quinta-feira, 30 de abril de 2020

Oráculo

o que aí vem?
o que vem lá?
quem saberá?

ninguém sabe onde está quem saberá

dizem que só deus sabe 
mas ninguém sabe de deus
onde andarará?

ninguém sabe o que deus sabe 
e ele disse saberá?

quem saberá 
o que aí vem e o que depois virá?

entre tantos enganos alguém acertará?

entre o que aí vem é o que vem lá

Luís Xarez, in "assim", Dezembro de 2019. 

Da Racionalidade

"A racionalidade é uma obrigação  que temos como espécie."

Carlos Fiolhais, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Abril 2020.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O “Ardina” Chega Sempre à Hora Certa


Não se avista ninguém nas ruas e, subitamente, há um homem que canta, mal e desafinado, é certo, mas canta, há outro que grita frases soltas e desconexas e há ainda quem distribua, sempre que pode, jornais aos amigos. Os jornais encontram-se agora sem compradores, a versão impressa vende muito pouco. E desde que o confinamento começou, aguentam-se os mais robustos financeiramente, os que já estavam instalados há mais tempo ou aqueles que sempre tiveram um grande grupo económico por detrás. Os jornalistas são pessoas que vivem de palavras, têm que comer, vivem com famílias ou necessitam de pagar as suas contas e encher o frigorífico. Os quiosques abrem a horas certas para que os leitores possam ler as notícias, tactear o virar das folhas, pressentir o cheiro a tinta do jornal impresso.
O “Ardina”, habituado à sua disciplina e hábitos matinais, valoriza os pequenos gestos e este tipo de coisas, já que dá a sua volta higiénica para fazer as suas compras diárias e manter os músculos activos, ao mesmo tempo que faz a radiografia matinal da cidade, acompanhado pela sua objectiva. Uma coisa é certa, ele parece conhecer de ginjeira as pessoas que gostam de ler, aqueles que, tal como ele, não passam um dia sem folhear as páginas de um jornal actual, ou mesmo antigo. Talvez, por isso, habituou-se recentemente a bater-lhes à porta, ou então, a deixar os periódicos e as revistas na caixa do correio. “Depois faremos contas!”, diz, despedindo-se com um sorriso nos lábios, como quem sabe das virtudes e dos vícios humanos, ou somente do simples e permanente prazer de ler um jornal. Este ardina não é um ardina qualquer, ao contrário dos ardinas tradicionais ele distribui os periódicos no seu carro, por iniciativa individual, por amizade, por mera atenção ao outro. Sem que ninguém lhe peça ou lhe faça alguma exigência. Este “ardina” é um amigo, um bom amigo, mas contas são contas!

Ananás "Smooth-Cayenne"


"-Onde alimenta a esperança no futuro nestes dias?

-Nos jovens. No céu, à noite. Nos livros."

Alberto Manguel, entrevista de Luís Ricardo Duarte, Jornal de Letras, 8 a 21 de Abril de 2020.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Estou profundamente humilhado

Estou profundamente humilhado
com o silêncio das acácias.
Porque permanecerão assim
estupidamente enigmáticas,
quando eu sei que elas escondem
o infinito das raízes?...
Graníticas, catedrais, transfiguradas,
embrulham-se na bruma 
e riem-se de mim perdidamente 
com seus cabelos verdes,
longos cabelos sensíveis,
simulando ao vento.
......................................
.....................................
Estou muito, muito magoado
com o silêncio das acácias. 

Heitor Aghá Silva, in "Nove Rumores do Mar"- antologia de poesia contemporânea, selecção de Eduardo Bettencourt Pinto.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Um Verso de Lluis Llhac

Compañeros, si buscáis las primaveras libres

Dois Poemas de Daniel Faria

Histórias do País de Helena

Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr do sol
E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar

Ítaca

O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos

in "Poesia", edição de Vera Vouga, Quasi edições, 2009.

Dessa Silente Artéria...

Uma espécie de anjo ferido na raiz

Examinemos também a escrita
O solo negro deixado pelo fogo
O mecanismo semelhante às queimadas
Deixando a terra arável na sua devastação.
Tudo isto serve para retomarmos a pedra onde está escrita
A palavra nova
A pedra onde corre o sangue.
Enquanto perguntas pelas dez palavras.
Põe a boca na palavra líquida
Examina o coração de carne em vez da escrita antiga
O verbo onde jorra a palavra incessante

Há dentro dela uma palavra nupcial

Daniel Faria, in Poesia, Quasi Edições, 2009.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

“Maria do Mar”: Cuidado com as Miúdas!

"Maria do Mar" de João Rosas, 2015
(imagem daqui:Icateca.ica.ip.pt)

“Sembra un angelo caduto dal cielo
com'è vestita quando entra al "Sassofono Blu"
ma si annoia appoggiata a uno specchio
tra fanatici in pelle che la scrutano senza poesia
sta perdendo, sta perdendo, sta perdendo, sta perdendo

Nada

        Maria do Mar” é uma curta-metragem de João Rosas, realizada em 2015, que se encontra disponível na plataforma da TerraTreme Filmes, uma produtora de cinema que tem disponibilizado semanalmente alguns dos seus filmes para (re)ver nesta quarentena cinéfila.
Da sinopse ficámos a saber que Nicolau (Francisco Melo) é um adolescente que acompanha o irmão mais velho e amigos, num fim de semana de estio até Sintra. Pelo meio há contadores de histórias familiares de engate, uma rapariga misteriosa e voluntária de esquerda e, que vê filmes de autor, e ainda um jovem personagem com indumentária de ursinho, este no apogeu da dor e sofrimento por desilusão amorosa. É ele quem avisa Nicolau - "Cuidado com as miúdas!" E quem vê o resto do filme outra coisa não seria de esperar.
Desta feita e, sem nos apercebermos imediatamente do que está em jogo, à semelhança dos amores na adolescência ou do nascimento das flores na Primavera, Nicolau é quem nos guia na descoberta desse desejo e encantamento primordial. Enquanto típico adolescente, atento e observador, vai subindo até ao cimo das árvores, realiza truques com baralhos de cartas ou faz uso das mãos ou do lápis para ludibriar, observando e contemplando o irmão e seus amigos de modo complacente, como se nada tivesse a ver com estes. João Rosas filma os subterrâneos da paixão, já que subentendemos em Nicolau o aflorar dos sentidos, a seiva a despontar nos tecidos, convocando-nos para esse  “Eros” estival que é, sem espinhas, a confirmação do anseio sexual perante aquela figura feminina enigmática.
Esta curta-metragem é, por isso, uma agradável surpresa, com momentos de grande cinema e em que dá mesmo gosto ter aquele olhar ingénuo, melhor, poder dormir ao relento depois do momento em que a rapariga italiana narra a origem e configuração da massa tortellini. Aparentemente, sem criar muito alarido, à semelhança da personagem feminina que lhe dá o título - “Maria do Mar”, este filme é penetrante e cativante, sobretudo pelo apelo à cumplicidade dos olhares que Nicolau vai estabelecendo com o espectador. Isso e…todos os silêncios que se vão formando e crescendo!
Depois, o filme encerra da melhor forma possível, isto é, conosco a intuirmos e acedermos secretamente à paixão de Nicolau por Maria do Mar (Mariana Galvão), quando ficamos todos confinados no interior do carro com música à escuta, num provável regresso à outra casa - será esta a casa do amor? “Maria do Mar” é, sem qualquer dúvida, um filme caído do céu!

Carta a Janeiro Alves num Confinado Abril

Caro Janeiro Alves,

Meu caro amigo, prolixo, padrinho, pintor, profeta, poliglota, profícuo, pastor e profissional da escrita, diga-me: o que é que tem feito? Será que há novidades desse seu confinamento e isolamento social? Soube, entretanto, por fontes fidedignas, que Janeiro Alves se tem dedicado à pintura entre dez a quinze horas diárias. O que é que tem andado a aprontar nas catacumbas do seu ser? Perdoe-me esta minha curiosidade excessiva, mas anseio por novidades suas, tal e qual a chegada dos cagarros muito em breve.
Estamos ainda no mês de Abril e sabemos que é tempo de transformação e liberdade. Depois virá Maio que é, entre todos, o mês mais belo, superando em pulcritude os restantes meses. Poucas letras compõe o nome deste mês que irá robustecer os dias primaveris há muito aguardados. Daqui a muito pouco tempo, celebraremos a ascensão da temperatura e renunciaremos a roupa quente que, entretanto, guardaremos nas gavetas pesadas de bolor. Juntos permaneceremos na presença dos dias que admitimos maiores, ampliando o tempo ao gosto das horas e do calor. Assim, visionaremos a metamorfose do azul e contemplaremos luscos-fuscos memoráveis.
Eu, por aqui, vou conversando com a Miriam, que está de regresso após longa viagem pela Índia. Partilhamos a meias o Solar dos Manaias, ainda que nos encontremos somente no jardim para bebericar um chá verde, oriundo das melhores folhas de Camélia Sinensis. Sempre dá para dividir o pacote de bolachas Maria, ler o horóscopo e trocar impressões sobre as cores crepusculares do entardecer. Comunico-lhe que Miriam está diferente, mais bonita, é certo. A viagem tornou-a mais tolerante e dócil. No entanto, medita várias vezes ao dia, o que torna os nossos encontros demasiado dolentes e silenciosos. Às vezes julgo estar na presença de uma sombra, de um fantasma de outrora, sem rasgo ou chama. Quase ausente. 
Despeço-me com a sensação que talvez ainda possa chegar uma missiva na caixa do correio por estes dias. Regurgito, melhor, anseio por um passeio e pelo sorriso imaculado e galante das donzelas que despertam na fulgência primaveril. Por agora é tudo o que me ocorre, e quero, simplesmente, sugerir-lhe que me envie um tupperware com filetes de pescada confecionados pelo meu querido amigo. Será que é possível?
Com  elevado apreço e estima,
Doutor Mara

Verso de Nada

Sembra un angelo caduto dal cielo