segunda-feira, 17 de abril de 2017

Interrogatório I (Alberto Ai interroga Dr. Álvaro Bruma no Ramiro em Lisboa)

Dr. Álvaro Bruma é um conceituado meteorologista insular, que ficou famoso pelas suas polémicas teorias sobre o clima, de onde resultaram sentenças como “O clima de suspeição que se vive em Portugal é mais elevado no Inverno devido a factores psicológicos” ou “Altas concentrações de actividade sexual contribuem decisivamente para o aquecimento global”. Depois de várias tentativas falhadas por parte da nossa redacção, eis que conseguimos um exclusivo com Dr. Álvaro Bruma, que assentiu a conversar um pouco com Alberto Ai, desde que o fossemos buscar a casa e lhe pagássemos a viagem e o almoço. Apesar dos parcos recursos desta redacção, achámos que valeria a pena o esforço financeiro. Alberto Ai e Dr. Bruma almoçaram santola no Ramiro, e o resultado foi este:
Alberto Ai: Antes de começar a nossa entrevista, queria-lhe agradecer o convite que me fez para ir visitar a sua colecção de répteis. Começaria por lhe perguntar de onde vem esta paixão?
Dr. Álvaro Bruma: Não diria bem paixão, mas uma volúpia de trazer por casa. Uma inolvidável volúpia por tudo que tenhas asas ou capacidade de trepar (os nossos irmãos brasileiros estão já escandalizados com este meu arrojo linguístico) mas é, sobretudo, isso. É um prazer vetusto, com muitos anos, sem dúvida, mas convirá dizer que foi muito tempo depois do surgimento da anestesia.
AA: Conhecidas que são as suas ideias sobre o clima de suspeição em Portugal, considera que o clima económico desfavorável é um céu carregado de nuvens negras, ou apenas neblinas e nevoeiros matinais de um dia radioso de sol?
DAB: Creio que a suspeição num país de justiça lenta faz parte do ambiente geral. É parte integrante do estado do tempo e, com frequência somos apanhados, não pela justiça, mas sim pela instabilidade climatérica e pelas temperaturas moderadas. Precisaríamos de justiça como de água no vinho mas a malta só tem sede de justiça na esplanada. Depois, essa mesma malta bebe dois copos de tinto, vê e assiste a um comentador desportivo e a coisa passa. 
AA: Há quem o chame de “eremita de Santa Maria”, que resulta do facto de viver isolado no interior da ilha, não criando laços de afinidade com a população local. Vive como quer, ou vive como pode?
DAB: Vivo como quero e como quando posso, evidentemente, pois nasci no meio daquela terra barrenta com odor a vaca por todos os lados. Actualmente, não há nada nem ninguém que me consiga dar ordens. Produzo aquilo que bebo e como aquilo que planto, sou mesmo auto-suficiente. De vez em quando, vou às grandes superfícies ver as oscilações do preço das sementes e começo de imediato a barafustar com os empregados, o que não é nada saudável. O meu nome já deve constar das altas esferas da conspiração e espionagem internacional. 
AA: Qual foi a coisa mais surpreendente que viu na sua actividade de observação de fenómenos atmosféricos?
DAB: Foram as auroras boreais em Tromsø, ali na Noruega. Estava com a minha companheira, a Celeste, uma minhota de olhos cor de amêndoa, estávamos na presença de 230 cm de neve e a média da temperatura daquele Janeiro rondava os-4 °C. Estávamos completamente gelados, a pingar do nariz e os ossos petrificados, mas felizes. Não me lembro de mais nada assim.
AA: Dr. Álvaro, o que faz nos seus tempos livres?
DAB: Tenho sempre comigo um nefoscópio de reflexão onde vejo a direção e meço a velocidade das nuvens. Passo horas com picos de ansiedade e quase me esqueço de jantar. Há dias telefonaram-me para ir dar uma conferência sobre altas e baixas pressões e eu não ouvi, pois encontrava-me a seguir uma nuvem denominada de Altocumullus que ia em direção à Ilhéu de Vila Franca mas com um pendor desviante para o ilhéu das Formigas. 
AA: O que levou o Dr. Álvaro a seguir esta actividade? Corrobora da ideia generalizada de que para abraçar a profissão de meteorologista é necessário ser-se um pouco apanhado do clima ou andar com a cabeça nas nuvens?
DAB: Sim, é um facto. Eu fiquei conhecido na faculdade pelo Professor Doutor Nefelibata. Cheguei mesmo a criar um conjunto musical intitulado “Bardos & Nefelibatas”. Nunca ensaiamos na vida, mas fomos capazes de dar doze concertos, já que havia a premissa de que só tocaríamos quando fizesse bom tempo. Curiosamente a banda terminou num concerto em que fomos atingidos todos por um raio e sua respectiva trovoada que deu cabo da mesa de mistura e dos instrumentos. É uma sorte estarmos vivos, é um facto. Mais sorte tivemos quando soubemos que um dos nossos fãs decidiu pagar os estragos com uma herança de um bisavó, o que não foi pouco. 
AA: O que pensa da dispensa de meteorologistas da televisão portuguesa, e da sua substituição por mulheres bem delineadas de roupas leves, que ditam a previsão do estado do tempo lendo o teleponto ao som de música erótica?
DAB: Não vejo televisão desde o furacão Alex, achei que aquele embuste foi demais. Quanto às roupas leves é uma das consequências das alterações climáticas, pois vamos sendo despojados do essencial e qualquer dia teremos que andar com aquilo com que viemos ao mundo. Quanto à música erótica, afianço-vos, meus amigos, que esta já teve também melhores dias.
AA: Por fim, e agradecendo desde já esta sua entrevista ao Interrogatório, pedia-lhe que nos desse a previsão do estado do tempo para os próximos dias.
             DAB: Alguma chuva, boas abertas, claro. E para vocês também.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sobre a Sala de Embarque no Teatro Micaelense

 
(Fotografia de Carlos Olyveira)

         Quatro personagens encontram-se, por razões diversas, numa difusa sala de embarque: um velho em perda mental, uma rapariga sonhadora, um jovem impaciente e uma mulher de meia-idade caída no desemprego. O cenário é simples: no palco, dois bancos de madeira condensam o impasse e as tensões que se vão estabelecer entre o quarteto; no alto, nuvens suspensas, que tanto alimentam sonhos como anunciam tempestades. Nos Açores, os humores atmosféricos acentuam essa ambiguidade. Nunca se sabe o dia de amanhã e, talvez por isso, o final seja em aberto. Ninguém parte de mala vazia, sem as sombras do passado e as interrogações do futuro. Não estamos num momento definido, mas é impossível dissociarmos do nosso tempo mais recente, os anos da Troika, em que nos indicavam uma porta de saída do país, aconselhavam “a abandonar a nossa zona de conforto”, que não “fossemos piegas”. Não sou competente para discutir questões técnicas, representações, textos e ritmos da dramaturgia. Nem se fosse o caso isso teria qualquer interesse para aqui. O que eu quero salientar são a coragem e o empenho de uma equipa alargada não profissional em levar à cena uma reflexão sobre a partida, primeiro, no final do ano passado, na Galeria Arco 8, e, no dia 25 de Março de 2017, no salão nobre da ilha, o Teatro Micaelense. Tal como nas três sessões anteriores, a sala esgotou. Valeu a pena a viagem, a deles e a minha. Ao contrário do que nos acusam, nem sempre gastamos todo o tempo e o dinheiro “em copos e mulheres”.

Paulo Lisboa

Hoje, às 18h30, na Tipografia Micaelense

Fotografia de Carlos Olyveira 
       Os micro-contos estão prontos. A reunião está feita e o trabalho de tipografia está concluído. São sete micro-contos efectuados na Tipografia Micaelense sob a orientação gráfica de Júlia Garcia e o trabalho colaborativo de Eduardo Furtado e Dinis Botelho. Ao todo sete narrativas minúsculas que se lêem de jorro, entre o café e uma torrada, e que nem por isso deixam de provocar regalo e delícia nos olhos mais atentos perante a beleza de tal arrojo e empreendimento. Foi oficio prolongado e que explorou os tipos existentes naquele espaço tipográfico repleto de memórias e labores. Os autores destas pequenas histórias são: Nuno Marques da Silva, Blanca Martín Calero, Fernando Nunes, Laura Borges, Francisco Melo Bento, Eduardo Brito e João Pedro Porto. Mais logo, pela tardinha, há leituras e conversas para quem quiser aparecer. 

Caderrnos de Poesia no Tascá

Fotografia Carlos Olyveira

   Saiu aquando do evento-celebração Pontes-Gramáticas da Criação, esta edição dos “Cadernos de Poesia da Tascá” e conta com o arranjo gráfico de Júlia Garcia e a organização de Diana Diegues e Rita Freire. O seu interior contém poemas de Blanca Calero, Bruno Soares, Eduardo Brito, Fernando Martinho Guimarães, Fernando Nunes, João Malaquias, Leonardo, Miguel Teixeira de Andrade, Regina Guimarães, Urbano Bettencourt, ainda as colagens de Paula Mota e João Amado. Lá dentro há poemas para todos os gostos e feitios  e, claro, poesia evocativa de um amigo, um grande amigo, aliás, alguém que continuará presente nas sessões de poesia da Tascá, permanecendo em memória e sempre com o rastilho e aquela sua vontade de continuar fazendo. Os actuais fazedores não se esquecerão e  saberão lembrar o seu nome: João da Ponte

domingo, 2 de abril de 2017

Pontes: Gramáticas da Criação em Ponta Delgada

Fotografia de Carlos Olyveira
Durante cinco dias da passada semana e, sempre ao fim da tarde, cumpriu-se o “Pontes – Gramáticas da Criação”. Duas dezenas de convidados estiveram na cidade de Ponta Delgada a partilhar ofícios e conhecimento, a conversar sobre os seus temas e assuntos de eleição, acolhidos que foram em lugares como os da Galeria Arco 8, Sinaga, Tascá e Igreja da Mãe de Deus.
Uma vez por ano, no dealbar da Primavera, os dias e a vida poderiam muito bem ser assim: reflectir em conjunto sobre aquilo que se faz, produz, constrói, isto é, falar sobre os caminhos das artes e da cultura e, porque não, o solidificar de várias cumplicidades e demais projectos criativos em que se encontram envolvidos. E como foi interessante e deveras entusiasmante, poder conhecer as visões de Nova Iorque de Jorge Monjardino e Paulo Abreu, a artesania editorial da Hélastre, de Saguenail e de Regina Guimarães, a descoberta e pesquisa dos sons de Raquel Castro, as curtas viandantes de André Laranjinha e Eduardo Brito, as ideias e as palavras representadas de Lígia Soares e Miguel Castro Caldas ou ainda a música atlântica de Medeiros/Lucas. A acrescentar, tal como uma cereja em cima de um bolo, algo que o João da Ponte também gostaria de ter participado - a edição dos “Cadernos de Poesia da Tascá”, com o design de Júlia Garcia, a organização de Diana Diegues e Rita Freire e com poemas de Blanca Calero, Bruno Soares, Eduardo Brito, Fernando Martinho Guimarães, Fernando Nunes, João Malaquias, Leonardo, Miguel Teixeira de Andrade, Regina Guimarães, Urbano Bettencourt, ainda as colagens de Paula Mota e João Amado.
         Após cinco fins de tarde intensos, curiosos e estimulantes, simples será de concluir que o “Pontes-Gramáticas da Criação" se traduziu num encontro realmente prolífico e auspicioso: entre ideias, filmes e canções, vozes e outros sons, publicações e poemas, ligaram-se cumplicidades, ergueram-se novas pontes. Sempre sob o signo de João da Ponte (que saudades!).
Retomemos agora, com delicadeza e toda a humildade do mundo, as agruras e as canseiras do quotidiano (ou lá o que é) pois a arte e a cultura apenas servem para dizer que estamos vivos e…atentos! Um bem haja à organização do “Pontes”!

Sala de Embarque: As quatro razões para partir

       
Fotografia de Carlos Olyveira

         Entre o partir e o ficar, fica a espera, a indecisão…
        Nunca ninguém parte completamente, porque partir nunca é, na verdade, ir sem deixar absolutamente nada para trás. As motivações para qualquer partida acontecem sempre tendo um ponto em comum: o da mudança. Acreditando-se poder chegar a um lugar melhor. Um sonho imaginado de um provável destino desconhecido. São quatro as razões para a partida de cada um dos personagens e que transformam esta Sala de Embarque numa sala de espera. A acção acontece à volta da vontade que cada um tem para mudar a sua vida e, embarcar no sonho impulsionado pelas motivações que o levou até ali. Há uma vontade de partir explícita nos diálogos que vão acontecendo, desvendando as estórias que existem em cada um dos quatro passageiros. Nestas conversas, vamos entendendo que todos querem partir numa espécie de fuga da sua própria vida, dos seus passados, dos pesadelos ou, apenas, fugir dos seus medos… Talvez até fugir de si próprios e encontrar o verdadeiro Eu numa viagem qualquer, nem que seja, tão só, na viagem da imaginação. Mas, o destino é sempre incerto, porque, incerto é o destino e o medo do incerto pode ainda ser maior que todos os medos já vividos. Neste encontro, há reencontros com um passado que se deseja apagar, de uma mudança que seja capaz de fazer desvanecer os fantasmas que teimam em estar presentes. Partir é procurar algures um destino que quebre memórias. Mas, será mesmo possível partir, esquecer ou atenuar a perseguição dessas sombras? A indecisão de viajar fica-se muitas vezes pelo sonho, porque o medo do incerto é aterrador!  Desiste-se ou adiam-se esperanças…Sala de Embarque poderá bem ser a “sala de espera” de qualquer um de nós, com as nossas indecisões, com os medos da mudança. Esperar é também esperança, a de se encontrar na sala de embarque uma porta de partida. Mais do que um local de espera, Sala de Embarque é um porto de abrigo onde são lançadas âncoras de fé.
        Fernando Nunes escreveu quatro histórias. Todas elas são diferentes  entrecruzam-se entre passado e futuro, em que cada um, pelas suas razões pessoais, deseja partir para embarcar na fuga de si mesmo, para um qualquer lugar imaginado e tido como “eventual” destino certo. Mas, entre o partir e o ficar, há a espera…a indecisão.
        Ao intenso trabalho, juntam-se os talentos de: Henrique Santos, João Malaquias, Margarida Benevides e Joana Marques que, com a sua criatividade, nos levam até à Sala de Embarque e nela fazer-nos esperar até que a viagem aconteça. À composição musical de João Luís Macedo vêm, também, juntar-se as cumplicidades de Lígia Soares, Ana Lúcia Figueiredo, André Almeida, Diogo Fonseca, Carlos Oliveira, Júlia Garcia e Miguel Caldas.
       Sala de Embarque é um esforço conjunto que muito merece o carinho de todos aqueles que procuram na arte e na cultura uma forma de aprendizagem complementar e não formal. Por esta razão, embarque e seja mais uma pessoa presente na Sala de Embarque.
José França

sábado, 18 de março de 2017

Lenga Lenga

Diga lá minha menina,       
quantos peixes há no mar?             
Quantos peixes há no mar!
Ainda lá não fui ao fundo!
Diga lá minha menina,
quantos homens há no mundo?
Quantos homens há no mundo!
Nem todos trazem chapéu.
Diga lá minha menina,
quantos anjos há no céu?
Quantos anjos há no céu!
Ainda lá não fui ao cimo.
Diga lá minha menina,
quantos gomos tem a lima?
Quantos gomos tem a lima!?
Tem tantos como o limão
para dar a uma menina
que anda de beiça caída
com nódoas no coração.»

(autor desconhecido)

domingo, 5 de março de 2017

Blazer

As pessoas que nos estão relativamente próximas
não deviam nunca abalar, ou mesmo esvanecer,
não deviam.
Eu podia, porventura, declarar-lhes
o meu eterno e delicado amor
esse sentimento proveniente das entranhas
a retoma da engenharia dos sentidos 
a monarquia absoluta dos afetos
Ou somente a vitória infinita da memória
sobre o esquecimento

As pessoas que nos estão próximas
não são molduras douradas à venda num cangalheiro
as pessoas que queremos próximas
deveriam simplesmente permanecer.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Pepe Brix na Galeria Arco 8

A Exposição abre dia 3 de Março, às 22 horas. 

Coração de Cão no Teatro Micaelense

Coração de Cão de Laurie Anderson
(4 de Março, às 21h30)
        
     "Há imenso sofrimento no mundo, imensa tristeza, a ideia é não ficar imobilizado, não nos tornarmos sofrimento e tristeza. Porque essa filosofia é um sistema diferente daquele que avalia através do trabalho: estamos aqui para nos divertirmos. Valorizo essa filosofia porque no meu trabalho tenho de lidar com coisas que não são boas."
Laurie Anderson, in Ípsilon 

Ser DeVer

Por teorias do não ser agarradas ao querer
Fiz de tudo, sempre e muito, para não te ver sofrer.
Senti sempre um coração que provinha do depois
Ai tão fácil solidão para ser vivida a dois.

Quero não quero, assim me faço ver
Tenho não tenho, assim me faço ser
Assim me faço ser

Percorri tantos caminhos como pobre e pecador
Vivi poucos, tantos anos, para ser bom sonhador!
Não há nada nem ninguém que não queira o que não tem
Não há nada nem ninguém que me tome por alguém.

Quero não quero, assim me faço ver
Tenho não tenho, assim me faço ser
Assim me faço ser

Imensa dor que não existe por não ceder ao teu querer
Imensa dor que não te aflige por ser maior o teu dizer.
Já não vive o coração que um dia se fez chorar
Fez-se morta a ilusão de que um dia eu possa mudar.

Quero não quero, assim me faço ver
Tenho não tenho, assim me faço ser
Assim me faço ser

Tarde é nunca e tudo é de seu tempo.

Música dos WE SEA, letra de Rofino.