domingo, 21 de outubro de 2018
Parte Poética
Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar
Concluindo, só pelas duas da manhã,
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva, in "Últimos Poemas", 2017.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar
Concluindo, só pelas duas da manhã,
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva, in "Últimos Poemas", 2017.
sábado, 20 de outubro de 2018
Da Escrita
"Isabel Lucas: Os
Cus de Judas é
publicado logo depois de Memória de Elefante. Pela primeira vez aprofunda o
tema da guerra.
António Lobo Antunes: É difícil falar de guerra. Não sei se a guerra era tanto o tema quanto o
espanto daquele rapaz que teve uma infância agradável. Os meus pais não eram
ricos, não havia semanadas; se queríamos dinheiro, tínhamos de o ganhar. O meu
pai ganhava pouco. Era o desespero da minha mãe, porque ia para o consultório
e, em vez de levar dinheiro aos doentes, levava-os para casa. Não era capaz de
levar dinheiro às pessoas porque estavam doentes. E nós éramos seis filhos.
Tínhamos uma casa grande que o meu avô, pai do meu pai, tinha comprado. Ele era
rico. Chamava-se António Lobo Antunes e eu adorava-o. Quando soube que eu
escrevia, tinha eu 8 ou 9 anos, chamou-me e perguntou-me: “Ouve lá, tu és
paneleiro?” Eu não sabia o que era paneleiro. E fui perguntar e a explicação
deixou-me ainda mais aflito."
Excerto da entrevista de Isabel Lucas a António Lobo
Antunes, Ípsilon, 19 de Outubro
de 2018.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Réplica a Janeiro Alves ao Cair da Folha Outonal
Caro Janeiro Alves,
É de madrugada e estava eu
já com um pé na porta quando recebi um telefonema que alterou os meus
planos. Encontrava-me assim com duas latas de atum da corretora na mão
quando recebi esse inusitado convite que travou a minha ida ao seu encontro: serei júri da maior prova de vinhos do mundo a realizar este fim de semana na
marina de Cannes. Somos apenas cinco provadores, um de cada continente, por
isso não devo nem posso faltar. É um reconhecimento tardio, mas que julgo vir
no momento certo.
Tencionava, por isso,
visitá-lo com urgência, mesmo que não autorizem visitas, já que soube,
entretanto, que o meu amigo Janeiro não se encontra na plenitude das suas
capacidades, o alerta foi dado pela antiga companheira do meu tio, a sueca
Vicky Malastrom, confirmando o estado grave e alterado da sua personalidade. Ela enviou-me
a tradução singela do poema contido na sua última missiva:“Ajude-me,
salve-me desta tragédia!”. Depreendo deste modo que corre perigo, amigo Janeiro Alves. A loucura quando chega é para todos.
E, talvez por isso, transportaria comigo alguma literatura humorística-satírica com o intuito de trazê-lo de
volta à realidade. Estou certo que o meu amigo tem levado uma vida com
demasiada seriedade, sempre pronto a evidenciar o sacrifício dos dias laboriosos, o longo
calvário em que se tornou a sua existência, demonstrando pouca tolerância e
propensão para o ócio. E olhe, com toda a garantia do que lhe digo, os mangas
de alpaca não tarda irão tomar conta disto.
Enquanto lhe escrevo esta
missiva e atiro mais um par de meias grossas para a mala dourada deste enólogo certificado internacionalmente, avisto as açucenas – “a menina vai à escola” – que
despontam no meu sublime jardim. Terei, assim, que abandonar por agora os meus
estudos relacionados com a botânica ou a higrometria insular tal como essa
visita à casa de restabelecimento mental em que se encontra. Espero, por
instantes, que esta carta o encontre coberto das mais nobres vestes e calçado
com os seus sapatos italianos de cetim afivelados, continue
a ouvir concertos de clarim e harpa para coro de pássaros exóticos. Ou que as
ninfas e ninfetas lhe continuem a fornecer directamente à sua boca os mais
frescos frutos do bosque sussurrando palavras de bonomia aos seus ouvidos bem
como esses fontanários de água celestial permaneçam a jorrar como tónico capilar
para o cabelo que lhe voltou a medrar aos gorgolhões.
Amigo Janeiro Alves, não
tardará muito para que, após o desaguar de vapores etílicos no meu circuito
venal, o acompanhe nos corredores dessa casa magistral povoada de folia.
Seu estimado e maravilhoso amigo,
Doutor Mara
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
"Fernando Lemos - Como, não é retrato?" de Jorge Silva Melo
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Medeiros/Lucas: Falta um Mês
![]() |
| Medeiros/Lucas na Igreja da Mãe de Deus Pontes I (Março 2017) (Fotografia de Carlos Olyveira) |
Já passaram quatro anos desde o primeiro concerto desta dupla, organizado então pelo produtor, João da Ponte, na extinta Tascà da rua de Lisboa, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. À altura deram um concerto para apenas duas dezenas de amigos, tendo servido para alavancar este apaixonante projecto que conta já com três álbuns gravados: “Mar Aberto”, “Terra do Corpo” e “Sol de Março”. A novidade dos últimos dois discos trouxe também as letras do escritor micaelense: João Pedro Porto. Na memória ainda pairam os concertos na abertura do Tremor 2016, no Museu do Trabalho das Capelas, e aquele que abrilhantou a primeira edição do “Pontes – Gramáticas da Criação”, em Abril de 2017, onde estes tocaram na Igreja da Mãe de Deus. O novo regresso está marcado para o dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense, inserido no evento literário: "Arquipélago de Escritores". Falta exactamente um mês e, por aqui, há já quem aguarde com ansiedade o regresso destes príncipes do atlântico.
terça-feira, 16 de outubro de 2018
A Ofensiva Outonal de Janeiro Alves (Não Tardará pela Resposta)
Caro Doutor Mara,
Ficaria este seu mui
amigo descansado, se esta carta o encontrasse na plenitude das suas capacidades
intelectuais, sobretudo se orientadas para assuntos belos tais como a divindade
na botânica ou a higrometria insular, e não para devaneios anarco-sindicalistas
que já o prejudicaram no passado.
Escrevo-lhe no despontar
do Outono da varanda do meu quarto, onde pelo meio da folhagem tropical se
vislumbram excertos do pátio central desta magnífica casa de saúde
setecentista, enquanto com a mão esquerda afago os meus sapatos italianos de
cetim afivelados que tantas recordações me trazem da Eslovénia e de Trieste. Queria
saber como vai o meu amigo, mas posso desde já assegurar-lhe que bom, bom estou
eu. Naquele dia em que corria nu pela Praça D. Pedro V, firme e convicto na
minha luta contra certas e determinadas situações contemporâneas que corroem os
pilares da nossa sociedade, estaria longe de imaginar que uma camisa de forças
me transportaria a este idílico cenário de anjos, concertos de clarins e harpas
para coro de pássaros exóticos, ninfas e ninfetas que nos fornecem directamente
à boca os mais frescos frutos do bosque como se fossem comprimidos para a
inibição das consciências enquanto sussurram palavras de bonomia aos nossos
ouvidos, risos de cristal que ecoam nos claustros e balaustradas, e fontanários
de água celestial a correr como tónico capilar para o cabelo que me voltou a
crescer às golfadas. Isto constitui apenas uma breve impressão desta casa
magistral, pois tenho a certeza de que se fosse entrar em pormenores, o meu
Caro Doutor Mara estaria aqui já amanhã, de mochila às costas, a pedir que o
deixassem entrar. É uma pena que não estejamos autorizados a receber visitas, e
digo-lhe desde já que não sabemos bem onde estamos. Ser-lhe-á fornecido um
apartado, para o caso de o meu caro amigo ter a gentileza de responder a esta
carta.
Termino esta missiva com
um excerto de um poema sueco muito bonito, que partilho consigo pois aqui
ninguém fala essa bela língua: “Hjälp!
Rädda mig från denna tragedi”
Janeiro Alves
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Associação Cultural Octopus: 40 anos
![]() |
Wine in Azores: 19, 20 e 21 de Outubro no Pavilhão de Exposições da Associação Agrícola na Ribeira Grande
Desde há algum tempo que os vinhos
nacionais conquistam estantes noutros países, para além do facto de serem
elogiados e terem obtido prémios nos muitos concursos existentes, muito à base
dos produtores e promotores que lutam pela qualidade dos mesmos. Seria bom que
o mercado mantivesse a qualidade associada ao bom vinho e barato, sobretudo para que estes continuem com um preço acessível, e que
assim permaneça a garantia vinícola associada à região onde se dá a vinha e ao
carácter do seu produtor. É curioso que somos poucos os que damos valor aos
críticos ou então que se valorize de forma excessiva a importância que estes possam ter na "solvência"
do mercado vitivinícola. O que é certo é que o vinho português aumentou a sua qualidade tal como se estendeu o seu hábito a uma boa
fatia da população portuguesa, mantendo-se assim como um dos produtos característicos e identitários
deste rectângulo à beira-mar plantado mais as suas ilhas atlânticas.
Filme d´Outono: Annie Hall de Woody Allen
"Voz de Alvy: ...eu pensei naquela velha piada, sabem, daquele tipo que, vai ao psiquiatra e diz: “Doutor, hum, o meu irmão está maluco. Pensa que é uma galinha." E, hum, o médico pergunta: "Bem porque é que não o interna?" E o tipo responde: "Eu internava-o, mas preciso dos ovos". Bem, creio que é mais ou menos isto que penso sobre as relações humanas ou entre as pessoas. Sabem uma coisa? Elas são completamente irracionais e loucas e absurdas e, mas, hum, creio que continuamos a mantê-las porque, hum, a maior parte de nós precisa dos ovos”.
Woody Allen in Annie Hall, 1977.
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