domingo, 9 de novembro de 2025
CAC: Nova Direcção
Do Medo
"O medo de sair (da sociedade autoritária do medo) fez com que nunca realmente se saísse do medo. Como se voltou à velha tendência nacional de não conflitualidade social e política, ela infiltrou-se naturalmente na ausência de conflito inerente à sociedade globalizada de controlo. O salazarismo havia obtiddo a supressão dos conflitos com a repressão, mas a passagem actual para a mundialização reactiva a tendência, democraticamente, graças à existência da norma única (que é ausência de norma e de autoridade visíveis)."
José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir, Relógio D´Água Edições, 2005
sábado, 8 de novembro de 2025
Alfredo, O Coleccionador de Borboletas
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| S.A Marionetas Teatro & Bonecos no CAC na 2ªEdição do FIOS |
sexta-feira, 7 de novembro de 2025
Adeus, Gianni Berengo Gardin
GBG: Sì, certo. Credo che alcune mie fotografie possano indurre un simile sentimento.
Gianni Berengo Gardin faleceu no Verão deste ano, com 94 anos. Só me dei conta do seu trabalho fotográfico em solo açoriano, decorria o ano de 2018 e foi um acontecimento surpreendente dado que desejei de imediato conhecer a sua obra e entrevistá-lo para a FALTA fanzine, uma publicação com seis números que um grupo de amigos se disponibilizou a editar. Trabalhávamos, portanto, nas Oficinas de São Miguel no número inicial da fanzine FALTA quando nos deparámos com uma mala cheia de revistas da publicação alemã intitulada Mare. Entre elas o número 18 - uma edição dedicada àquela cidade “familiar e estrangeira”, de seu nome Veneza. Ele ficaria para sempre conhecido pelo “fotógrafo de Veneza”, apesar de ter nascido na Ligúria, tendo editado ao longo de 50 anos de carreira mais de 250 livros, tal como aquele em que expõe a sua descaraterização pelo turismo de massas -“Veneza e le Grande Navi”.
Naquela edição da revista Mare soltava-se, assim, o nome de Gianni Berengo Gardin, encontrando-se por lá alguns registos fotográficos das construções venezianas sobre o mar, as gôndolas que varrem a paisagem líquida desta cidade italiana, o Vaporetto com gente de todas as classes, os jovens clérigos que passeiam pelas avenidas, outros jovens reunidos na praia do Lido a ouvir música desde uma grafonola. Demorou pouco tempo até procurarmos a origem e biografia deste fotógrafo. O fascínio pelas suas imagens fez com que gostaríamos que este estivesse presente no número 1 da nossa revista marcada pelas artes gráficas. Será que ele aceitaria?
O pedido da entrevista começou por ser feito através da sua Agência Fotográfica, Contrasto, que só depois de algum tempo nos concedeu o contacto pessoal de Gianni. A resposta demorou – foi necessário enviar o nº0 da FALTA – mas o remetente vinha carregado de amabilidade e generosidade. A verdade é que um dos mais antigos fotógrafos italianos em actividade tinha acedido conversar com uma fanzine/revista sediada no meio do atlântico. A sua filha, Susanna Gardin, conhecida por tratar do acervo fotográfico de seu pai, fez-lhe chegar as perguntas bem como nos enviou, prontamente, as respostas. Entretanto, o encarte pretendido não se consumou, pois havia uma verba envolvida que não conseguíamos comportar. Sobraram duas belíssimas fotografias para o interior da revista e a certeza de que lhe endereçaríamos um exemplar.
A satisfação da curiosidade, nesta entrevista inesquecível, deu-se pela afirmação de uma fotografia enquanto “documento, testemunho do mundo em que vivemos” e do trabalho do fotógrafo feito de estudo nesse “aprender como ver e contar as coisas”. O espanto surgiu do seu desconhecimento de Portugal ainda que conhecesse (e bem!) a obra de Gérard Castello-Lopes ou que reconhecesse nas suas próprias fotografias um sentimento semelhante à saudade. Logo na abertura do mês de Agosto passado, Gianni Berengo Gardin deixou de fotografar…o futuro dir-nos-á da sua importância!
terça-feira, 4 de novembro de 2025
Da Proximidade
E à Esquerda Nada de Novo?
"Catherine Connoly, Zohran Mamdani ou até Sónia Nicolau, de Ponta Delgada, podem mostrar que há outra formas de inclinar a escolha política para outro lado, mas são exceções a uma regra de desnorte. Se na semana passada, quiséssemos olhar para a regra, bastaria evocar o fim ao ralenti de Mariana Mortágua, ou a dispersão de candidaturas presidenciais à esquerda, para qual o Livre deu mais um incompreensível contributo embrulhado num processo de decisão esdrúxulo. Claro que que António José Seguro também não ajuda, surdo ao apelo de Nanni Moretti de dizer "qualquer coisa de esquerda". Uma falta de coragem e de clarividência que também é regra."
David Pontes, in "E à Esquerda Nada de Novo?", editorial Público, 27 de Outubro de 2025.
terça-feira, 28 de outubro de 2025
Fim de Semana com o Fuso Insular
O mar está revolto neste final de Outubro, após queda de tantas águas e enxurradas com prenúncio de tempestades para o Inverno que se avizinha.
O Fuso Insular existe há sete anos mas esta é a sexta edição do Laboratório da Imagem, atividade que decorre durante o verão e que tem, no final de Outubro, o seu apogeu com a apresentação dos trabalhos visuais dos seus participantes. Com propostas pessoais, autobiográficas ou relacionadas com o arquipélago em questão, as obras mostram-nos o empenho e a criatividade de quem se submete ao olhar e escrutínio de quem assiste. A realizadora convidada deste ano foi Cláudia Varejão, que nos deu a conhecer os seus dois documentários mais recentes - "Haverá Eleições" e "Kora". O primeiro é uma deliciosa montagem de imagens de arquivo e depoimentos sobre as primeiras eleições livres em Portugal (92% de participação), com especial pendor no feminino. O segundo é uma visão testemunhal de mulheres estrangeiras que habitam no nosso país - as suas alegrias, dores e sentimentos de quem deixou a sua vida anterior para trás e que procura, nestas paragens, uma nova vida com paz e esperança. Esta última é, sem dúvida, uma peça documental de fina beleza e com a música delicadíssima de Joana Gama.
"De Perto Ninguém é Normal" no Ribeiragrandense
De Perto Ninguém é Normal, uma comédia "obssessiva" de Laurent Baffie com encenação de Rafael Medrado, teve lugar no último fim de semana no Teatro Ribeiragrandense. A peça, situada num consultório de um psicanalista, dá-nos a ver um grupo de pacientes que são portadores de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Numa conjuntura social algo fascinada pelo tema da Saúde Mental, mas pouco eficaz nas suas soluções, a peça encontra facilmente eco, riso e público assegurado. O palco é, assim, espelho das nossas sociedades contemporâneas que assentam muitos dos seus comportamentos sociais na demonstração da eficácia, produtividade ou perfeição, no entanto, escondem nas suas estranhas um número cada vez maior de indivíduos fragilizados, imperfeitos e reticentes à noção de falha ou fracasso. Entre a dor interior e a medicação farmacológica são muitos os que nos vão mostrando que "De Perto Ninguém é Normal". Foi nisso que apostou esta encenação plena de boa disposição e criatividade de Rafael Medrado bem como o seu elenco, algo "transtornado", mas muito seguro e inspirado - André Melo, José Jorge, Katarina Rodrigues, Marta Aguiar, Nuno Pequeno Rei e Pilar Silvestre. Em jeito de conclusão e, tal como diz o poema, "e...se fossemos rir de tudo?".


