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| Fotografia de Carlos Olyveira (A partir de um desenho de Petar Šćulac) |
sábado, 24 de março de 2018
sexta-feira, 23 de março de 2018
quarta-feira, 21 de março de 2018
Tremor: O Quinto já cá está!
Ontem
começou o Tremor. É já a quinta edição. O primeiro dia teve lugar no Teatro
Micaelense com a apresentação do festival pela organização, entidades públicas e demais promotores.
A sala encontrava-se cheia de residentes e forasteiros para ver “Levantados do
Chão”, esta primeira proposta realizou-se sob o signo do cinema e da música, onde
vimos o fotógrafo Daniel Blaufucks juntar-se à Banda Lira das Sete Cidades para
(des) alinhar a imagem mais o som na despedida do Hotel Monte Palace nas Sete Cidades. O autor não quis denominar de filme,
ainda bem, pois as ditas “fotografias expandidas” valem pela ideia da ruína dum
tempo em que só a natureza o altera. Os textos presentes nos créditos finais
enunciam, portanto, uma visão do mundo que permanece e que, passados tantos
séculos depois do povoamento, nada parece ter realmente mudado. As ruínas, a
paisagem, o esmaecer das cores daquele edifício confirmam um "fazedor de imagens" de olhos
bem abertos e ouvidos à escuta. Ali, sim, é a natureza que nos invade. No entanto, a duração deste propósito revelado pareceu-nos longo quanto à sua duração bem como a imagem
assíncrona da banda com a imagem nem sempre resulte. Na parte de cima do teatro, retomar-se-ia a mistura com os músicos Rafael Carvalho, mestre na viola de dois corações, e Flip, amante dos sons electrónicos e experimentador, a esgrimir argumentos num diálogo sonoro imprevisto, evidenciando uma postura ambiciosa para uma proposta embrionária que ainda pode vir a dar frutos.
Por
último, no já mítico Auditório Camões, o concerto dos regressados Três Tristes
Tigres para dar conta do seu rock electrónico, com pendor na guitarra de Alexandre
Soares (que garra e energia voltar a escutá-lo!) e a voz de Ana Deus, a relembrar temas de “Partes
Sensíveis” (1993), “Guia Espiritual” (1996), "Comum" (1998) e "Visita de Estudo" (2001). Do álbum “Partes Sensíveis” recordaram-se canções como “Letra Morta” ou “Descapotável”,
de “Comum” houve “Combat” ou “Motim” e ainda “Anormal”, “Kainever”, “Olho da Rua”, do
álbum Guia Espiritual, onde não existiu lugar para o popular “Zap Canal”.
Hoje, quarta-feira, o tremor musical continuará, ao todo são cinco dias e trinta e
nove concertos espalhados pelos sítios mais inusitados e inesperados desta ilha
no meio do Atlântico.
terça-feira, 20 de março de 2018
Uma Carta Surpreendente de Janeiro Alves para JB Malaca
Caro JB Malaca,
Depois de algumas
noites sem dormir e gastos imprevistos em fármacos (ainda não é desta que troco
de esquentador), decidi pôr fim à amplificação deste equívoco, que de tão
caricato parece um neo-surrealismo abstracto. É realmente lamentável que sendo
o meu amigo Malaca uma pessoa tão informada, não tenha ainda discorrido sobre a
razão deste estrutural lapso. Farei por elucidá-lo, hoje que acordei imperturbado.
Faça o favor de me seguir.
Não querendo pôr em
causa a dignidade do meu caro amigo Doutor Mara, nem tampouco levantar falsos
testemunhos, o que é facto é que essa sua conhecida mania de deambular pela
cidade sempre com o seu sobretudo atestado de manuscritos importantes
misturados com contas para pagar, o borda d’água, um ou outro paliteiro e
papelinhos de embrulhar caramelos, um dia tinha de resultar mal. Como seria de
esperar, houve uma tarde em que por força das recentes intempéries insulares,
tudo voou dos bolsos desse admirável, e se espalhou num bailado literário às
portas da Igreja do Colégio. Parecia a imagem de um milagre, que rapidamente se
transmutou em catástrofe. De entre os documentos que foram parar a mãos erradas
constavam as mais recentes cartas trocadas entre nós. Quis o destino malfadado,
esse inferno de mil pragas, que as cartas se colassem às mãos da famigerada dupla
FN e PG, que se apropriou indevidamente das mesmas em benefício próprio, com o
intuito de capitalizar prestígio em insigne circuito intelectual. Mas isto não
fica por aqui. Ao saber da circunstância da publicação de duas das nossas
cartas em certa revista literária, contactei a respectiva direcção para reclamar
da fraude. Riram-se categoricamente, afirmando de forma não menos categórica
que eu e o Doutor Mara habitávamos apenas no campo da ficção. Eu que em carne e
osso lhes falava ao telefone, não existia! Veja ao que isto chegou, caro JB.
Neste momento a dupla FN e PG está incontactável e em parte incerta, e nós nada
podemos fazer, pois não existindo não dispomos de personalidade jurídica.
Por fim, não posso
deixar de referir que a sua carta dirigida a Doutor Mara é um tanto ou quanto
paradoxal. Se por um lado ela faz a apologia da discrição sobre o assunto para
bem dos intervenientes, por outro cultiva a polémica de forma inadvertida e
precipitada. Quando a poeira assentava já novamente no tapete, o meu caro amigo
volta a sacudi-lo. Meu caro JB Malaca, permita-me a seguinte interrogação:
Quais são as suas verdadeiras intenções?
Com o devido respeito
e amizade,
Janeiro Alves (o
próprio)
Um poema de Vítor Baluarte
(Versos do canto da
Rua D´Agoa)
A
terra dá
a
quem veio do mar
mais
do que lugar
pés
realmente assentes
a
homens valentes
que
vem descansar
a
terra dá
a
quem caiu do céu
suave
impacto
fazendo
com o chão pacto
de
aqui caído pertencer
a terra dá
de
volta ao corpo o corpo
que
na terra jaz morto
acolhedor porto
de
mar coveiro que produz
sepultura
submissa a cruz
a
terra dá
e
tira a quem
em
mãos tinha terra
e
de terra se viu sem
desta
terra de ninguém
segunda-feira, 19 de março de 2018
sábado, 17 de março de 2018
Sala de Embarque: Um ano Depois!
“Aproveita enquanto andamos por
aqui”, dizia-me
muitas vezes a Joana Matos, para convencer-nos que a viagem se encontrava no
início e que deveríamos aproveitar aquele momento. Ainda hoje nos interpelamos porque
fizémos uma única vez no palco do teatro, dado que era grande o investimento e
entusiasmo por representar naquele palco. E depois de termos esgotado a capacidade da sala e
terem ainda disponibilizado mais dezassete lugares para quem quisesse assistir,
ficou-nos por ali uma leve insatisfação e uma alguma tristeza ou incompletude
no resultado final. No entanto, sentimo-nos agradecidos a todos os que se empenharam
com a nossa passagem pela sala do Teatro Micaelense.
E
para quando uma digressão pela ilha? A pergunta de tantas vezes repetida que
algum tempo depois decidimos colocar mãos à obra. E, dada a
proximidade das festas e do verão, deparámo-nos com várias dificuldade em levar
a peça ao Teatro Ribeiragrandense pois houve sempre incompatibilidade com datas e disponibilidade do elenco. Conseguiríamos depois apresentar em sessão dedicada às escolas e, com a
colaboração dos finalistas do secundário, no auditório escola de Vila Franca do
Campo. E ainda pouco tempo antes das férias, acampámos no formidável “Cineteatro
Lagoense Francisco D´Amaral Almeida”, na cidade da Lagoa, com direito a vários
dias em cima do palco para ensaios e trabalho de luz e som com o Cristóvão
Ferreira, numa experiência que resultou aprimorada e harmoniosa como se constatou no
trabalho final. Curiosamente, reconhecemos hoje que esta terá sido a nossa melhor
apresentação das seis efectuadas.
Em
suma, um ano depois, fica a evocação e memória teatral pois façamos jus e força para que outras e
novas aventuras teatrais surjam no horizonte. Assim haja oportunidade.
Antes da Ordem do Dia
Deveríamos
concentrar-nos na escrita
ou então proferi-lo
oralmente
sobre aquilo que aqui hoje nos trouxe
já foi simplesmente apelidado de inconsequente
sobretudo déja vu
(perdoem os franceses pelo anacronismo do termo)
E se fossem todos dar uma volta ao bilhar grande
ou confirmarem a minha presença na esquina
é que não me contenho de descontentamento
lavem os dentes ou remetam-se ao silêncio
é tudo o que me ocorre neste instante
sobre aquilo que aqui hoje nos trouxe
já foi simplesmente apelidado de inconsequente
sobretudo déja vu
(perdoem os franceses pelo anacronismo do termo)
E se fossem todos dar uma volta ao bilhar grande
ou confirmarem a minha presença na esquina
é que não me contenho de descontentamento
lavem os dentes ou remetam-se ao silêncio
é tudo o que me ocorre neste instante
sexta-feira, 16 de março de 2018
(...)
"As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha
do horizonte ao longo de toda a costa atlântica."
Jorge Sousa Braga, in "A Greve dos Controladores de Voo" (1994).
do horizonte ao longo de toda a costa atlântica."
Jorge Sousa Braga, in "A Greve dos Controladores de Voo" (1994).
quinta-feira, 15 de março de 2018
No Way Back
“Como sair daqui?” Perguntas
bem, amigo.
Diógenes diria “à catanada,
vivamente”,
Lichtenberg “à gargalhada”, se o
conheço.
Thomas Bernhard proporia “num
rectângulo
de tábuas” e Machado que o
caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett
é provável
que dissesse “rastejando”.
Diderot aventaria
“pela rua do liceu”, Tcheckov
“pela viela
mais escura, à tua esquerda”.
Séneca diria,
muito sonso, “pelo passeio das
Virtudes”,
Vaneigem “pelo jardim das
Belas-Artes”.
Bashô responderia (e eu com ele)
“é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há
vinho na garrafa”.
José Miguel Silva, in “Walkmen”.
quarta-feira, 14 de março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
Arco 8: Pista para um Dj Mara (do)
A
música está no sangue, o seu vigor, encanto, energia e ritmo. Ouvi-la, querer
partilhá-la com os outros. Outros românticos que cultivam o gozo, a seiva, o
prazer pelos sons, instrumentos e vozes. São sons diversos, palavras e ritmos
oriundos de geografias, por vezes próximas, outras bem remotas. Música com
ânimo, génio e gente dentro. Respira-se, por instantes, a fúria dos desalinhados, a fulgência
dos candeeiros nocturnos, pressentem-se os gritos e as exclamações de
liberdade, estique-se a corda pela batida, arriscam-se passos de dança inusitados e
comete-se também o desplante de combinar sonoridades que não lembram a ninguém,
tão pouco ao próprio que elege o cardume sonoro. Resulta? Esperemos mais um
pouco, a pista vai abrir. Aguente-se a investida, permita-se mais um devaneio e
procure-se a comunhão com o que é raro, o difícil, isto é, encontrem-se cúmplices para a grande viagem musical da noite que se segue. Não é certo que
chegaremos a porto seguro, alguém soa o toque dos transatlânticos e dá-se o pontapé de saída com a memória daquele músico apaixonado da guitarra. E, ao que
tudo parece indicar, ninguém fica para trás ou de fora deste navio carregado de tesouros e surpresas. É música para um serão tardio e o que virá a seguir ninguém sabe,
sendo certo que aquele meliante dos sons irá desafiar as convenções do mandarinato dos tocadores de música...
O
que faz de nós amantes de música generosa e benigna? Querer ouvi-la bem alto,
se possível, até raiar o vermelho, dançá-la, erguê-la numa taça e oferecê-la de
bandeja a quem quiser, servir de transporte para esses situação de puro
desvairo e deleite, desejo por abrir-se de forma porosa à decantação musical e,
à semelhança de um bom vinho, degustá-lo e saboreá-lo na perspectiva de que é
desta que está reunida a melhor colheita.
Convenhamos,
por tudo isto que se passou já bem de madrugada, seria útil recordar que neste agrupamento sonoro houve
elementos musicais muito díspares ligados pelo fio condutor daquela galeria,
membranas dum corpo estranho à solta, que vai desde a pop britânica dos Shed
Seven, Franz Ferdinand, Dans Le Sac Vs Scroobius, Memorie Tapes, Tindersticks até aos portugueses Miguel Guia & Tó Ricciardi,
Linda Martini, O´rquestrada, Galundum Galandaina, Bandarra, Gaiteiros de
Lisboa, passando pela música cigana, marroquina, maliana, cabo-verdiana,
angolana, argentina, brasileira, senegalesa, etc. Enfim, um oceano de portos e
embarcações que confluem, melhor dizendo, navegam com se fossem uma paleta sonora diversa e variada. Uma rota com ondas e marés que se exploram, um suave cheirinho do que foi a influência
das estações de rádio dos loucos anos oitenta e noventa na cabeça de um adolescente da província que continua a gostar de escutar e sentir a música.
PS-Os respectivos agradecimentos ao
Pedro Bento por ser, mais uma vez, um mecenas/apoiante da diversidade das
espécies, um real protector das Espécies Musicais Raras ou em vias de
extinção.
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