Alentejo, Alentejo” foi o nome
escolhido pelo Sérgio Tréfaut para o seu mais recente documentário, desta feita
sobre o cante alentejano e que acabou de conquistar, na categoria de películas
nacionais, a edição deste ano o festival internacional de cinema independente
IndieLisboa. Sérgio Tréfaut filma homens e mulheres, curtos e grossos, pequenos e grandes, crianças
e velhos, essencialmente todos aqueles que se dão à experiência do cante
alentejano e o mantém vivo. Daí este aproximar a câmara aos cantores alentejanos
e deixá-los fazer aquilo que estes mais gostam de fazer quando estão juntos:
cantar, comer açorda e beber o vinho que produzem. “Alentejo, Alentejo” é,
pois, um monumento ao cante antes deste
virar património mundial. Rica alma a deste gente, julgamos ainda ser possível apelidar de povo, e que se expressa no cantar e no
gosto de o fazer publicamente em qualquer lugar, sendo actualmente uma das maiores fontes
de vitalidade e afirmação cultural daquela região. Ergamos um copo e ouçamo-los cantar bem como agradecer à Burra de Milho por esta extensão à Ilha Terceira.sexta-feira, 23 de maio de 2014
"Alentejo, Alentejo" de Sérgio Tréfaut
Alentejo, Alentejo” foi o nome
escolhido pelo Sérgio Tréfaut para o seu mais recente documentário, desta feita
sobre o cante alentejano e que acabou de conquistar, na categoria de películas
nacionais, a edição deste ano o festival internacional de cinema independente
IndieLisboa. Sérgio Tréfaut filma homens e mulheres, curtos e grossos, pequenos e grandes, crianças
e velhos, essencialmente todos aqueles que se dão à experiência do cante
alentejano e o mantém vivo. Daí este aproximar a câmara aos cantores alentejanos
e deixá-los fazer aquilo que estes mais gostam de fazer quando estão juntos:
cantar, comer açorda e beber o vinho que produzem. “Alentejo, Alentejo” é,
pois, um monumento ao cante antes deste
virar património mundial. Rica alma a deste gente, julgamos ainda ser possível apelidar de povo, e que se expressa no cantar e no
gosto de o fazer publicamente em qualquer lugar, sendo actualmente uma das maiores fontes
de vitalidade e afirmação cultural daquela região. Ergamos um copo e ouçamo-los cantar bem como agradecer à Burra de Milho por esta extensão à Ilha Terceira.sexta-feira, 16 de maio de 2014
Fim de Semana
Estirado na
areia, a olhar o azul,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.
Alexandre O´Neill, Poesias Completas, 1951/1981, Biblioteca de Autores Portugueses,Imprensa Nacional Casa da Moeda.
ainda me
treme o parvalhão do corpo,
do que houve
que fazer para ganhar o nosso,do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.
Alexandre O´Neill, Poesias Completas, 1951/1981, Biblioteca de Autores Portugueses,Imprensa Nacional Casa da Moeda.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
sábado, 10 de maio de 2014
Amor como em Casa
Regresso
devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde".
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde".
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Europa.
Duas décadas
depois de ter feito Erasmus na cidade grega de Salónica, regressam agora as
eleições europeias. Hoje, dia da Europa, é verdade que muitos de nós continuamos sem saber
muito bem o que é exactamente a União Europeia.
Naquela
altura, vivia-se um período de desafogo e euforia económica e a Grécia, o berço
da civilização, permitia corroborar que a Europa enquanto conjugação de várias
culturas era per si uma construção
frágil. Não é fácil, por mais que se queira, juntar italianos com suecos,
portugueses com alemães, espanhóis com holandeses, ainda por cima tripulantes da
mesma galera e que a viagem corra às mil maravilhas. No entanto, é possível com
algum sonho e utopia construir uma ideal de democracia que nos permita sair do
ancestral estado bélico e da contínua atracção pela barbárie, bem como montar a
paz por muito tempo e ainda que possamos alargar o campo de possibilidades de
uma sociedade mais justa, democrática e solidária.
Algum tempo depois desse ideal sonhado não há presentemente
muito para celebrar. O desemprego é a face da moeda mais
visível desse desencontro e o medo de viver em democracia
tornou-se uma realidade das sociedades contemporâneas, a acrescentar à contínua anulação
das diferenças e formas de estar de países com fraco poder económico. É tempo, portanto, para evocar a experiência Erasmus e
essa utopia da união das diferenças e de aceitação pelo ritmo e cultura de cada
comunidade e país. Foi assim uma experiência única e vivida de forma intensa e
que foi muito além das trocas universitárias e do programa de estudos aí
existente. Talvez por isso, aprenderam-se línguas, viajou-se bastante dentro e fora do
país em que se esteve, conheceram-se os hábitos e os gostos alimentares de um país
diferente do nosso, contactou-se com a história e a cultura de um outro país bem como
se fizeram amigos e conhecimentos que perdurarão ao longo da vida. Uma coisa
é possível garantir: o melhor da União Europeia passou por aquele
projecto em construção e pela sua ideia de miragem sem grandes imposições. O Erasmus era a união das
diferenças e não o domínio e a imposição de uns sobre outros. Ainda restam dúvidas sobre isso?
As Nuvens, as Nuvens...
| Fotografia: FN |
Não sabemos nunca o que dizer
sobre nuvens. Há quem já tenha escrito que as Nuvens Não Precisam de Almofadas.
Gostamos delas quando se mexem, quando se agitam, quando brincam no céu como
crianças no recreio. Gostamos menos quando ficam paradas, quando se instalam,
quando zangadas para nós olham sem saber o que dizer. Muito cinzentas sabemos
que mais cedo ou mais tarde irão chorar. A maior parte das vezes somos
impacientes com elas, rogamos-lhes pragas, fazemos preces para que passem e nem
sempre sabemos o que fazer com elas em dias felizes, a não ser que procuremos
nas gavetas poemas que não sabemos muito que direcção, rumo ou orientação lhes
dar, certamente depois de descobrirmos que afinal o seu instrumento de medição de velocidade e destino já ter sido inventado há muito, muito tempo: “Na rua do inventor do Nefoscópio/ incide
amplo e plúmbeo amplexo/ pesadas nuvens em inusitado branco/ luz rala em cinzento desfeita/ frenética oposição à
precisão/ arremessar a manhã ao sol de Maio/ devolvendo o algodão à superfície/"
sexta-feira, 2 de maio de 2014
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Ontem escrito numa parede da cidade...
Dali pintava com sapatos apertados para a tensão nos pés lhe libertar as ideias
sábado, 26 de abril de 2014
“Vir`ó Balho” dos Myrica Faia no Auditório do Ramo Grande
![]() |
| Imagem retirada do "Quiosque Açoriano" |
Quem
ouve o nome deste novo agrupamento musical terceirense pensa imediatamente numa
árvore presente na região intitulada de Faia-da-Terra, natural da região
da macaronésia, espécie tão bem conhecida dos estudiosos de botânica. A
verdade é que Myrica Faya é uma banda musical assumidamente açoriana, composta por
Bruno Bettencourt (Viola da Terra), Cláudio Oliveira (Baixo), Emílio Leal
(Piano, Voz), Pedro Machado (Guitarra, Voz), Ricardo Mourão (Guitarra, Voz). No
dia 3 de Maio, no Auditório do Ramo Grande, os terceirenses Myrica Faia apresentam
o seu primeiro disco, com entrada gratuita, contando com um reportório
essencialmente elaborado por músicas tradicionais açorianas e onde será possível
escutar “Caracol”, “Charamba”, “São Macaio”, “Sol”, “Lira”, a bem micaelense “Pézinho
da Vila”, ou ainda a internacionalmente conhecida “Chamateia”, temas estes revestidos de
novas roupagens, reforçadas pela diversidade das vozes e com a predominância das
cordas, neste caso das guitarras, inclusive a viola da terra. Não seria despiciendo incorporar um violino ou até mesmo um acordeão para
equilibrar a contenda, mas compreende-se o risco em
avançar com um projecto desta envergadura. Desta feita, está a ser preparada uma
digressão pelas ilhas do triângulo (Faial e Pico) bem como uma passagem por São
Miguel (Teatro Micaelense) para apresentação de “Vir`ó Balho” e testar as músicas junto
dos melómanos existentes nas ilhas.
Abrilizar...
Documentário essencial para
perceber o que é que se passou. As razões e outros motivos porque se fez uma
revolução ou se quis mudar o estado das
coisas. Rui Simões escolheu os "refractários"- inclusive, ele próprio
- para contar a história dos que não tinham escolha senão a guerra. E num ritmo impressionante
e com uma qualidade surpreendente de registos e testemunhos pessoais conta
aquilo que provavelmente há muito estava silenciado e necessitava ser dito.quarta-feira, 23 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Postal Pascal para Miriam Manaia
Continua a invernia por aqui.
Descobri que no
final do filme “E a tua Mãe Também” do Alfonso Cuáron está lá o“Watermelon on
the Easter Hay”, do álbum "Joe´s Garage", de Frank Zappa, e por isso passei estas noites de frio e chuva a rever os
créditos finais do filme para que a música se instale e contamine a atmosfera
circundante. Passaram-se vinte anos sobre a estreia do filme do mexicano e em que também
confessei a Mário Cesariny que ele era um dos maiores poetas portugueses,
porventura também na melancia do feno
da Páscoa. Em cima da mesa do meu escritório, para além de uma fotografia
com a Miriam na Cave do Solar dos Manaias, tenho uma proposta de doutoramento:"Da melancolia ao renascimento:
contributo filosófico de um funâmbulo para a construção de um eterno
retorno". É uma singela proposta bem como uma ideia singular do velho
amigo Santiago de Olissipo, há muito retirado, por desgaste e desconsolo, das lides académicas.
Gostaria muito
de ter notícias vossas, alegremente,
Doutor Mara
sábado, 19 de abril de 2014
Dois Poemas sugeridos por Tiago P. Rodrigues.
Quantos
mares extasiados
lentos e
sussurrantes ardem
na lagoa do
meu peito a pedir água
para a sede
vulcânica dos teus olhos!
A alma
errante pelos becos da ribeira
alonga-se na
mansidão do fogo
a cada fluir
da névoa
repartida na nostalgia de uma saudade
ou na
certeza das aluviões tranquilas
a mergulhar
no crepúsculo em agonia.
Uma sucessão
de sonos encalhados na furna
resiste ao
encalhar das ondas e vai
modulando o
ilhéu migrador
dos últimos devaneios calados
na memória.
Américo
Teixeira Moreira
RECUSA
a Alberto de Serpa
Serei sempre
um poeta provinciano.
Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a mão aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
Não falarei
de minha poesia.
Não rimarei
minha angústia
Com a
solenidade de suas questões.
A poesia não
está na discussão.
A poesia não
está no não estar com este ou com aquele.
A poesia
está em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a
vida renasça.
A poesia
está em gritar do alto dos arranha-céus
E das
planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo
vai acabar
Que o mundo
está maduro para o sangue
Que o mundo
perverso e caótico vai vagar.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta
esquivo defendendo sua solidão
De todos os
truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas
rendilheiros não perdoarão.
Os poetas
vaidosos vão barafustar
E exigir a expulsão imediata
Do último
vendilhão do Templo,
Em nome da
religião,
Em nome da
estética,
Em nome da
dignidade amarfanhada,
Em nome da
polícia se preciso for.
Serei sempre
um poeta provinciano.
Um poeta esquivo anunciando a verdade
A repassar
de gelo os corações narcotizados.
Os poetas
rendilheiros não perdoarão.
Os poetas
vaidosos vão barafustar,
Porque o fim
do mundo está próximo.
Os poetas
rendilheiros e os poetas vaidosos estão maduros para o sangue.
Já estão cevados para a morte.
Eles
esquecem (perdão, não é blasfémia!) a sentença do Cristo:
— «Destruí
este Templo e eu o reedificarei em três dias.»
Vasco Miranda (de A Vida Suspensa,
1953)
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