quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Foi há 9 anos...

Carlos Vaz Marques: O que é a faz sentir-se em casa, Lhasa de Sela?
Lhasa de Sela: Quando estou com as pessoas que amo ou quando estou com gente com que me entendo bem.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

2018 despediu-se...com Janeiro Alves na Caixa do Correio


Caro Doutor Mara,
            
           Escrevo-lhe esta carta no último suspiro de 2018, desejando que a mesma o encontre capacitado para as artimanhas que um ano com a fisionomia de 2019 deixa antever. Todo o cuidado é pouco para um ano deste calibre, meu caro amigo!
A razão desta carta é dar-lhe um pequeno vislumbre da minha actual situação e das circunstâncias que a ela me conduziram. Recebi um convite do Royal Hotel Magestic para a gala do fim de ano, estabelecimento de grande categoria e reputação, onde curiosamente recebi o galardão de autor da “Pior Obra Literária do Ano”. Preparei logo o meu fraque Suiço e puxei todo o lustro que consegui aos meus sapatos italianos de cetim afivelados. Até aqui tudo normal. O Doutor Mara sabe que me dou bem nos círculos da alta roda. Mas eis que o mais inesperado aconteceu. Insólito mesmo, para não dizer de uma estranheza teatral. Quando entro no grande salão presidencial, deparo-me com mesas redondas de uma elegância inolvidável, com pessoas de uma beleza de cristal já sentadas a conversar e a bebericar pequenas doses do melhor champagne. Procurei o meu nome na lista de mesas, e foi então que fiquei estupefacto. Na minha mesa estavam os seguintes nomes: Janeiro Alves, Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto e Giorgio Delle Mare. Imagine Doutor Mara! Estou neste momento sentado com todos eles a degustar belas iguarias com acompanhamento vínico de gabarito internacional.
Como deve entender, agora não me posso alongar mais, pois há um ano para passar, mas certamente dentro de dias lhe enviarei informações detalhadas sobre este curioso encontro, que tem tudo para correr bem, e tudo para correr muito mal.
É portanto com um nervoso miudinho e ligeiros tiques no sobrolho que lhe desejo um excelente 2019, e uma noite de Reveillon com toda manigância e prestidigitação a que já habituou os seus convivas, desde que fez desaparecer a roupa interior da sua vizinha, fazendo em seu lugar surgir uma sangria de frutos vermelhos pronta a servir. Bom ano Doutor Mara, e até breve se não for antes.
No limite da hora e com toda a estima,
Janeiro Alves

sábado, 22 de dezembro de 2018

Fotografia de Carlos Olyveira

Escrito no passado Outono

amar é tão difícil falar de amor.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram 
                                                                        nuas
                                      as árvores caídas no chão.


       Tiago Rodrigues in Em Maio Florimos Melancolia, Letras & Desenhos d´Angra Líquida, 2013.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Prémio Literário Revelação Augustina Bessa Luís 2018

Judite Canha Fernandes autora do romance "Um Passo para Sul"

A Arte de Caminhar

               "O Paraíso é onde estou. É precisamente o que penso quando estou em casa sentado na sala com um bom livro, a partilhar uma refeição com uma pessoa cuja companhia prezo, ou quando vou dar uma volta.
           Naturalmente, um estado de espírito tão agradável não dura muito, mesmo que aquilo que nos rodeia não se altere. Tal como um estado de espírito desagradável também não dura para sempre. A razão disto é que até a permanência de um sentimento acabará por causar uma mudança do nosso estado de espírito. As sensações de bem estar nunca são infinitas; têm de ser continuamente alimentadas de modo a manterem-se. E, de vez em quando, esses suplementos adicionais acabarão. Então temos a sensação de que alguma coisa se perdeu."
                          
              Erling Kagge, in "A Arte de Caminhar", Quetzal, 2018.

FALTA no Bolso

Fotografia de Carlos Olyveira

Verso de Sara Cruz

Está o verão encerrado

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Céu de Dezembro

Lo Difícil

Enarmorarse es fácil
Uno pude enamorarse
-sin demasiado esfuerzo –
varias veces al dia,
a nada
que se lo proponga
y se mueva un poco por ahí;
y si es verano,
ni te cuento

Enamorarse no tiene
maior mérito
Lo realmente difícil
-no conozco
ningun caso-
Es salir entero
de una história de amor.

Karmelo C.Iribaren

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Muito Obrigado, Bruno da Ponte!

Há dias despedimo-nos de Bruno da Ponte, mais um amigo que vai fazer falta. O Bruno tinha formação em Economia mas foi na área cultural a que dedicou a maior parte do seu trabalho. Bruno da Ponte trabalhou assim toda a vida enquanto editor, tradutor, jornalista, e coordenador de tantas editoras – Minotauro, Teorema ou as Edições Salamandra. Comecei, primeiro, por vê-lo na Associação Cultural Abril em Maio, em Lisboa, à altura, rua da Verónica, onde lançou as sementes de muitas coisas bonitas, entre elas uma agenda repleta de manifestos, mas foi na sua terra natal (São Miguel) que falei com ele pela primeira vez numa rua de Ponta Delgada, acidentalmente. Foi com alegria que aceitou o convite para colaborar e escrever para o Boletim Cultural Fazendo, sediado na Ilha do Faial, do qual foi sempre um leitor e entusiasta. Ele que durante anos esteve ligado a 121 publicações relacionadas com os Açores através da colecção Garajau, e, como tão bem escreveu Onésimo Teotónio de Almeida, estabeleceu uma verdadeira ponte entre o arquipélago e o continente português. O Bruno da Ponte foi um verdadeiro amante das artes e das letras e, recordo, por isso, o quanto era delicioso e instigante ouvi-lo discorrer sobre qualquer assunto ou tema literário. Saudades! 

saxofone baixo.13

o mar enrolou-se no ouvido
quando a maré vazou 
restou apenas o sal nos tímpanos
a música rente à terra 

no cimo dos telhados fumam-se cigarros
laranja da beata no tijolo
pode-se morrer de súbito aqui
o mofo abafado do silêncio toca
os velhos discos 
e é já cinza o sal dos tímpanos

pode-se chorar aqui 
de súbito 
à espera que a lua arraste a maré cheia
da música rente

dos telhados se cai no mar
não basta calar a beata é preciso afogá-la

Tiago Araújo, in Diapositivos, Quasi Edições, Novembro de 2001.

Verso de Ruy Belo

Não olhes o meu rosto devastado pela idade.