quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
domingo, 15 de janeiro de 2017
Ânsia de Ser
revolvo-me em ânsias de vir a ser alguma coisa pra cá dos cérebros parvamente adormecidos em não querer ser vácuo vontade e ainda pra cá dos espíritos grandemente iluminados em redenção apoteótica do século vinte.
pirâmides-Nada esfíngicas e espumantes são hoje para mim pesadelo constante acordar tarde invadido em vago receio espectral e histérico de não triunfar de não vir a ser aquilo onde se resume toda a minha ânsia todo o trabalho positivo do meu ser lúcido que vive agora pra cá do outro romanticismo-parvo falta vontade de ser morto felizmente na minha vida.
no dens´umbroso deserto de desilusões com ventos alíseos de Tédio com dunas de desespero e caravanas de desiludidos achei um oásis de luz minh ´alma esguiando-se para o infinito lambem-me as faces contraídas em rictus féericos de terror enroscando-se por mim arquejante de ânsias com ondulações voluptuosas de sereias as labaredas de todos os incêndios há séculos pra dentro da história e acesos hoje à minha louca imaginação absurda e ansiosa no rodopiar dos meus pensamentos em velocidade genial muito maior que a da hélice de qualquer aeroplano muitíssimo maior que qualquer velocidade positiva existente no estado actual civilização incompleta do mundo dos grandes inventos infinitamente pequenos à vista dos que falta inventar tantos e tão grande que o nosso pensamento não atinge dado o limite parvo balisa de ferro que o restringe em opacidade banal. "
Almada Negreiros, Poesia Futurista Portuguesa (Faro 1916-1917), Selecção e Prefácio de Nuno Júdice.
sábado, 14 de janeiro de 2017
Os Pescadores de Raul Brandão
"Quando regresso do mar venho sempre
estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos - um
tipo – uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas
páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos
quadradinhos ao ar livre, são melhores quando ficam por acabar.
Estas
linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de inverno friorento. Torno
a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado…Basta pegar num velho búzio para se perceber
distintamente a grande voz do mar. Creou-se com ele e guardou-a para sempre. –
Eu também nunca mais esqueci…."
Raul Brandão, Os Pescadores, 1924, Bertrand Edições.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Sala de Embarque: Primeiro Ensaio de 2017
![]() |
| Fotografia de Carlos Olyveira |
Regressamos
aos ensaios, desta feita num anexo da Pousada da Juventude. Agradecidos pela generosidade, o cuidado, a
abertura. A partir de agora é nossa vontade ensaiar cada vez mais - melhorar,
exercitar, procurar as personagens, encontrar a real envolvência das cenas. Esta
proposta teatral irá ser construída a partir das possibilidades que o texto e
as circunstâncias permitirem. Necessitamos, por isso, de discutir novamente o
processo e continuar este labor partilhado e colaborativo. Com o novo elenco é essencial
encontrar o tom, o ritmo e os diálogos entre as personagens. Mais tarde, lá
para o fim do mês, contaremos com o apoio da encenadora Lígia Soares. Hoje,
também fomos visitados pelo Carlos Olyveira, fotógrafo de cena e colaborador
habitual, veio dar conta e imagem do início das “hostilidades”, este recomeçar
da leitura, o encetar de uma nova aventura.
Assim possamos e desejamos chegar a bom porto.
domingo, 8 de janeiro de 2017
Dois poemas de Ana Paula Inácio
...
os corpos sabem os caminhos
os corpos sabem os caminhos
nós
o desejo
…
habitamos a ternura
como a espada
a traqueia
fecunda
é a ferida
que nos abre
Ana Paula Inácio, in ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Isto não é um poema sobre o verde
Isto não é
um poema sobre o verde
dos campos
do meu avó por onde
correu a
minha infância.
Isto não é
um poema sobre o amor
da minha
mãe. Um amor tão grande
que lhe deu
forças para me levar
em braços
para o hospital só para eu não
morrer daquela
vez.
-E morremos
tantas vezes nesta vida!
Isto não é
um poema sobre a língua do
animal que
me lambe as feridas nem sobre
as mãos do
homem que me sustenta o coração.
Isto não é
um poema sobre o mar grande
que rodeia a
ilha nem sobre os peixes
os corais as
baleias e os barcos que
habitam esse
mar.
Isto não é
um poema sobre danças
insanas movidas
a raiva e etanol.
Isto não é
um poema sobre o arrepio
das canções
do Jeff nem sobre a luz
de “Laughing Heart” de Bukowski.
Isto não é
um poema sobre as veredas
que atravessei
ladeadas por cardos
que castigam
as pernas nuas e
nos enchem a
boca de palavrões.
-Às vezes é
preciso dizer porra!
Isto não é
um poema sobre o meu medo
o medo do
lobo mau o medo de Al Berto
o medo de
Rosselini e o medo de Martins Garcia
Isto não é
um poema sobre o palito na boca
do Ryan
Gosling nem sobre o sorriso sádico
da esteticista
a arrancar bandas de cera.
Isto não é
um poema sobre a alegria concreta
de um prato
de chicharros fritos com
batata doce
para o almoço.
Isto não é
um poema sobre o sossego do gato
que dorme em cima das minhas coxas
nem sobre as inquietações do funcionário da repartição.
Isto não é um poema sobre a vaca sagrada
da ilha nem sobre a vaca profana do Caetano.
Isto não é um poema sobre jardins marinhos
nem sobre o brilho de prata de água pura.
Isto não é um poema sobre a pomba do
Espírito Santo nem sobre a fé mal amanhada
dos homens.
Isto não é um poema com foguetes e roqueiras
e fogo de artificio no final
Isto não é um poema. Mas podia ser.
e fogo de artificio no final
Isto não é um poema. Mas podia ser.
Gina Ávila Macedo, in Grotta-arquipélago de escritores, Letras Lavadas, 2015.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
sábado, 31 de dezembro de 2016
Uma Missiva de Janeiro Alves Mesmo no Cair do Pano
Caro Doutor Mara,
Estava eu nos preparos para a
passagem de ano, a abrir uma garrafa de Macieira reserva e a separar as passas
para a meia noite, quando me bateram à porta para me entregarem a sua carta.
Dei-me ao trabalho de a ler, apesar de me ter causado algum transtorno em plena
preparação do fim de ano. E deixe-me que lhe diga - o Doutor Mara diverte-me.
Mas falo de uma diversão constrangedora, num sorriso flácido que produzi com o
canto da boca, ao mesmo tempo que revirava os olhos. A forma leviana como me
insulta é de uma pobre, insípida e desprovida de qualidade literária. Chamou-me
burguês, inchado, bonacheirão, insensato, o “maior”, doidivanas, artolas, e por
fim linguista sensaborão. É caso para
perguntar “está aí alguém?”. Alô! acorde, Doutor Mara! Estamos no século vinte
e um! É que se me quer importunar, pelo menos faça-o com classe!
Enquanto não chega a meia
noite, e pelo respeito que tenho por si (sobretudo pelo seu passado pois o seu
presente é uma nuvem negra), envio-lhe algumas sugestões para que me possa insultar
categoricamente em 2017 sem que eu tenha de o desprezar. Pois fique sabendo que
eu sou um ser irascível! Há quem diga que sou a alma dos bórgias a penar, um
excremento de animal na via pública pisado por uma dondoca da linha, sou o
bicho de estimação de um rafeiro que me deixou no canil municipal, tenho a
impotência da criação e o dom da malcriação, sou parasita social e atrasado
mental. Sou mesmo um mentecapto profissional, salafrário velhaco e safardana.
Sou um saloio pote de banhas e caixa de óculos, com boca de charroco e orelhas
de abano. Não passo de um reles bebedolas, mas ao mesmo tempo copo de leite e
menino da mamã. Eu sou a praga do século vinte e um a alastrar, um farsola
macarongo e obnóxio. Enfim, um verme asqueroso, azeiteiro e lambe-botas.
Percebeu?
Espero que o ano de 2017
estanque de forma definitiva esta sua decadente caminhada para o abismo, e lhe
devolva a glória dos anos cada vez mais distantes do seu fulgor de juventude.
Espero que acorde para a vida, abrace o futuro, e pare de viver de recordações
do passado. Também lhe assentaria bem uma vontade de trabalhar, e um corte
definitivo com esse dolce fare niente
alimentado por heranças e outras benesses familiares. Talvez assim, quem sabe,
se tornasse efectivamente útil à sociedade (e não falo da sociedade nocturna
que frequenta).
Em espírito de missão na
reparação intelectual da sua pessoa, e apesar de tudo com estima e
consideração, desejo-lhe um bom Janeiro.
Janeiro Alves em Penedono, no
31 de Dezembro de 2016
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Das Pessoas
"Descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Como me doía não ter dito(...) tudo, não ter feito confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas."
Nelson Rodrigues
sábado, 24 de dezembro de 2016
Resposta a Janeiro Alves Poucochinho antes das Festas
Caro
amigo Janeiro Alves,
Espero
que já se encontre no seu retiro de Penedono, no nordeste do distrito de Viseu,
essa incrível aldeia histórica onde passa tranquilamente e de forma solitária
esta quadra natalícia.
Sinceramente
e, perdoe-me a franqueza, mas deparei na sua última missiva tiques típicos de
um burguês nada arrazoado, lamúrias correspondentes a um indivíduo todo
inchado, bonacheirão e pouco sensato. Como é possível, meu caro amigo, proferir
que lhe correu bem o ano!? Está a brincar? É necessário acalmar-se, amigo
Janeiro, pois qualquer dia já ninguém o consegue ouvir com a mania que é o maior,
que ninguém está ao seu nível, o autoelogio recorrente e constante dos seus
feitos, enfim, essas taras e manias de um doidivanas qualquer. Quem é que você
julga que é? Certamente, por tudo aquilo que nos foi dado a ler, você é um
artolas de primeira água e um linguista sensaborão ou irá dizer-nos que afinal
era tudo a fingir e que apenas queria pôr um ponto final no top da brutalidade!
Escrevo-lhe
deitado numa espreguiçadeira num apartamento de quatro assoalhadas junto do
aeroporto. Descobri recentemente que este mesmo me tinha sido doado em herança
pelo meu tio de Florença, Pietro Marentini, aquando do seu divórcio com a
famosa hospedeira de bordo da Scandinavian LineAir: Vicky Malastrom. Julga-se
que este terá passado os últimos dias da sua vida com cenários de aviões
que chegam e partem de forma a sossegar a sua dor, entrando numa fase de metal e melancolia que nunca foi
capaz de recompor-se. Encontrei fotografias e objectos da sua amada espalhados
pelos vários recantos da casa, uma mulher, por sinal, muito bela de rosto redondo e maçã no queixo, digna de actriz de cinema nórdico. Chamou-me também a atenção uma manta de
linho em forma de V, promotora de bastante calor, onde se depreende toda a paixão existente entre o casal. De qualquer modo,Vicky, creio, nunca suportou aquele sedentarismo crónico do meu tio…
E
agora, conte-nos novidades, que tal o tempo por aí? Soube pelo carteiro que o
ano passado houve muita neve e que as comunicações estiveram cortadas. Talvez, por isso mesmo, sugeri para que lhe entregassem em mãos esta missiva.
Soube, inclusive, que o amigo Janeiro teve de improvisar na cozinha com comida
vinda fora de portas, onde encomenda telepizza. Será verdade?
Com os respectivos votos de boas festas, seu admirador
Doutor Mara
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