu à chamada com os autores presentes no final da
apresentação para debate.
Desde
2013 que um grupo de pessoas (Dinarte Branco, Nuno Costa Santos, actores e a
própria direção do teatro) esteve envolvido neste processo criativo que viria a
dar origem a uma peça de teatro. O realizador Paulo Abreu acompanhou e deu
conta dos ensaios, ao mesmo tempo filmou as experiências pessoais dos
intérpretes presentes nesta viagem em que o mote é o lugar de pertença. Desta
feita, os intérpretes de “I Don´t Belong Here” são cidadãos oriundos dos EUA e
do Canadá que, após cumprida pena de prisão, são deportados para os Açores,
vivendo assim uma “nova vida” afastados do lugar onde cresceram ou fizeram uma
boa parte das suas vidas.
O
documentário de 76 minutos está focado nos intérpretes da peça, desde o período
de ensaios e à digressão pelos lugares por onde esta passou, até mesmo às
impressões pessoais que cada um deles vai fazendo nos sítios da digressão.
Estas pessoas narram aqui
as suas histórias de vida bem como revelam a sua reintegração social a que
estão submetidas. O realizador partilha com a audiência os diferentes monólogos
e diálogos do grupo, mostra esse momento de alegria e evasão que estas pessoas obtiveram
ao fazer parte deste processo.
Paulo Abreu é cúmplice desta coragem ao expor
uma realidade que, certamente, muitos deles queriam há muito esquecer. A
vantagem deste trabalho documental pode vir muito do reconhecimento do absurdo
desta situação ou do esclarecimento da existência desta realidade.
E, pelo meio de tudo isso, a beleza, o ritmo e delicadeza dum trabalho documental muito bem
feito!
sexta-feira, 9 de março de 2018
quinta-feira, 8 de março de 2018
Excerto
Comem-lhe
da mão,
cheiram-lhe
a saia, lambem-lhe
os
sapatos.
Iriam
mais longe, se ela abrisse as pernas.
Mas
contentam-se com pouco.
Trezentos
exemplares,
uma
fêmea que finja ter-lhes lido os versos,
o
nome no jornal de dois em dois anos.
Precoces
e curtos, apesar de famintos.
[Os
poetas]
Madalena de Castro Campos, in O Fardo do Homem Branco, Companhia das Ilhas, 2013.
quarta-feira, 7 de março de 2018
Uma Missiva de JB Malaca na Caixa do Correio
Caro Doutor Mara
Não tenho o privilégio de me dirigir ao meu ilustre amigo desde o tempo do nevoeiro, quando deambulávamos pela noite de Ponta Delgada a observar a movida e parávamos nas tascas, onde, entre sandes de atum e vinho de dois euros, mudávamos o mundo e a cultura e cortávamos na casaca dos arcebispos. Agora estou refugiado no palacete do Livramento onde entardeço o sonoro regresso arrulhado das rolas aos ninhos que construíram nas yucas do quintal. Estas columbiformes do género Streptopelia são aves ditas territoriais na época do acasalamento, mas eu ainda consigo ouvir os outros pássaros.
O seu sempre amigo
Não tenho o privilégio de me dirigir ao meu ilustre amigo desde o tempo do nevoeiro, quando deambulávamos pela noite de Ponta Delgada a observar a movida e parávamos nas tascas, onde, entre sandes de atum e vinho de dois euros, mudávamos o mundo e a cultura e cortávamos na casaca dos arcebispos. Agora estou refugiado no palacete do Livramento onde entardeço o sonoro regresso arrulhado das rolas aos ninhos que construíram nas yucas do quintal. Estas columbiformes do género Streptopelia são aves ditas territoriais na época do acasalamento, mas eu ainda consigo ouvir os outros pássaros.
Às Quintas pego na cesta (…) dos
livros e rumo à nossa tasquinha da Rua de Lisboa. Digo nossa, porque lá
passámos bons momentos e, estou certo, havemos de passar muitos mais. Continuam
a surgir espontâneos diseurs, bardos, poetas malditos e alguma fauna
subterrânea do bas-fond pontadelgadense. Mas não é para falar da minha rotina
nem das nossas memórias conjuntas que lhe escrevo estas palavras no meu teclado
Bluetooth. O assunto desta narrativa electrónico-espitolar tem a ver com a
publicação em certa revista literária, da troca de correspondência entre o meu
ilustre companheiro e esse outro compagnon de route, o nosso, não menos
ilustre, Janeiro Alves. Ora, na dita revista, são revelados segredos que deitam
por terra a aura romântica da superidentidade dos meus excelsos amigos.
Imagine, caro Doutor Mara, se o Super-Homem revelasse a Metrópolis que não era
mais que o modesto Clark Kent jornalista do "Daily Planet" ou que o Batman
revelasse que na realidade era Bruce Wayne, o milionário de Gotham. Era um
desastre para Humanidade. E para que não restem dúvidas, não sou o único a
insurgir-me contra esta escorregadela identitária. Há dias em conversa com o
nosso amigo comum, o senhor Arq. A., portuense ilustre, que escolheu uma das
ilhas de baixo para viver e trabalhar, bem o ouvi insurgir-se com esta
aguilhada no mito, este levantar do véu da lenda.
Saiba o meu amigo que as
consequências podem ser demolidoras. Espero, a bem da reputação dos meus
amigos, que os leitores da revista sejam discretos.
O seu sempre amigo
JB Malaca
(arq. Naturalista Pós Graduado em Geografias
Oníricas)
terça-feira, 6 de março de 2018
A Arma do Jazz
"De todas as operações
conhecidas da CIA, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca,
pelo facto inusitado de a arma usada ser a música, mais concretamente o jazz.
Foi um programa criado em 1968, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da
operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração
do que um projeto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por
objetivo organizar e cometer, dentro das fronteiras americanas, diversos atos
terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc.,
atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão – estes
documentos foram tornados públicos em 1997. Mas já no final dos anos sessenta,
a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, em que se pretendia, através da
música, melhorar a perceção internacional que se tinha dos Estados Unidos da
América, que era especialmente negativa.
Organizaram-se
diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários talentos do
jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e
Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os preferidos para mostrar
ao mundo que, afinal, os americanos não eram racistas. Genuinamente,
acreditaram poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, evangelizando uma
juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros
géneros musicais, especialmente o jazz.
Este facto parece-me uma das
ideias mais fantásticas da humanidade: pretender conquistar o mundo através da
música em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A
música tem um enorme poder transformador, quase imediato, é uma das únicas
artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos fazer dançar,
provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser de qualidade para o
conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por
pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado, o
muro só viria a cair muitos anos depois, mas a esperança, ainda que utópica,
não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num
baile em vez de com a explosão de uma bomba de hidrogénio."
Afonso Cruz in “Nem todas as Baleias Voam”
Da Memória
(...) com o tempo, um princípio de entropia corrói a recordação, que fica como que roída pela traça, lacunar se desfia e, in extremis, quando a queremos reconstituir passados tantos anos, só nos restam bocados incertos..."
Edgar Morin, As Grandes Questões do Nosso Tempo, Notícias, 1987.
segunda-feira, 5 de março de 2018
(...)
de manhã as ruas estão cheias de breves insurreições
as pessoas zangam-se com tanta espera
e apitam ao portão da escola
confundem via-rápida com rotunda
trespassam a passadeira e atropelam
adormecem no semáforo
a revolução pressupõe mecanismos matemáticos
um certo controlo de velocidade
estradas mais equilibradas e racionais
trajectos que nos levem em segurança
a um futuro calculável
os verdadeiros assassinos
cumprem os sinais de trânsito
isto de por acaso contornar a esquina a pé
e assaltar a despensa do presidente
é que não dá
Leonardo
Noivado
"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
-És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."
-És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."
in
“Contos do Gin Tonic”, de Mário-Henrique Leiria.
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