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| Fotografia de Carlos Olyveira |
sábado, 24 de fevereiro de 2018
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Hoje há quinta nocturna de poesia no Tascá.
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
também
receamos que não nos paguem as passagens para ir à capital passear o copo de
gin muito bonitinho e enfeitado com o nome do arquipélago, com direito a uma
salada-da-moda e a uns sapatinhos a condizer - devidos swag e circunstância
incluídos no pacote.
claro
que sabemos que a cultura é um rappel de domingo e quem não se aguenta na corda
cai da parede e estatela-se na ignorância de ter pensado que havia alguma coisa
de sério em tantas gravatinhas sentadas e atentas aos doutores. o desencanto
serve-nos de pouco.
hoje,
de facto, não celebramos nenhuma consagração. celebramos, com a gratidão dos
copos e dos brindes, o gesto que a Sara Santos e o Carlos Alberto, sem
aparatos-rtp ou afinados ardores e coros da capela, tiveram para com estas
noites: ofereceram-nos dez livros de poesia para usufruto público, isto é, para
quem passar pelas quintas nocturnas do Tascá.
por
falar em Tascá, celebramos também que o Senhor Paulo Amado seja o melhor dos
anfitriões de semana em semana em semana. o anfitrião que participa mais na
noite de poesia do que as entidades culturais públicas todas somadas no
arquipélago.
achamos
por bem temperar o nosso anonimato com um pouco da histeria mediática geral.
se
calhar não merecemos, porque não andamos a plantar peluches do Antero de
Quental em tudo o que é jardim público. achamos que não é a distribuir flores
líricas e beijinhos pela rua que se resolve seja o que for.
e
achamos que a estátua está como está: cagada pelos pombos.
(é.
a cidade dos poetas é Ponta Delgada, mas este fornecimento das noites de poesia
semanais no Tascá veio da Rua Manuel Paulino de Azevedo e Castro, 3, 9930-149,
Lajes do Pico).
Obrigado,
Companhia das Ilhas.
Obrigado,
Tascá.
Obrigado,
João Habitualmente:
«e
agora não agradecemos a mais ninguém
porque
vamos comer um bom bife
talvez
devêssemos agradecer
à
defunta vaca
porque
sempre em tudo o que façamos
sem
dúvida contraímos
obrigação
de comer um bom bife
e
foder uma garrafa de verde
o
que é um acto poético
de
incomensurável estética.»
Leonardo
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
O Regresso de Janeiro a Meio de Fevereiro
Magnífico
Doutor Mara,
Espero que esta aguardada carta o
encontre dotado de todas as suas capacidade físicas e intelectuais, e que não
se deixe deslumbrar pela ilusória circunstância marítimo-turística insular – é
muito fácil cair em desgraça.
Lamentavelmente não lhe pude escrever
mais cedo, pois não me ocorreu e como pode imaginar só eu próprio me poderia
lembrar de o fazer. Por razões de segurança não lhe poderei fornecer a precisa
localização de onde estive este mês e meio, mas para alimentar a sua fértil
imaginação, posso-lhe dizer que estive
sediado num lugar a vários quilómetros daqui.
Fica portanto a saber que não estive cá. Mas o Doutor Mara, que é um
rapaz curioso desde os nossos tempos de faculdade, deve estar a perguntar-se
“mas que raio esteve ele a fazer tão longe?”. Descanse Doutor, que já lhe
conto. Antes, abro um parêntesis para expressar a minha mais profunda
preocupação com o facto de, na minha ausência, algumas destas cartas terem sido
roubadas e publicadas publicamente, o que duplica a minha insatisfação e me
deixa estupefacto, sobretudo pelo facto de você desconfiar que lhas tiraram do
seu realmente sobretudo. Não querendo aprofundar este lamentável episódio,
quero porém deixar claro que não concordo de todo com aqueles que falam da sua
negligência e até conivência com os larápios, por forma a obter vantagem
financeira pessoal ou qualquer outro tipo de favorecimento mais perverso que de
tão perverso nem é digno de aqui ser redigido. Não. Não acredito nesses diz que
disse, sei perfeitamente que o seu sobretudo está apinhado de bolsos e que nem
sempre é fácil organizar a papelada. Fico porém piurso com a situação. Assim
que soube dei um murro na primeira mesa que encontrei.
Voltando à minha ausência, devo dizer-lhe que
é mal empregue o dinheiro que paga aos seus informadores, pois nada do que diz
a meu respeito corresponde à verdade. Não estive em campeonatos de jogos de
azar. Com sorte fui a um ou outro concerto de música experimental, mas sempre
com uma barba postiça e botas de camurça para não ser reconhecido. Na
realidade, estive a conceber uma obra conceptual minimal, uma monumental
instalação artístico-paisagísta de carácter híbrido, que irá estar patente num
dos grandes museus de Lisboa em breve, e que me abrirá muitas portas. Julgo que
começarei finalmente a ser convidado para os melhores cocktails da cidade em
rooftops particulares cheios de gente queimada mesmo no inverno. Mas se quer
saber mais, e mais e mais, terá de esperar um pouco mais, e mais e mais.
Por fim, compreendo a sua
incompreensão relativamente à presumível distinção da minha obra literária,
pois julgo haver um verdadeiro e categórico equívoco. A única coisa que escrevi
no ano de 2017 foi um compêndio geral de plantas exóticas, que foi um fracasso
de vendas e me levou à rescisão de contrato com a editora do meu primo afastado
Sousa Penetra. Mais uma vez julgo estarmos perante uma brincadeira de mau gosto
lançada com o intuito de denegrir a minha imagem, mas eu não me vou deixar
abater. Não sei de nada, não ouvi nada, acabei de nascer e mal sei falar.
Gugu, dada
Janeiro
Alves
A Meio de Fevereiro a Missiva para Janeiro
Caro Janeiro Alves,
Um impaciente abraço
Escrevo-lhe com alguma urgência já que urge o meu banho de mar...sinto-me com o corpo entorpecido, com défice de entusiasmo e energia e à espera do respectivo choque térmico necessário para o começo de mais uma semana de trabalho.
Sob forte efeito da curiosidade está este meu estado mental, pois nada sei de si, meu bom amigo. Eis que entro por Fevereiro adentro e esta é a altura em que por vezes me dedico a reflexões de inclinação geográfica e melancólica: Por onde andará Janeiro? Que selo trará a sua próxima missiva? Que chafarricas literárias ou casas de pasto se encontra frequentar? O que levará vestido Janeiro aos domingos com o frio que se faz junto do Panteão?
Desta feita, tenho notado em mim o peso da sua ausência na caixa do correio, já que por ali apenas moram facturas, notas de débito e demais avisos das rebaixas recentes dos vinhos nos hipermercados. Entretanto, algo me tem deixado com alguma esperança, já que me disseram que o tinham visto em bailes de Carnaval, concertos de música experimental ou que presenciaram o seu semblante em jogos de bilhar, carteados, xadrez, gamão e houve até mesmo quem me garantisse que o viram num campeonato internacional de dominó…
Não minto ainda se disser que não esperava ouvir o que ouvi. O que é um facto é que ouvi algures que o amigo Janeiro irá merecer a distinção de melhor obra literária em 2017. Mais uma vez, incompreensível.
Um impaciente abraço
Doutor Mara
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Myosotis Azorica
Se o sangue correr e subir
ao cimo do verde da montanha
agarra a única certeza
reconhece pétala a pétala
provavelmente assim provarás
a sua existência é fruto
de uma inglória narrativa
pois à noite já não aguardamos
o amanhã de te avistar
Fajã
Grande, verão de 2012
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Grotta nº2 na Livraria Solmar, às 19 horas

“É verdade que os Açores e a Irlanda são verdes, como está vestido de verde a mítica figura do duende irlandês no fim doo arco-íris, guardando o seu pote de ouro. Não há como contornar a biologia. Três partes de água para uma parte de terra e temos a profusão de cores com o verde a imperar. Mas há mais. O verde das ilhas, sim, mas os vários tons de azul do mar, aquela alternância de reflexos bicolores entre o cinzento e o azul do céu. O mar cerca-nos e o céu fecha-se. Resta-nos o verde, com um fundo de estúdio sobre o que podemos projectar o que quisermos.”
Pedro Santo
Tirso in Grotta-Arquipélago
de escritores nº1, 2017
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
domingo, 11 de fevereiro de 2018
Da Esperança
"Durante a Grande Depressão, que tenho idade suficiente para recordar, era mau...muito pior, subjectivamente que hoje. Mas havia uma expectativa de que as coisas iam melhorar. Havia um autêntico sentimento de esperança. Hoje, não há."
Noam Chomsky, in P2, Publico, 11 de Fevereiro de 2018.
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Prova dos Nove
andamos neste chão há séculos de meio de mar,
desenhando o nosso rosto sobre o rumor do linho.
aqui o tempo é um sudário do horizonte.
Emanuel Jorge Botelho, in "Os Ossos Dentro da Cinza", edições Averno, 2017.
desenhando o nosso rosto sobre o rumor do linho.
aqui o tempo é um sudário do horizonte.
Emanuel Jorge Botelho, in "Os Ossos Dentro da Cinza", edições Averno, 2017.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Documentários: A Arte está na Rua!
Hoje estreia nas salas portuguesas dois
documentários que nos propõe uma reflexão sobre a Arte: “Beuys” de Andres Veiel
e “Visages Villages” de Agnès Varda e Jr.
“Beuys” dá-nos a ver a vida e obra do
artista alemão, Joseph Beuys, após três décadas do seu desaparecimento. O
realizador Andres Veiel conseguiu um vasto arquivo de imagens inéditas do
artista que ficaria imortalizado com o seu chapéu de feltro. Joseph Beuys, para
alguns considerado um artista visionário, acreditava que a arte devia chegar a
todos ao mesmo tempo, daí ter plantado sete mil carvalhos com sete mil pedras
espalhadas por Kassel, Alemanha. “A provocação faz com que qualquer coisa ganhe
vida” dizia o artista/activista que fazia questão de manifestar a sua ideia de
arte revolucionária por esta ter origem na criatividade, ao influenciar o
aparecimento da democracia bem como o alargamento do conceito de arte a vários
contextos e camadas sociais.
A partir da ideia de colar retratos em grande escala nas paredes ou mesmo em outros suportes, a realizadora Agnès Varda(88 anos) coassina com o fotógrafo e muralista Jr (33 anos) o documentário “Visages Villages”. A autora de “Os Respigadores e a Respigadora” e o fotógrafo viajaram pelo interior da França em busca dos seus novos protagonistas, retomando o gosto de ambos pelas imagens e pela arte do encontro.
“Beuys” dá-nos a ver a vida e obra do
artista alemão, Joseph Beuys, após três décadas do seu desaparecimento. O
realizador Andres Veiel conseguiu um vasto arquivo de imagens inéditas do
artista que ficaria imortalizado com o seu chapéu de feltro. Joseph Beuys, para
alguns considerado um artista visionário, acreditava que a arte devia chegar a
todos ao mesmo tempo, daí ter plantado sete mil carvalhos com sete mil pedras
espalhadas por Kassel, Alemanha. “A provocação faz com que qualquer coisa ganhe
vida” dizia o artista/activista que fazia questão de manifestar a sua ideia de
arte revolucionária por esta ter origem na criatividade, ao influenciar o
aparecimento da democracia bem como o alargamento do conceito de arte a vários
contextos e camadas sociais.A partir da ideia de colar retratos em grande escala nas paredes ou mesmo em outros suportes, a realizadora Agnès Varda(88 anos) coassina com o fotógrafo e muralista Jr (33 anos) o documentário “Visages Villages”. A autora de “Os Respigadores e a Respigadora” e o fotógrafo viajaram pelo interior da França em busca dos seus novos protagonistas, retomando o gosto de ambos pelas imagens e pela arte do encontro.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Aprendizagens Essenciais
Ter vinte anos é
mágico já que o pesadelo
ainda se anuncia lá
ao longe
não ocorre pôr de
lado qualquer empreitada
surgimos fundidos
na fotografia
de acordo com
descrições e orientações
ligeiramente prescritas
Avançaremos na
idade sem instruções
julgando ter
cumprido minimamente o programa
voluntariosos cumprimos
compromissos
com dúvidas apagadas
em base comum
presos à ténue referência
que retiram
vigor e virtude na correria
atrás do prejuízo.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Conservamos os Veleiros Sem Cuidar do Pano das Velas
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| Desenho de Petar Šćulac |
E se as formigas voassem, os garajaus falassem e as cagarras fossem infiéis? Seríamos felizes ao entardecer? E se as baleias mastigassem? Sobre uma companhia teatral abate-se uma tragédia: o texto a encenar não está concluído. Um produtor ansioso quer muito pô-lo em cena muito em breve. Um encenador conhecido é aguardado e convidado para montar a peça numa ilha. O autor do texto encontra-se encerrado no seu quarto e bloqueado sem acesso ao mundo. Os actores vão recebendo instruções para ensaiar tal como ténues orientações do texto. Entretanto, enquanto aguardam, vão falando sobre o tempo lá fora, a pesca do bacalhau, o período da Guerra Fria e o fim da história. Este é um projecto que, partindo do drama da incompletude da peça, dramatiza e problematiza uma reflexão em torno do acaso no processo de criação, mas também da reflexão quotidiano, da história e dos contornos políticos. É um projecto que resultará de um trabalho de parceria com os actores voltando a reunir a equipa de Sala de Embarque que irá construir, improvisar e recriar de novo um texto irrepetível.
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Situação da Arte - Inquérito junto de Artistas e Intelectuais Portugueses
“-Eu
conheço muito mal a arte. Sou novinho e normal e ando nos estudos. Este ano o
senhor professor está a ensinar-nos o que é a estética. Eu ando a ler um livro
muito bonito feito há muito tempo por um senhor que já morreu chamado Platão.
Isto porque já os antigos se preocupavam com estas coisas. Faço
quadradinhos, o que me dá o direito a ser tratado de artista plástico, e agora
chamam-me intelectual português, e quem sabe se não me estragaram a vida toda
ou se me não estragaram toda a vida. Ou assim. E então artista plástico faço
uns quadros. E os artistas plásticos têm de ser burros, o que é pelo menos a
primeira coisa que as pessoas (certas) estão à espera (ainda) que eles mostrem.
E afinal que digo? Meus senhores, a arte é, isto é, tinha obrigação de ser, o
meu ganha-pão. E aí, a arte é uma coisa séria. Et là je m´énerve. Eu gosto
muito da arte.”
Eduardo Batarda
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