segunda-feira, 8 de maio de 2017

A Periferia da Periférica

“Neste sentido, é importante investir em iniciativas que façam a ponte entre quem aqui trabalha e que, no âmbito de uma residência artística, um workshop, uma formação técnica, ou simples conferência, partilhe conhecimento com quem está mais longe dos centros, onde este tipo de experiência é mais regular, está disseminada de forma mais abrangente e não se encontra reduzida a uma cadência pontual e para uma público circunscrito, como é o nosso caso.”


Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 8 de Maio de 2017 

domingo, 7 de maio de 2017

Chuvadas de Maio

Fotografia de Carlos Olyveira

A Ilha em Imagens

       
Francisco Afonso Chaves
Colecção Museu Carlos Machado
       Hoje é sábado e nem sombra dos volantes pés de Tatiana Grenkova no palco do Teatro Micaelense. Decidimos por isso esclarecer arrumações, asseio e demais organização de tudo aquilo que nos está em redor. Uma certeza: amanhã é domingo e, se não for para mapear e nutrir para dentro, isto é, desencantar e desarrumar o abecedário, alimentar memórias  e puxar o lustro às palavras pois não terá valido a pena a passagem das horas, ai esse tempo ceifeiro que em nós habita. Aqui mesmo ao lado, há também e, sobretudo, no Núcleo de Santa Bárbara, as fotografias de Francisco Afonso Chaves para (re) ver. É uma pequena parte das sete mil imagens do eminente naturalista que adorava fotografar, algum tempo após ter deixado Lisboa e se ter fixado no arquipélago,  residindo aqui a maior parte da sua vida. A exposição dá pelo nome de “A Imagem Paradoxal” e é uma experiência sensorial e visual riquíssima, essencialmente, quem desconhece ou até mesmo para quem conhece estas paragens. 

sábado, 6 de maio de 2017

As Mãos da Pianista

Concerto de Carla Bley, Steve Swallow e Andy Sheppard em Angra do Heroísmo 
Fotografia de Margarida Quinteiro (Festival AngraJazz 2013)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Diogo Fonseca expõe no Hostel Out of Blue

   Diogo Fonseca inaugurou ontem a sua primeira exposição de fotografia no “Hostel Out of Blue”. Num corredor contíguo à sala de estar deste alojamento local estão expostas sete fotografias com o título conjunto “A Viagem”. As imagens exploram a ideia de périplo no perímetro insular, onde o grão adensa o mistério e a dúvida, marcados pelas intensidade e a textura das paisagens locais, evidenciando a pujança e tonalidade de formas e cores. Este trabalho fotográfico revela cuidado e intencionalidade prévias, visível nos suportes e disposição, sendo prenúncio de bons augúrios para promissoras propostas futuras. 

PS-As fotografias da inauguração desta exposição foram realizadas pelo fotógrafo Carlos Olyveira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

"Amarcord" o filme da vida de Zeca Medeiros

Amarcord será exibido dia 27 de Maio
no Teatro Micaelense
Este filme de Federico Fellini foi realizado em 1973 e retrata Itália dos anos 30, a vida na cidade de Rimini e de um adolescente daquela altura. Num misto de ficção e realidade, pois trata-se das recordações do realizador, Amarcord é um quadro pitoresco e fantasmagórico  pré-segunda Guerra Mundial e onde se anuncia já a presença de Il Duce
Federico Fellini convocou para este filme a sua galeria de personagens extravagantes, dando assim a conhecer os tempos da sua juventude e a sua visão da Itália daquele período, contando para isso com a música evocativa, plena de imagens, de Nino Rota. O realizador explicaria alguns anos mais tarde, numa conversa com Damian Pettigrew, as razões que o levaram a realizar tal filme: "O Amarcord é uma reflexão sobre a incapacidade de observarmos criticamente o nosso passado fascista, um passado que recusamos, mas do qual nunca nos poderíamos separar: o que faz parte do passado de cada um de nós forma inalteravelmente uma parte íntima de si próprio. Por isso o Amarcord é mais um exame do presente do que uma nostalgia. Na realidade, quando foi estreado o Satyricon, muitos viram o filme como um comentário sobre o Maio de 68. Creio que filmes como Casanova ou O Navio podem ser interpretados como reflexos de uma certa actualidade, como o jornal da noite. (...) Muitas vezes simplifiquei o sentido cabalístico da palavra amarcord, dizendo que é um termo romagnolo e que significa "Lembro-me". Mas não é bem verdade. Penso que a ideia original me ocorreu depois de ter lido qualquer coisa sobre o sueco defensor do aborto Hammercord, e que a sonoridade do seu nome o ponto de partida. Se se juntarem as palavras amare (amar), cuore (coração), ricordare (lembrar) e amaro (amargo) obtém-se Amarcord."

"Car ma vie, car mes joies"*

*versos de "Je ne regrette rien" de Edith Piaf

domingo, 30 de abril de 2017

Do Fausto

Entendamo-nos bem. não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos,
   O que eu preciso e quero, é atordoar-me
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; ora em diante 
às dores todas escancaro est´alma.
As sensações da espécie humana em peso.
quero-as eu dentro em mim; se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

in Fausto, Goethe. 

sábado, 29 de abril de 2017

Do Inventor do Nefoscópio de Reflexão

Edição do Instituto Açoriano de Cultura
Angra do Heroísmo, 2017
(Fotografia do livro sobre o banco-Carlos Olyveira)

        “Os passageiros da classe turística são quase todos gregos. Há de tudo, desde o janota com pretensões a gentleman até aos vaqueiros da Califórnia. Poucos interessam. Uma rapariga, alta e esguia, tem todo o tipo das mulheres gregas antigas, e parece tirada de um friso, mas falta-lhe vida. Uma americana loura corre o navio de um lado para o outro em calções, com umas pernas queimadíssimas do sol. Uma húngara, entrada em Lisboa, de reputação duvidosa, tem os cabelos de linho e ares de Dama das Camélias. Diz o meu companheiro que um meu amigo de outrora, J.R., gastou com ela umas dezenas de contos de reis! A americana estouvada entrevistou-a e veio-me pedir para lhe servir de intérprete, porque a húngara só fala francês!! Vaidade ou ingenuidade. Já estou velho para servir de intérprete a damas daquele quilate.
    Depois do jantar foi uma desolação. Os gregos desapareceram cedo. Comeram quase todos na primeira mesa e deitaram-se logo a seguir. Os passageiros melhores foram ouvir o concerto da 1ªclasse. Eu assentei-me sozinho, num grande salão, a ouvi-lo num pick-up. Um belo barítono cantou qualquer coisa que me agradou muito. Disseram-me hoje que é um cantor de certa fama, que viaja na 1ªclasse. A orquestra – uma orquestra muito mais completa do que aquela que toca no nosso salão – executou com decência o 1812 de Tchaikovsky. A maior parte dos músicos são criados de câmara. Mas os italianos são assim, qualquer coisa sempre e mais músicos.” 

in "Primeira Parte - Lisboa-Argel-Nápoles-Roma-Bolonha 
22/08/1937: 05/09/1937"- Coordenação Carlos Guilherme Riley.

Os Volantes Pés de Tatiana Grenkova

Nada tolherá esta insuficiência
mácula e decepção à partida
tal absorto e atento espectador
examina céptico em pose deslumbrado
o suave e clássico discernimento
dos pés em riste e dos tiques de cisne
assiste e acusa gravidade
sopro, silêncio e voo
na aguardada retoma dos gestos
alento do baile na poltrona de abrigo
as mãos que ondulam e vogam
à deriva de vagas com sentido
antes da superfície frontal oclusa.

27 de Abril, Tascá.

Doutor Mara

Doutor Mara por Diogo Fonseca

Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957)

S/Título 1952
Colecção Dórdio Guimarães

domingo, 23 de abril de 2017

Um Poema Vindo de Londres

Enviaram-me um poema de Londres a anunciar
a comoção dos pássaros à chegada
e demais versos sobre periferias abandonadas
com raparigas dengosas à janela
a recusa do êxtase e dos pingos da existência
num universo cada vez mais supérfluo 
em expansão.

Às vezes acreditamos que o melhor ainda está para vir
a desenvoltura das ruas, a ligeireza dos corpos
enganamos a palidez do voo com penas e asas
ditos por ornitólogos ao entardecer na amurada do cais
consumidos por mazelas, presságios e ruínas
arautos de água pouco fértil,
a escorrer pelos campos e veredas
no desfecho de uma primavera que se quis ausente.

12 de Abril de 2017, na Tascá.

sábado, 22 de abril de 2017

O Tremor dá música por todos os lados

O Diário Gráfico do Tremor 
(Coordenação de Marcos Farrajota)
      Uma das noites surpresa da quarta edição do Tremor foi o concerto dos "Circuit des Yeux" no Auditório Camões. Meia hora decorrida após o início do concerto e o mistério daquela atmosfera, repleta de dúvidas e silêncios, adensava-se. Aliás, o encanto indagador ia crescendo, o poder daquela voz enigmática, misteriosa, assim o concedia. Voz de homem ou mulher? Eis que os efeitos, a envolvência e a gravidade desaparecem e é a voz da própria Haley Fohr que se impõe, que emudece a sala que naquele instante que se encontrava cheia e remete aquela ambiência e atmosfera final do concerto para algo único, excitante e indecifrável. Valeu claro! Ali estava um momento marcante, poderoso, inesquecível!
        A música em sítios inesperados e pouco usuais é a grande marca deste festival musical que se realiza todos os anos por esta altura na Ilha de São Miguel. Outra coisa são os convidados que amaram à Ilha para criar, desenvolver projectos junto da comunidade local. Um deles foi Marcos Farrajota, um dos editores da Chili com Carne, que teve a oportunidade  de juntar alunos da Escola Secundária Antero de Quental e construir com eles um diário gráfico do próprio festival.
        Assim, durante o interregno pascal alunos de turmas de artes iam desenhando o que viram/imaginaram ao longo da semana, tendo as situações dos concertos/espectáculos como mote e tema para explorar e expandir o seu engenho e criatividade. O resultado, tal como podem observar pelos folhetos distribuídos aquando do fecho do festival, é sempre estimulante e até, por vezes, bastante surpreendente. Muito embora, a festa do Tremor seja apenas no sábado, os concertos surpresa já tinham começado alguns dias antes. Que sábado  (o grande dia do Tremor!) viesse e nos trouxesse o relógio certeiro dos Mão Morta (cada vez mais afinados e directos) ou o semba mágico e alegre do Bonga, já todos sabíamos, mas tudo aquilo que se passa antes, aquelas horas em périplo à procura das músicas e dos concertos, isso sim, é que é quase sempre imprevisto, diversificado e inesperado! Para o ano há certamente mais música e demais abalos gráficos.