quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Um Poema de Miguel Martins

A vida é impossível, não importa
o Vicks Vaporub, o que  nos fazem 
ou o que nós fazemos, se ou quando.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salgar a focinheira
do porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.

Ora acontece que, seja dia ou noite,
só me apetece ladrar à maresia. 

in "Do Lado de Fora - Dispersos escolhidos-1995-2017"-edições Abysmo.

domingo, 6 de novembro de 2022

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

"No País de Alice" de Rui Simões


    No País de Alice é um bonito filme! E, ultimamente, não abundam filmes bonitos! É um filme para todos aqueles que ainda gostam 
muito de Portugal, uma declaração de amor a este país antigo com séculos de história, um cartão postal apaixonado em forma de poema visual para um país que não desiste das suas raízes, que não renega, mas, sim, exalta a valorização do seu território periférico e que, por sinal, ainda não vacilou completamente perante uma globalização que tudo oblitera, uniformiza e condena ao desaparecimento.
Neste documentário de quase duas horas, o realizador socorre-se da sua filha para mostrar este bonito país que se recusa a desaparecer. Para dar conta desse testemunho, Rui Simões viajou com Alice para lhe mostrar uma paisagem rica e variada, que vai dos Açores a Pitões das Júnias, passa pelo Soajo, Aveiro, Idanha-a-Nova e Belgais, para depois se encerrar em Lisboa, por motivos do pesadelo inicial da pandemia da Covid-19. Mas nem só de história e tradição vive  este “No País de Alice” – essencialmente na força das filarmónicas e dos caretos – já que  também arrisca com os nómadas digitais que se afastam dos grandes centros para viver junto da natureza ou a ideia do guardião do tejo que usa as redes para denunciar a poluição, para lá da galeria de imagens e de afetos do fotógrafo Álvaro Rosendo, ainda a escola de música de Belgais, pela mão de Maria João Pires, que nos traz a arte de viver. E, por falar em música, nada mais imprevisto e entusiasmante do que seguir estas imagens acompanhadas pela sonoridade dos Dead Combo, na guitarra mítico-mágica de Tó Trips, para além do desfecho desesperante e sombrio pela voz de Nick Cave.
 Última nota para aludir que o filme foi exibido em antestreia nacional na sala 2 do Teatro Ribeiragrandense, e que, ainda dentro deste ciclo de documentários promovidos pelo Clube de Cinema local, exibirá já esta sexta-feira, outro belo e instigante documentário intitulado - “Les Açores de Madredeus”, de Rob Rombout que, à semelhança de Rui Simões, também ele, estará presente para falar com o público açoriano.  

terça-feira, 11 de outubro de 2022

“Les Açores de Madredeus”, de Rob Rombout, no Ribeiragrandense


           “Les Açores de Madredeus”, documentário de Rob Rombout, será exibido na sala 2 do Teatro Ribeiragrandense, no dia 14 de outubro, sexta-feira, às 20h30, numa sessão do Clube de Cinema da Ribeira Grande. 
              Esta obra cinematográfica, rodada no arquipélago açoriano, documenta as origens e o percurso da banda portuguesa mais internacional de sempre - os Madredeus. Ao longo de quarenta minutos acompanhamos a paisagem açoriana e os seus lugares emblemáticos, povoados por uma banda sonora por nós reconhecível.
    A sessão contará ainda com a presença do documentarista Rob Rombout, nascido em Amesterdão, em 1953, professor e habitante da cidade belga de Bruxelas, desde 1975.  O realizador de filmes documentais, há mais de três décadas, é também professor na St. Lukas, escola de cinema e arte de Bruxelas (LUCA). Este já realizou mais de trinta documentários, sendo que grande maioria dos seus documentários já foi exibida nos canais televisivos e salas de cinema de todo o mundo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Ribeiragrandense: Houve Jonathan e também PMDS!

     De forma surpreendente e elegante deu-se a rentrée musical em São Miguel, mais concretamente na Ribeira Grande e no seu mais que belíssimo teatro centenário, o Ribeiragandense. Foi no sábado, dia 10, com uma sala bem preenchida e com uma plateia atenta e ansiosa por escutar inicialmente a música do guitarrista canado-terceirense, de nome singular: Jonathan. Sim, é de origem terceirense, já que regressou muito tenro do Québec, no Canadá. A sala estava escura e ele, no auge da sua timidez e nervosismo, começou por augurar um bom espectáculo, referindo também nas suas palavras que se trataria de uma viagem musical. Jonhathan parece ter a guitarra como extensão do seu corpo, a respiração e cadência sente-se e é notória para quem assiste de longe. É urgente gravar estas deambulações sonoras, são cordas à solta com trinados de grande fulgor. Algumas mesmo em delírio, errantes, outras em porto seguro. E, sejamos sinceros, quem entrou neste enleado sonoro só se pode dar por feliz, extenuado, contente por saber-se tonto, exausto. Não, não era ukelelé, mas aquelas cordas navegantes cativam, serpenteiam, são águas agitadas e profundas daquele modo ilhéu nervoso, numa contensão imprevista, sedutora até à exaustão.

      De seguida, apareceu em palco a dupla PMDS, anunciados como cabeça de cartaz, o que provariam de imediato quando encetaram a audição dos temas do álbum “Caloura”, editado em Janeiro deste ano. Num cenário coroado de pura atmosfera tecno-electrónica, por vezes celestial, outras mais experimental, sem esquecer as raízes e a tradição, como foi o caso da execução do tema tradicional terceirense - “Meu Bem, desta feita elaborada ao piano de forma minimal, com roupagens de música pré-gravada. O público presente rendeu-se ao diálogo sonoro protagonizado por Pedro Sousa e Filipe Caetano, não esquecendo a imponência do cenário, aqui numa composição plástica de Marco Machado, quase espacial, algo etérea. 
    Desta feita, os PMDS passearam-se em palco propondo múltiplas viagens, e  num desses itinerários tinha por título "Berlin", evocação da capital alemã, contando também com um público “amigo e familiar”, que estava atento e cativo das camadas e atmosferas sonoras provenientes da dupla. Podíamos, evidentemente, destacar uma paleta variada de influências dos PMDS, como os Kraftwerk ou Tangerine Dream à cabeça, mas há algo de particular e distinto que nos transporta para um lugar outro ainda por nomear. Ou, muito simplesmente, a vontade de agradecer este devaneio musical produzido na ilha maior!