Lhasa
de Sela: Quando
estou com as pessoas que amo ou quando estou com gente com que me entendo bem.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
2018 despediu-se...com Janeiro Alves na Caixa do Correio
Caro
Doutor Mara,
Escrevo-lhe esta carta no último
suspiro de 2018, desejando que a mesma o encontre capacitado para as artimanhas
que um ano com a fisionomia de 2019 deixa antever. Todo o cuidado é pouco para
um ano deste calibre, meu caro amigo!
A razão desta carta é dar-lhe um
pequeno vislumbre da minha actual situação e das circunstâncias que a ela me
conduziram. Recebi um convite do Royal Hotel Magestic para a gala do fim de
ano, estabelecimento de grande categoria e reputação, onde curiosamente recebi
o galardão de autor da “Pior Obra Literária do Ano”. Preparei logo o meu fraque
Suiço e puxei todo o lustro que consegui aos meus sapatos italianos de cetim
afivelados. Até aqui tudo normal. O Doutor Mara sabe que me dou bem nos
círculos da alta roda. Mas eis que o mais inesperado aconteceu. Insólito mesmo,
para não dizer de uma estranheza teatral. Quando entro no grande salão
presidencial, deparo-me com mesas redondas de uma elegância inolvidável, com
pessoas de uma beleza de cristal já sentadas a conversar e a bebericar pequenas
doses do melhor champagne. Procurei o meu nome na lista de mesas, e foi então
que fiquei estupefacto. Na minha mesa estavam os seguintes nomes: Janeiro
Alves, Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto e Giorgio Delle Mare.
Imagine Doutor Mara! Estou neste momento sentado com todos eles a degustar
belas iguarias com acompanhamento vínico de gabarito internacional.
Como deve entender, agora não me
posso alongar mais, pois há um ano para passar, mas certamente dentro de dias
lhe enviarei informações detalhadas sobre este curioso encontro, que tem tudo
para correr bem, e tudo para correr muito mal.
É portanto com um nervoso miudinho
e ligeiros tiques no sobrolho que lhe desejo um excelente 2019, e uma noite de
Reveillon com toda manigância e prestidigitação a que já habituou os seus
convivas, desde que fez desaparecer a roupa interior da sua vizinha, fazendo em
seu lugar surgir uma sangria de frutos vermelhos pronta a servir. Bom ano Doutor
Mara, e até breve se não for antes.
No
limite da hora e com toda a estima,
Janeiro Alves
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
sábado, 22 de dezembro de 2018
Escrito no passado Outono
amar é tão difícil falar de amor.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram
nuas
as árvores caídas no chão.
Tiago Rodrigues in Em Maio Florimos Melancolia, Letras & Desenhos d´Angra Líquida, 2013.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram
nuas
as árvores caídas no chão.
Tiago Rodrigues in Em Maio Florimos Melancolia, Letras & Desenhos d´Angra Líquida, 2013.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
A Arte de Caminhar

"O Paraíso é onde estou. É precisamente o que penso quando estou em casa sentado na sala com um bom livro, a partilhar uma refeição com uma pessoa cuja companhia prezo, ou quando vou dar uma volta.
Naturalmente, um estado de espírito tão agradável não dura muito, mesmo que aquilo que nos rodeia não se altere. Tal como um estado de espírito desagradável também não dura para sempre. A razão disto é que até a permanência de um sentimento acabará por causar uma mudança do nosso estado de espírito. As sensações de bem estar nunca são infinitas; têm de ser continuamente alimentadas de modo a manterem-se. E, de vez em quando, esses suplementos adicionais acabarão. Então temos a sensação de que alguma coisa se perdeu."
Erling Kagge, in "A Arte de Caminhar", Quetzal, 2018.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Lo Difícil
Enarmorarse es fácil
Uno pude enamorarse
-sin demasiado esfuerzo –
varias veces al dia,
a nada
que se lo proponga
y se mueva un poco por ahí;
y si es verano,
ni te cuento
Enamorarse no tiene
maior mérito
Lo realmente difícil
-no conozco
ningun caso-
Es salir entero
de una história de amor.
Karmelo C.Iribaren
Karmelo C.Iribaren
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Muito Obrigado, Bruno da Ponte!
Há dias
despedimo-nos de Bruno da Ponte, mais um amigo que vai fazer falta. O Bruno
tinha formação em Economia mas foi na área cultural a que dedicou a maior parte
do seu trabalho. Bruno da Ponte trabalhou assim toda a vida enquanto editor,
tradutor, jornalista, e coordenador de tantas editoras – Minotauro, Teorema ou
as Edições Salamandra. Comecei, primeiro, por vê-lo na Associação Cultural
Abril em Maio, em Lisboa, à altura, rua da Verónica, onde lançou as sementes de muitas coisas bonitas,
entre elas uma agenda repleta de manifestos, mas foi na sua terra natal (São
Miguel) que falei com ele pela primeira vez numa rua de Ponta Delgada, acidentalmente. Foi com alegria que aceitou o convite para colaborar
e escrever para o Boletim Cultural Fazendo, sediado na Ilha do Faial, do qual
foi sempre um leitor e entusiasta. Ele que durante anos esteve ligado a 121 publicações
relacionadas com os Açores através da colecção Garajau, e, como tão bem escreveu Onésimo Teotónio de Almeida, estabeleceu uma verdadeira ponte entre o
arquipélago e o continente português. O Bruno da Ponte foi um verdadeiro amante
das artes e das letras e, recordo, por isso, o quanto era delicioso e instigante
ouvi-lo discorrer sobre qualquer assunto ou tema literário. Saudades!
saxofone baixo.13
o mar enrolou-se no ouvido
quando a maré vazou
restou apenas o sal nos tímpanos
a música rente à terra
no cimo dos telhados fumam-se cigarros
laranja da beata no tijolo
pode-se morrer de súbito aqui
o mofo abafado do silêncio toca
os velhos discos
e é já cinza o sal dos tímpanos
pode-se chorar aqui
de súbito
à espera que a lua arraste a maré cheia
da música rente
dos telhados se cai no mar
não basta calar a beata é preciso afogá-la
Tiago Araújo, in Diapositivos, Quasi Edições, Novembro de 2001.
quando a maré vazou
restou apenas o sal nos tímpanos
a música rente à terra
no cimo dos telhados fumam-se cigarros
laranja da beata no tijolo
pode-se morrer de súbito aqui
o mofo abafado do silêncio toca
os velhos discos
e é já cinza o sal dos tímpanos
pode-se chorar aqui
de súbito
à espera que a lua arraste a maré cheia
da música rente
dos telhados se cai no mar
não basta calar a beata é preciso afogá-la
Tiago Araújo, in Diapositivos, Quasi Edições, Novembro de 2001.
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